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Perdidos 1,1 mil milhões

BES, BCP e BPI desvalorizam 1,17 mil milhões de euros desde o início da semana. Dívida portuguesa está nos 4,8 %.
5 de Fevereiro de 2010 às 00:30
O que aconteceu com Portugal e Espanha influenciou a Bolsa americana. Nem os bons resultados da Cisco inverteram a tendência.
O que aconteceu com Portugal e Espanha influenciou a Bolsa americana. Nem os bons resultados da Cisco inverteram a tendência. FOTO: Brendan McDermid/Reuters

A desconfiança dos mercados internacionais em relação às finanças públicas do País e à capacidade de Portugal reduzir o défice para 3% do PIB até 2013 levaram ontem a uma debandada dos investidores da Bolsa de Lisboa. Foram mais de 1,1 mil milhões de euros que voaram da praça portuguesa, numa sessão em que foram transaccionados mais de 157 milhões de títulos, um máximo desde a falência do Lehman Brothers, em Setembro de 2008, com o PSI 20 a cair cerca de 5%

A palavra de ordem foi vender. 'Os investidores estão a percepcionar que não é bom investir em Portugal', disse ao CM Miguel Albuquerque, gestor de activos do Banco Carregosa.

A Banca foi a mais penalizada. Em apenas quatro dias os três maiores bancos nacionais (BES, BCP e BPI) perderam 1172 milhões de euros, o equivalente a uma média diária de 253 milhões. O banco de Ricardo Salgado foi o que assistiu a uma maior descida, perdendo 611 milhões. Já o BCP de Carlos Santos Ferreira viu o valor das acções desvalorizar 395 milhões desde segunda-feira e o BPI de Fernando Ulrich perdeu 166 milhões nesse mesmo período.

Para António de Sousa, líder da Associação Portuguesa de Bancos, 'a subida [do risco da dívida pública] afecta não só os bancos como todas as empresas que se financiam nos mercados internacionais, pois o custo do dinheiro está a aumentar'. Ainda assim, garante que os bancos nacionais ainda não estão a ter dificuldade em se financiar lá fora. 'O financiamento é somente mais caro', diz.

A sangria na Bolsa foi acompanhada por uma subida das taxas de juro sobre a dívida pública portuguesa (obrigações do tesouro a dez anos). 'A rentabilidade da dívida portuguesa, que no início de Janeiro era de 3,8%, atingiu ontem os 4,8%. A rentabilidade mede o risco. Quando existe um maior risco de incumprimento a rentabilidade tem de ser maior', explica Paulo Rosa da corretora GoBulling.com. Da mesma forma, também os preços dos ‘credit default swap’, os crédito – seguros contra um eventual incumprimento – sobre as obrigações a cinco anos, atingiram ontem novo recorde, batendo nos 224 pontos. Ou seja, por cada dez milhões de euros aplicados em dívida portuguesa os investidores têm de pagar um seguro anual de 224 mil euros.

DISCURSO DIRECTO

'É PRECISO FAZER MAIS CORTES', Miguel Albuquerque, Gestor de Activos do Banco Carregosa

Correio da Manhã – O que aconteceu ontem nos mercados financeiros?

Miguel Albuquerque – Os investidores começam a questionar-se sobre se os planos portugueses para reduzir o défice são viáveis.

– E porquê a Banca?

– O valor das acções é avaliado segundo as receitas futuras das empresas, descontando a taxa de juro. Com a dívida portuguesa a perder credibilidade internacional, o financiamento aos bancos será mais caro e as suas receitas serão mais baixas.

– O que deve ser feito?

– É preciso fazer mais cortes na despesa do que os que foram anunciados. A regra do ‘dois por um’ aplicada à contratação na Função Pública tem de ser aplicada às autarquias. Temos de equacionar uma descida de salários, tal como aconteceu na Irlanda. Os ordenados têm um peso muito grande na despesa do Estado. Esta situação não é sustentável a médio prazo.

JUROS COM VIGILÂNCIA APERTADA

O Instituto de Gestão e Tesouraria do Crédito Público (IGCP), organismo tutelado pelo Ministério das Finanças, está a acompanhar minuto, a minuto a evolução da taxa de juro sobre a dívida pública portuguesa, que ascende a 132,5 mil milhões de euros.

Para já, ao que o CM apurou, no IGCP não está prevista qualquer iniciativa para tentar acalmar os mercados financeiros, como aconteceu há duas semanas. O plano de financiamento da República portuguesa mantém-se inalterado: até ao final do primeiro trimestre deste ano Portugal deverá emitir entre 5,5 e 6,5 mil milhões de euros.

Ontem, a taxa de juro pública atingiu 4,8 por cento.

GLOSSÁRIO

CDS CREDIT DEFAULT SWAP

É um seguro contra o incumprimento no pagamento de empréstimos. Dessa forma, quanto maior for o risco de incumprimento (default) maior o prémio para garantir o crédito.

EURIBOR INTERBANK OFFER RATE

Taxa de juro interbancária da Zona Euro que é usada como referência, em vários prazos (o mais usado na habitação é a seis meses) nos empréstimos bancários.

YIELD

É, grosso modo, a rentabilidade de um investimento, calculada como uma percentagem do montante investido.

PERGUNTAS & RESPOSTAS

Porque é que Portugal paga o prémio de risco mais caro do que a Alemanha?

Os prémios de risco são definidos tendo em conta o valor do défice, da dívida ou do Produto Interno Bruto. Portugal está a ser visto como um país que pode ter dificuldades em pagar as dívidas, ao contrário da Alemanha, que, por exemplo, é grande exportador.

Porque está Portugal sob pressão?

Porque as contas públicas estão muito deficitárias e o Orçamento do Estado não tem os cortes que os analistas consideram necessários. Por isso, consideram que é grande o risco do País não cumprir os seus pagamentos

Os consumidores e as empresas são afectados por esta pressão?

Todos são afectados por esta pressão. O preço do crédito aumenta para Estado, bancos, ou seja, clientes e empresas.

RESGATE DA UE

Os tratados europeus impedem que um membro da Zona Euro intervenha directamente para salvar outro em apuros. Mas há alternativas que podem ser estudadas.

TRICHET NÃO COMENTA SITUAÇÃO DE PORTUGAL

Jean-Claude Trichet recusou-se ontem a comentar a situação económica específica de Portugal. Ainda, assim, o presidente do Banco Central Europeu (BCE) deixou o aviso de que as regras de correcção de défices orçamentais excessivos definidas no Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) são para cumprir por todos, sem excepção.

'É da máxima importância que o programa de estabilidade de cada país da Zona Euro defina claramente as suas estratégias de consolidação', sublinhou Trichet, que por várias vezes evitou comentar a situação de Portugal ou de qualquer dos outros Estados-membros.

Uma atitude bem diferente da mostrada no dia anterior pelo comissário europeu para os Assuntos Económicos, Joaquín Almunia, que não se coibiu de afirmar que Grécia, Portugal e Espanha 'partilham problemas comuns'.

Ontem, o gabinete de Almunia rejeitou que essa afirmação tenha partido do comissário, mas o estrago nos mercados financeiros já estava feito.

Para tentar salvar a situação, ontem à tarde o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, veio esclarecer que 'Portugal e Espanha não representam qualquer risco para a Zona Euro'.

REACÇÃO: FRASES INFELIZES

O ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, considerou ontem que as declarações docomissário Joaquín Almunia sobre Portugalforam 'infelizes' e 'enganadoras'

IMPRENSA: PAÍS EM DESTAQUE

Portugal esteve ontem em destaque na imprensa mundial, com os jornais a noticiarem queos receios quanto à dívida portuguesa estavam a ter efeitos negativos nas Bolsas do Mundo

ESPANHA: A PIOR QUEDA

O dia foi negro para todas as Bolsas, mas a que conseguiu o pior desempenho foi a praça espanhola. O Ibex caiu 5,94%, naquela que foi a pior queda em 14 meses

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