Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
2

"PR fez bem em vetar Lei do Divórcio"

D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, aprova o veto presidencial e critica o Partido Socialista por seguir um caminho de facilitismo.
27 de Setembro de 2008 às 22:00
'PR fez bem em vetar Lei do Divórcio'
'PR fez bem em vetar Lei do Divórcio' FOTO: Secundino Cunha

Correio da Manhã – Depois do veto do Presidente da República o PS disse que não vai mudar nada de significativo na nova Lei do Divórcio. Como é que a Igreja interpreta esta postura do PS?

D. Jorge Ortiga – O caminho do facilitismo e do total desrespeito pelos valores fundamentais da sociedade tem vindo a ser trilhado com cada vez maior intensidade no nosso país. A postura do PS não surpreende. Seria bom que reflectissem e emendassem a mão, mas não me parece.

– A Igreja gostou da posição de Cavaco Silva nesta matéria?

– O Presidente da República cumpriu a sua função de moderador. Analisou o projecto de lei e, ao não concordar com alguns aspectos, vetou-o e devolveu-o à Assembleia da República. Agiu de acordo com as suas convicções e acho que fez bem.

– Mas é certo que vai haver uma nova lei. Como encara esse facto?

– A Igreja Católica está preparada para viver num mundo secular e aceita todos os desafios impostos por essa realidade. Vejo muitos padres e até bispos preocupados com este mar tão cheio de facilidades quanto vazio de valores fundamentais, mas entendo que é nestas alturas adversas que a Igreja deve ser mais forte e realçar a sua diferença.

– Manuel Alegre criticou a JS por se preocupar apenas com as chamadas questões fracturantes e não se bater pela resolução dos problemas como o Emprego, Justiça ou Educação. Gostou de o ouvir?

– Gostei. É importante que as pessoas com responsabilidade chamem a atenção para o que é fundamental. O País vive um clima de insatisfação geral, devido a questões de fundo, como o desemprego, a violência e a criminalidade, que exigem intervenções sérias e necessitam da concentração de todas as energias de quem dirige. E também os jovens se devem preocupar mais com o que vai determinar o futuro.

'ACÇÃO É INCOMPARÁVEL'

CM – Vai ser votado no Parlamento um projecto de lei para aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Teme que a lei seja aprovada?

D. Jorge Ortiga – Devo dizer muito claramente que a Igreja é contra o casamento homossexual. Aliás, a isso não pode chamar-se casamento. Penso que desta vez a vontade dos partidos mais à esquerda ainda não contará com o apoio da maioria dos deputados, mas estou convencido de que, infelizmente, mais dia menos dia virá a ser uma realidade.

– Há quem na Igreja acuse o Governo de estar a seguir os trilhos laicistas de Espanha. Concorda?

– Não sei se é um seguidismo ou um intensificar da fidelidade aos princípios do Partido Socialista, mas nota-se uma espécie de imitação ideológica. Defendemos a separação da Igreja e do Estado, mas não aceitamos que signifique a não aceitação da Igreja por parte do Estado.

– Verifica-se essa não aceitação?

– Não pretendemos qualquer privilégio, mas pensamos que é uma questão de direito reconhecer-se que a acção social, educativa e cultural da Igreja Católica em Portugal é incomparável e que esta é a Igreja da esmagadora maioria da população.

PERFIL

D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga nasceu em Brufe (V. N. Famalicão) a 5 de Março de 1944. Sacerdote desde 1967, foi nomeado arcebispo de Braga em 1999 e preside à Conferência Episcopal Portuguesa desde 2005.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)