Os efectivos do Corpo de Intervenção (CI) e do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP, destacados para a segurança do julgamento de 54 arguidos, no Tribunal de Monsanto, em Lisboa – respondem por vários crimes e ligações à Máfia italiana – receberam ordens para estarem atentos a eventuais intervenções de helicóptero, destinadas à libertação de alguns detidos.
Estas acções, que já ocorreram em estabelecimentos prisionais e tribunais de Itália, são marca registada da Camorra Napolitana.
O receio de que possam também vir a acontecer no âmbito deste processo foi, ao que apurou o CM, acentuado pelo facto de o cabecilha da rede – que está sentado no Tribunal de Monsanto – ser Aldo Martella.
Este italiano, alegado membro de uma subdivisão do grupo criminoso sediado em Nápoles, encontra-se a monte, tendo o Ministério Público emitido já um mandado de captura internacional, que permita fazê-lo sentar-se no banco dos réus.
Assim, foram colocados nos telhados do Tribunal vários operacionais do GOE que, devidamente armados, têm ‘luz verde’ para disparar perante ataques aéreos.
Neste cenário, tudo decorre num curtíssimo espaço de tempo: o helicóptero aproxima-se do perímetro do Tribunal, ao mesmo tempo que homens fortemente armados começam a disparar contra as autoridades policiais, abrindo caminho à (breve) aterragem da aeronave. Em escassos segundos, os detidos são ajudados a subir para o helicóptero, que rapidamente desaparece no ar.
Na primeira sessão do julgamento, que decorreu quarta-feira, estiveram presentes em Monsanto cerca de 70 operacionais do Corpo de Intervenção e do GOE.
O controlo de entradas e saídas em todo o perímetro do Tribunal é extremamente rigoroso. Todas as pessoas – advogados, arguidos, jornalistas e público – foram submetidas a detector de metais e revista pessoal.
Dos 54 arguidos, 23 são italianos, 17 portugueses, sete espanhóis e três brasileiros. Trinta e dois encontram-se em prisão preventiva ou domiciliária. São acusados de ter lesado mais de 300 empresas portuguesas em cerca de seis milhões de euros, através do roubo e falsificação de cheques.
ARTIMANHAS DA ACTUAÇÃO DO GRUPO
Os factos remontam ao segundo semestre de 2002 e primeiro de 2003. A organização operava a partir de Itália subtraindo e falsificando cheques de bancos portugueses que as empresas nacionais enviavam para aquele país.
Ao longo de vários meses, a rede infiltrou--se em Portugal, estabelecendo contactos em várias empresas, sobretudo têxteis e calçado, ao nível dos respectivos departamentos financeiros, que informariam da saída de cheques rumo a Itália.
Com identidades falsas, os burlões, com a alegada conivência de funcionários dos Correios, sobretudo de Roma e Milão, apoderavam-se das missivas. Na posse dos cheques forjavam os endossos, como se tivessem sido efectivamente realizados pelos destinatários dos cheques.
Sempre que o beneficiário era uma sociedade, a designação não era falsificada, uma vez que era muito fácil comprar um carimbo e efectuar um falso endosso. Quando os cheques tinham valores baixos, a organização procedia à sua alteração para valores mais altos, através de um processo tecnicamente quase perfeito.
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