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Correio da Manhã

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Polícias mal informadas

O primeiro alerta nacional às polícias sobre a fuga do ‘Solitário’ não descrevia o carro que o apanhou à porta da cadeia de Coimbra. A GNR e a PSP lançaram a caça ao recluso na estrada sem saberem a matrícula, marca, modelo ou cor da viatura. Se a tarefa já é difícil, tornou-se ainda mais complicada.
11 de Março de 2005 às 13:00
O povo de Carvalhal do meio, aldeia natal do ‘Solitário’, sentiu ontem grande movimento de carros
O povo de Carvalhal do meio, aldeia natal do ‘Solitário’, sentiu ontem grande movimento de carros FOTO: Carlos Ferreira
Manuel Marques Simões, o homem que mais bancos assaltou em Portugal, evadiu-se com a ajuda de dois cúmplices armados às 16h45 de segunda-feira. O alerta da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais às polícias foi difundido na hora seguinte e continha o relato dos acontecimentos e o cadastro. Sobre o automóvel, visto pelo menos por um guarda prisional e um recluso, nenhuma informação, revelou ontem ao CM um oficial da GNR.
A PSP de Coimbra foi avisada de imediato, por telefone, mas depressa a frustração tomou conta dos agentes nas ruas. “Todos queriam saber a cor, marca e matrícula e só se sabia que era um carro pequeno”, disse uma fonte da corporação.
À dificuldade sentida pelas patrulhas da GNR e da PSP na fiscalização do trânsito juntou-se o problema da fotografia de Manuel Simões. A única disponibilizada foi enviada por fax, como é corrente. “É um borrão negro”, disse outro oficial, criticando a falta de qualidade da imagem.
Ao nível da eficácia na divulgação de dados sobre foragidos, o responsável ouvido pelo CM adianta que “há muito caminho a percorrer” e dá como exemplo o não aproveitamento dos meios informáticos e da internet. A evasão do ‘Solitário’ deu origem a um mandado de captura e a um processo no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Coimbra. A Polícia Judiciária está com o caso e todos os restantes órgãos de polícia foram alertados.
Sabendo-se que Manuel Simões viveu em França desde a década de 70, é de considerar a fuga para o estrangeiro. Até ontem, todavia, não existia mandado de captura internacional em seu nome. Segundo um elemento ligado à investigação, há prazos burocráticos a cumprir e “a questão está a ser preparada”.
"ELE NÃO É UM CRIMINOSO"
Manuel Marques Simões, de 55 anos, cresceu em Carvalhal do Meio, Ourém, e ainda é olhado com carinho pelo moradores que o conheceram. “No meu ver ele, não é criminoso, há bem piores”, disse ontem Maria Lourenço, explicando que o dinheiro roubado aos bancos “é como se fosse do Estado”. A fuga é o tema de todas as conversas na aldeia.
“A esperteza é grande”, comentava António Barreiro. Também ele vinca que o ladrão de bancos “nunca fez mal a ninguém” por ali. Nas últimas duas noites, uma movimentação anormal de viaturas inquietou alguns habitantes, mas a maioria não tem medo nem julga que o ‘Solitário’ apareça. “Ele para aqui nunca vem”, garantia Rosa Jesus.
TRÊS MULHERES E CHORO FÁCIL
FAMÍLIA
Antes de ser preso pela primeira vez, em Setembro de 2002, Manuel Simões já tinha iniciada a terceira relação conjugal. Vivia com uma mulher que conheceu na Polónia.
CRISES
Quando foi julgado no Tribunal da Anadia, o ‘Solitário’ tinha lapsos de memória. Durante o exame de avaliação psicológica feito pelos médicos forenses, teve várias crises de choro.
INQUÉRITO
Os Serviços Prisionais continuam a investigar como é que um recluso condenado a 15 anos e em início de pena tinha acesso à rua para despejar lixo como os presos de confiança.
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