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“Polícia destruiu a minha vida”

Inocente que passou cinco meses na prisão diz que a sua vida está destruída.
7 de Outubro de 2011 às 01:00
Agente Luís Maria terá simulado que Mário Brites (na foto) o tentou matar com dois tiros  de pistola.  Foi preso, mas a PJ descobriu a mentira
Agente Luís Maria terá simulado que Mário Brites (na foto) o tentou matar com dois tiros de pistola. Foi preso, mas a PJ descobriu a mentira FOTO: Diogo Pinto

Quando a juíza finalmente o mandou libertar da cadeia, onde passou os últimos cinco meses, inocente, por uma falsa tentativa de homicídio ao vizinho Luís Maria, o polícia que o incriminou em conluio com um colega da PSP, Mário Brites já não encontrou a vida que deixara no Cacém, Sintra. "Fiquei sem casa, durmo no carro. E sem emprego. Os polícias destruíram-me a vida".

Lavado em lágrimas, depois de libertado na última sexta-feira graças à intervenção da Polícia Judiciária, que conseguiu desmontar a farsa montada pelos dois agentes da PSP, o homem de 41 anos diz ao CM que agora ninguém lhe "quer dar trabalho".

Pai de quatro raparigas, com dois, sete, nove e 16 anos, já não pode pagar a pensão de alimentos à ex--mulher. "Não tenho dinheiro para alugar uma casa e não vejo as minhas filhas há cinco meses - não deixei que me fossem ver à prisão. Ali estava no inferno, tinha vergonha de as encarar". Emocionado, lamenta viver "da caridade dos outros".

Trabalhava há quatro anos na empresa Vulcanizadora Fragoso &Filho, em S. Domingos de Rana, que já não lhe dá o emprego de volta. "Nunca faltei um único dia e quando saí da prisão fui lá mas disseram que agora era difícil".

Tem como apoio a mãe, idosa, que a 30 de Abril o viu ser preso. A quezília com Luís Maria, por causa do condomínio do prédio onde ambos viviam, levou a que o polícia lhe montasse uma cilada, conforme concluiu a PJ e o CM avançou ontem. Em conluio com o colega António Nereu, da PSP, simulou que Mário disparou dois tiros à porta do prédio para o matar. Vários vizinhos, testemunhas, garantem ser mentira.

"Não cabe na cabeça de ninguém. Nunca lhe dei dois tiros e fui preso sem saber o que se tinha passado. Foi horrível. Encenaram tudo. Agora alguém vai ter de pagar por tudo isto.

PROCESSA PSP E ESTADO E QUER AGENTES PUNIDOS

De volta à liberdade, Mário Brites quer que a sua vida regresse à normalidade o mais rápido possível. "Quero sair desta miséria e acima de tudo que seja feita justiça. Tenho a vida toda estragada e quero que isto siga para julgamento". Vai processar a PSP e o Estado, com pedidos de indemnização por danos patrimoniais e morais "incalculáveis". À espera de reunir com o advogado, o inocente que esteve preso por tentativa de homicídio quer os polícias Luís Maria e António Nereu punidos. "Mentiram, forjaram e transformaram a vida de um pai de quatro crianças". Tal como o CM avançou ontem, os agentes incorrem em crimes como prevaricação, simulação de crime, abuso de poder e denúncia caluniosa, puníveis com pena de prisão.

"FUI PARA JUNTO DOS BANDIDOS E PASSEI FOME"

Mário Brites entrou no Estabelecimento Prisional de Lisboa a 2 de Maio. Diz ter passado fome e até ter sido maltratado. "Ninguém consegue imaginar o que eu passei ali. Estava 23 horas fechado. Meteram-me no meio dos bandidos quando eu não tinha nada a ver com eles. Cheguei a passar fome. No refeitório tinha de roubar pães para comer", lamenta. Ao longo da conversa com o CM, Mário Brites não conseguiu controlar as lágrimas quando falava nas visitas. "Só tinha a visita da minha mãe, já velhinha, e da minha namorada. Foi terrível", concluiu.

VULCANIZADORA FRAGOSO & FILHO ESCLARECE:

MÁRIO BRITES RESCINDIU

Na sequência da notícia publicada a 7 de Outubro no CM a propósito do inocente que passou cinco meses na cadeia pela tentativa de homicídio de um agente da PSP, no Cacém, que não terá cometido, a advogada Mónica Correia, em representação da empresa para a qual Mário Brites trabalhava até ser detido - a Vulcanizadora Fragoso & Filho, em S. Domingos de Rana -, esclarece que o funcionário não foi despedido.

"Foi o sr. Mário Brites a denunciar o seu contrato de trabalho, ao contrário do que foi noticiado [com base em declarações de Mário Brites]".

A advogada acrescenta que o responsável pela empresa não se recusou a falar ao CM, apenas não o fez porque não se encontrava nas instalações.

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