Júlio Monteiro, tio de Sócrates, diz que o e-mail mandado pelo filho foi infeliz, mas que não foi feito com maldade.
Correio da Manhã – O seu sobrinho José Sócrates diz que o e-mail do seu filho Hugo [enviado para Charles Smith e em que aquele sugere contrapartidas por o seu pai ter promovido um encontro com o então ministro do Ambiente] foi um abuso de confiança. Concorda?
Júlio Monteiro – Tenho de concordar. O e-mail existe e foi um acto infeliz e impensado do meu filho. Mas eu acredito que não foi com maldade, nem para prejudicar o primo.
– Então, qual era o objectivo do documento?
– Ele estava aflito. A empresa de marketing e publicidade que geria – a Neurónio Criativo – não conseguia facturar. Ele deve ter visto no projecto Freeport uma oportunidade para fazer um contrato, para facturar. E achou que falando no nome do primo poderia facilitar. Mas repito. Não foi para prejudicar José Sócrates, nem para obter dinheiro ilícito. Aliás, esse e-mail nunca obteve resposta.
– O seu filho já falou com o primo, hoje primeiro-ministro, sobre este e-mail e sobre a polémica que agora se gerou?
– Não. Ele nem sequer está agora em Portugal. Foi para o estrangeiro refazer a vida dele. Ele não quer falar do assunto.
– Mas podiam ter falado por telefone. O seu filho foi atacado publicamente pelo primo. Ele não se quer explicar, pelo menos ao nível pessoal?
– Para quê? O assunto já é público, já causou danos suficientes. Acho que agora não há mais nada a fazer. É como diz o meu sobrinho. Que a investigação avance rapidamente e que se esclareça tudo até ao fim. É também o que eu quero.
– O primeiro-ministro diz que não é coincidência este caso surgir novamente a público, num ano eleitoral. Concorda?
– Concordo. É claro que é um ataque político. Na conferência de imprensa ele foi muito esclarecedor. Disse que não tinha nada a ver com as nossas actividades empresariais, e isso é verdade. O problema foi mesmo este acto infeliz do meu filho.
– Mas há também o encontro que afirma ter promovido entre o promotor inglês Charles Smith e o seu sobrinho, então ministro do Ambiente.
– Sim, é verdade. Falei com o meu sobrinho de que o promotor inglês me contou: que os advogados estavam a exigir quatro milhos de euros. E ele disse-me para o Charles Smith falar com ele, mas até hoje nunca soube se falaram.
– José Sócrates nega e diz que nem tem memória sobre ter tido essa conversa. Acha normal que um assunto dessa importância e gravidade seja esquecido?
– Pois, não sei. Passaram alguns anos, há muitas conversas e um político tem muitas conversas e tem muitas prioridades.
– E como está a ver toda esta polémica que envolve a família?
– É tudo desumano. Para ele e para nós.
ROGATÓRIA ATRASA INVESTIGAÇÃO
A investigação, que estava a cargo da Polícia Judiciária de Setúbal e do Ministério Público do Montijo, esteve parada durante cerca de três anos. Estava dependente da resposta de cartas rogatórias, enviadas para Inglaterra, em que se suspeitava que poderiam ter sido depositados os quatro milhões de euros em ‘luvas’ que teriam estado na origem do licenciamento. Paralelamente, os ingleses abriram um inquérito depois da falência da empresa proprietária do Freeport e conseguiram encontrar o rasto do dinheiro. Perceberam rapidamente a ligação às empresas portuguesas.
RECOLHIDOS
A família de Júlio Monteiro optou ontem por passar o dia em casa. Apenas um indivíduo saiu da casa da Quinta da Bicuda, em Cascais. Segundo os vizinhos, o homem que se vê na foto será Nuno Monteiro, primo de José Sócrates. O ‘CM’ não conseguiu confirmar esta informação junto da família.
REPRESENTANTES INGLESES ESQUECIDOS
Nem o ex-presidente da Câmara de Alcochete, José Inocêncio, nem Rui Gonçalves, então secretário de Estado do Ambiente, se recordam dos nomes dos representantes da Freeport PLC presentes na reunião com o então ministro do Ambiente, José Sócrates, e outros responsáveis de organismos públicos. E dizem nunca ter ouvido referência à prática de corrupção naquele projecto.
José Inocêncio lembra-se de que 'a reunião ocorreu depois do dia 7 de Janeiro de 2002', quando tomou posse como presidente da autarquia. O antigo autarca confirma que pediu a reunião com o então ministro do Ambiente e que nessa reunião estive presente quase uma dezena de pessoas, das quais 'duas ou três eram representantes da empresa.'
O ex-autarca diz que a reunião serviu para perceber as causas da reprovação do projecto, depois de ter sido alterado pelos promotores. Já Rui Gonçalves escusou-se a abordar mais o assunto, mas já disse que a empresa inglesa deu resposta às alterações pedidas.
QUEM É QUEM
O processo é aberto na Polícia Judiciária de Setúbal em 2005, data das eleições legislativas. Uma notícia de ‘O Independente’, visando o então candidato a primeiro-ministro, acaba por causar sérios embaraços à justiça e o caso fica parado até 2008. No final do ano, através da cooperação inglesa, assiste-se a novo impulso. Já este ano são desencadeadas buscas domiciliárias e José Sócrates é obrigado a explicar publicamente atitude dos seus familiares.
A DENÚNCIA
QUERCUS ASSOCIAÇÃO AMBIENTALISTA
A denúncia da associação ambientalista Quercus esteve na origem da investigação das autoridades, a que se aliou uma carta anónima recebida pela Judiciária que dava conta do pagamento de ‘luvas’ com vista ao licenciamento.
A Quercus nunca dirigiu as acusações contra qualquer dirigente em concreto, mas assinou duas queixas, dirigidas à Comissão Europeia e à Inspecção-Geral da Administração do Território, por o centro comercial ter sido construído na zona do Estuário do Tejo.
QUEM INVESTIGA
CÂNDIDA ALMEIDA DIRECTORA DO DCIAP
A magistrada coordena o departamento do Ministério Público que investiga o caso.
CARLOS ALEXANDRE JUIZ DO TRIBUNAL CENTRAL DE INSTRUÇÃO CRIMINAL
Escutas, mandados e primeiros interrogatórios dependem da sua intervenção.
MARIA ALICE RESPONSÁVEL PELO DEPARTAMENTO DA PJ DE SETÚBAL
Em Setúbal teve durante três anos o processo. Agora, partilha-o com magistrados do DCIAP.
PEDRO CARMO NÚMERO DOIS DA POLÍCIA JUDICIÁRIA
Director nacional adjunto da PJ é o braço-direito de Almeida Rodrigues. É magistrado do MP.
LOPES DA MOTA MEMBRO DA EUROJUST E PROCURADOR-GERAL ADJUNTO
Procurador-geral-adjunto, coube-lhe a mediação enquanto membro português da Eurojust.
SUSPEITOS
JOSÉ SÓCRATES PRIMEIRO-MINISTRO
Não foi ouvido, nem visado por qualquer diligência. No entanto, um DVD na posse das autoridades ingleses reproduz uma conversa de Charles Smith que garante ter pago ‘luvas’ para o licenciamento.
JÚLIOP MONTEIRO TIO DE JOSÉ SÓCRATES
A sua casa e a empresa imobiliária de que é proprietário foram alvo de buscas. Júlio Monteiro assumiu ter sido ele quem promoveu o encontro entre os administradores do Freeport e Sócrates.
FREEPORT EMPREENDIMENTO COMERCIAL CONSTRUÍDO EM ÁREA PROTEGIDA
O espaço comercial Freeport de Alcochete foi construído em zona protegida. As suspeitas de corrupção estão relacionadas com a alteração à Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo (ZPET).
OUTROS ENVOLVIDOS
VIEIRA DE ALMEIDA RESP. PELO ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS QUE TRATOU DA LEGALIZAÇÃO
Vasco Vieira de Almeida é um conhecido advogado da capital. Foi pelo seu escritório que passou todo o moroso processo de legalização do espaço outlet em Alcochete. A PJ e o DCIAP fizeram buscas na passada quinta-feira, diligência que foi sempre acompanhada pelo juiz Carlos Alexandre, por se tratar de um advogado, cuja confidencialidade é protegida por lei. Vieira de Almeida garantiu nesse dia em comunicado que entregou às autoridades todos os documentos.
EDUARDO CAPINHA LOPES ARQUITECTO
O arquitecto assinou o projecto que permitiu a construção do Freeport. Foi este projecto que foi autorizado três dias antes das eleições legislativas de 2002 – em que o PS perdeu o Governo – depois de José Sócrates ter feito aprovar um decreto-lei que autorizava a alteração à Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo (ZPET). O envolvimento do arquitecto em todo este caso é para já desconhecida. Foi alvo de buscas quinta-feira.
PORMENORES
CONTRADIÇÕES
Júlio Monteiro, tio de Sócrates, diz que foi ele quem pediu a reunião com os ingleses. O primeiro-ministro nega.
QUATRO MILHÕES
Os ingleses detectaram o desvio de quatro milhões para pagamento de ‘luvas’. Charles Smith assumiu-o num primeiro momento ao administrador do Freeport.
TEMPO RECORDE
O pedido de licenciamento do Freeport foi feito em tempo recorde. Entrou na Câmara em Janeiro de 2002 e a 14 de Março o projecto era aprovado.
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