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“Por favor não me faças isso!”

Não aceitou decisão da namorada em sair de casa e – apesar das suplicas de Sofia – assassinou-a a tiro, suicidando-se a seguir. Polícia já chegou tarde.
25 de Janeiro de 2010 às 00:30
Casal vivia, segundo os vizinhos, há cerca de seis meses no n.º 10 da praceta Frederico de Freitas, em Santa Marta do Pinhal, Corroios
Casal vivia, segundo os vizinhos, há cerca de seis meses no n.º 10 da praceta Frederico de Freitas, em Santa Marta do Pinhal, Corroios FOTO: d.r.

'Não faças isso, por favor não me faças isso!', ainda ouviu Maria Azevedo, vizinha da frente de Sofia, pouco antes de tudo ficar em silêncio no 4º andar do nº 10 da praceta Frederico de Freitas, em Santa Marta do Pinhal, Corroios, pelas 17h40 de anteontem, quando o namorado da jovem a abateu a tiro, suicidando-se de seguida com um tiro na cabeça.

A relação entre o jovem casal de cabo-verdianos já não estava bem há algum tempo, segundo apurou o CM junto de vários vizinhos. E as discussões e episódios de violência eram constantes, pelo menos desde que ali viviam, há cerca de seis meses, segundo as mesmas fontes. Anteontem à tarde, as roupas, a televisão, alguns quadros e mais alguns objectos pessoais já estavam alinhados no corredor do 4º andar, prontos a ser levados por Sofia, de 29 anos, que estaria disposta a sair de casa e que até levou uma amiga para a ajudar.

Mas assim que o namorado, de 31 anos, saiu do elevador e percebeu o que se passava estalou a violência. Agrediu a amiga de Sofia e puxou a namorada pelos cabelos para dentro de casa, trancando a porta, segundo uma testemunha. Em pânico, a amiga desceu para o rés-do-chão e saiu a correr para um café em frente ao prédio, de onde telefonou para a PSP de Corroios a relatar o sucedido. Em casa do casal o terror continuava, tanto que Sofia chegou a ligar para a amiga a pedir socorro, pois estava 'a ter uma violenta discussão com o namorado', segundo adiantou ao CM fonte policial.

A amiga voltou a ligar para a PSP, na altura em que o jovem, que segundo moradores já tinha sido segurança de uma discoteca na zona, puxou de uma arma e atirou a matar, suicidando-se de seguida com um tiro na cabeça. 'Já tinha ouvido tiros, mas aqueles dois disparos foram assustadores', recorda Estela Rocha, moradora no mesmo andar. Quando os polícias chegaram 'ainda tiveram algum tempo a chamar pelo homem, mas tiveram de arrombar', lembra Maria Azevedo.

NOVA LEI POR REGULAMENTAR

A nova lei sobre a violência doméstica foi aprovada pela Assembleia da República a 23 de Julho de 2009 – e prevê que os suspeitos possam voltar a ser detidos fora de flagrante delito. O diploma prevê ainda que o agressor, nas 48 horas seguintes à queixa por agressão, não possa ficar na residência do casal ou não possa ter contactos com a vítima. As associações de protecção às vítimas de violência têm criticado, no entanto, o facto de a nova lei ainda não estar regulamentada.

'VIOLÊNCIA A CRESCER': João Lázaro Director Executivo da APAV

Correio da Manhã – O número de pessoas vítimas de violência doméstica tem aumentado?

João Lázaro – O que tem aumentado é a participação destes casos à PSP e à GNR, não quer dizer que haja mais crimes.

– Mas a violência em que estes crimes se traduzem tem aumentado?

– Sim, é verdade que se nota um aumento da violência nestes crimes. O grau de violência é cada vez maior, com a utilização de armas brancas e de fogo. Há cada vez mais traços de criminalidade violenta, o que nos deixa preocupados. Também no namoro temos notado esse crescimento.

– E como se pode inverter esta situação?

– Através da prevenção, nas escolas. Mas isto não resolve tudo.

– Era importante que a nova lei fosse regulamentada?

– Era importante que, de uma vez por todas, as leis que existem fossem realmente aplicadas.

SAIBA MAIS

PERFIL DO AGRESSOR

Segundo estudos da UMAR, o agressor-tipo tem, actualmente, entre os 25 e os 40 anos e está socialmente bem inserido.

27 é o número de mulheres mortas pelos companheiros de Janeiro a Novembro do ano passado, registadas pela UMAR.

TRÊS VÍTIMAS ESTE ANO

Desde dia 1 já se contabilizam, pelo menos, três vítimas mortais de violência doméstica, todas abaixo dos 30 anos.

 

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