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PGR investiga mesmo sem queixa de cegos

Relatório da inspecção concluído até final do mês. Valdelaine Santos será operada hoje pela terceira vez desde que chegou a Lisboa. Famílias aguardam relatórios para irem às autoridades.
11 de Agosto de 2010 às 00:30
Valdelaine tem tido o apoio dos amigos Luís e Josiane e da irmã, Eliane Santos Viana (ao centro)
Valdelaine tem tido o apoio dos amigos Luís e Josiane e da irmã, Eliane Santos Viana (ao centro) FOTO: Ana Palma

A Procuradoria-Geral da República vai abrir um inquérito-crime ao caso das quatro pessoas que cegaram na sequência de uma operação, a 20 de Julho, na clínica I-QMed, em Lagoa. Segundo apurou o CM, ainda não foi apresentada queixa no Ministério Público. A PGR pode determinar a instauração de um processo, tal como aconteceu com as pessoas que ficaram cegas no Hospital de Santa Maria.

A investigar o caso está ainda a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde. Os inspectores já estiveram na clínica e ouviram o médico holandês que operou os doentes, bem como outros médicos que assistiram estas pessoas em vários hospitais. A IGAS deverá ouvir também os intervenientes de um novo caso envolvendo o médico da I-QMed (ver caixa em baixo, à direita).

No que respeita aos doentes internados no Hospital dos Capuchos, Valdelaine Santos, brasileira de 35 anos, é sujeita hoje à terceira intervenção cirúrgica desde que chegou a Lisboa. 'Os médicos estão a fazer de tudo para recuperar a visão da minha irmã', disse Eliane Santos Viana ao CM. Certa, para já, é a intenção de contratar um advogado. 'Fomos ao consulado para apoio jurídico. Aguardamos pelo relatório médico, para apresentar queixa formal.' Wander Sequeira, amigo que acompanhou a jovem brasileira e assistiu à cirurgia na I-QMed, relatou ao CM os acontecimentos desde o dia da operação até à chegada a Lisboa. 'Após a operação, esteve meia hora na sala de espera. Depois do almoço, já estava cheia de dores. Fomos transferidos para Beja, num carro particular, e fui eu quem lhe colocou umas gotas nos olhos. Em Beja, a médica disse que era muito grave.'

A família de um outro paciente, Ernesto Barradas, aguarda o relatório final para apresentar queixa às autoridades. O Centro Hospitalar de Lisboa Central remete esclarecimentos para o final desta semana.

RELATÓRIO ANTES DO FIM DO MÊS

Ao que o CM apurou, a Inspecção- Geral das Actividades em Saúde (IGAS) deverá entregar o relatório da investigação sobre a infecção contraída pelos quatro doentes na clínica I-QMed antes do final do mês. Os inspectores foram várias vezes à clínica e ouviram o médico durante toda a tarde de domingo. O número de doentes operados, os materiais usados, os procedimentos e se a clínica tem ou não seguros de responsabilidade profissional, foram algumas das informações solicitadas pela IGAS ao oftalmologista holandês, Franciscus Versteeg. A oftalmologia é, segundo um relatório da IGAS, a quinta especialidade em que ocorrem mais episódios de processos judiciais. O documento relata que apenas 7,5% dos prestadores de cuidados de saúde têm seguros de responsabilidade profissional.

'PAGUEI 500 EUROS PARA FICAR CEGA'

Em Inglaterra, tinham-lhe dito que não podia ser submetida a cirurgia laser para resolver a elevada hipermetropia de que sofria ( 6). Mas, em Lagoa, Catherine Donnelly, de 36 anos, encontrou Franciscus Versteeg, o director clínico da I-QMed, que não hesitou em operar. Acabou por ficar praticamente cega do olho esquerdo, com a visão reduzida a 10%. 'Paguei 500 euros para ficar cega', disse ao CM Catherine, que reside em Portimão. A inglesa foi operada no Outono de 2007 e depois disso já fez mais uma cirurgia laser e dois transplantes da córnea. Há três anos que é seguida clinicamente pelo holandês, mas só ontem decidiu apresentar queixa na GNR de Lagoa. Hoje, Catherine sente-se enganada: 'Confiei nele, nos seus modos simpáticos, na sua preocupação.'

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