Barra Cofina

Correio da Manhã

Exclusivos
9

Raptora de bebé libertada

Alice Ferreira, a mulher acusada de ter raptado um bebé no Hospital de Penafiel, em Fevereiro de 2006, foi libertada no final do mês passado. Aguarda agora o julgamento, que começa a 18 de Setembro, sujeita a pulseira electrónica.
11 de Julho de 2007 às 13:00
Alice, a raptora, no momento em que foi conduzida pelos agentes da Polícia Judiciária ao Tribunal de Penafiel
Alice, a raptora, no momento em que foi conduzida pelos agentes da Polícia Judiciária ao Tribunal de Penafiel FOTO: Estela Silva / Lusa
Regressou à moradia do ex-companheiro, que a perdoou depois de a ter denunciado às autoridades, e recuperou a tutela das duas filhas menores, de 11 e 13 anos, que tinham sido temporariamente colocadas numa instituição. “É melhor para as meninas”, disseram as técnicos do Instituto de Reinserção Social, ouvidas sobre a oportunidade de Alice sair da cadeia.
Na origem da libertação esteve o facto de Alice já ter uma moradia para onde voltar. Aliás, quando o juiz decidiu que ficava presa, no passado mês de Março, fê-lo essencialmente porque a mulher não tinha quem a acolhesse.
Nos três meses de reclusão tudo mudou. Carlos, o companheiro que no início do processo garantiu nunca mais querer ver Alice, informou o tribunal de que a aceitaria de volta. Pagaria as despesas básicas da casa com o seu próprio vencimento e ao seu pedido juntou-se um grupo de vizinhos. Enviaram um abaixo-assinado dando conta de que as filhas de Alice sofriam muito com a sua ausência e que a senhora seria recebida em casa e na zona de braços abertos. O responsável do centro social onde a mulher trabalhara dera igualmente conta de que se tratava de uma óptima funcionária e que merecia nova oportunidade. O mesmo acontecendo com a responsável pelo acompanhamento de idosos que assegurara que a mulher era uma profissional exemplar.
O juiz acabou por decidir que não havia perigo de continuação da actividade criminosa, nem de destruição de provas. Disse ainda que o alarme social, que determinara a primeira decisão de prisão preventiva, também já se esbatera. E determinou a aplicação da pulseira electrónica, embora afirmasse que os indícios do crime se mantinham seguros. Aliás cada vez mais fortes, atendendo a que o Ministério Público já tinha deduzido acusação pública por sequestro, num julgamento que começa em Setembro.
PERFIL
Alice Ferreira tem 38 anos. Começou a trabalhar aos 11, como costureira, mas manteve os estudos até ao 9.º ano. O primeiro casamento, de que resultou o nascimento das duas filhas, terá sido marcado pelos maus tratos. Alice saiu de casa ao fim de sete anos e juntou-se a Carlos, que vivia com um filho adoptivo. Nos últimos anos, trabalhou com idosos, mas ficou desempregada quando ‘engravidou’
DORMIU NO CARRO COM RECÉM-NASCIDA
No primeiro interrogatório a que foi sujeita, Alice Ferreira confessou os crimes. Disse que o fez porque o companheiro estava muito satisfeito com uma gravidez que só descobriu não existir dois meses depois e que levou a mentira em frente porque não teve coragem de o desiludir.
Alice afirmou depois que a 15 de Fevereiro de 2006, dia em que Andreia desapareceu, saiu de casa sem saber o que fazer. Deambulou pelo Grande Porto no seu carro e pensou matar-se para não revelar a verdade.
O que a levou ao Hospital de Penafiel, não consegue explicar. Só sabe que escolheu a unidade por ter lá estado um ano antes a acompanhar um irmão e que tudo depois se processou de forma rápida. Já na obstetrícia, viu um bebé, sozinho, a gemer e a chorar. Pegou-lhe, colocou-o no saco que trazia ao ombro e saiu.
Ambos dormiram no carro nessa noite e, no dia seguinte, Alice mostrou a filha. Que teria nascido no Hospital da Feira e que estava de boa saúde.
ALICE RECEBIDA DE BRAÇOS ABERTOS PELO COMPANHEIRO
O regresso de Alice Ferreira a casa, em Valongo, depois de três meses detida devolveu o sorriso ao companheiro Carlos Manuel. Os vizinhos da família vêem-no muitas vezes abraçado à mulher que, apesar de o ter enganado, por amor decidiu perdoar. Carlos viveu estes meses em desnorte, após descobrir que a bebé que acarinhara desde a nascença afinal não era sua.
“Passei pela casa e vi-o agarrado à mulher. Também já os vi os dois a pintar os muros do pátio. Penso que as coisas estão mais calmas desde que ela regressou há cerca de três semanas“, disse ao CM a vizinha Maria Conceição Ferreira. Alice é regularmente vista pelos vizinhos a passear no pátio da moradia e sabem que esta recebe visitas dos familiares.
A ausência de Alice e das duas filhas desta, acolhidas no Centro de Acolhimento de Crianças em Risco Mãe d’Água, em Valongo, fizeram com que Carlos visse ficar vazia a casa, anteriormente cheia de vida.
“Teve de ser acompanhado por um psicólogo, porque aquela situação afectou-o muito”, conta João Carlos Neves, proprietário de um café que o casal costumava frequentar. “Ele fez tudo por tudo para ter de novo a mulher em casa. Após o impacto inicial decidiu perdoá-la e ia muitas vezes à cadeia vê-la”, acrescentou.
A felicidade do casal só não é completa, porque durante o período mais instável Carlos se desentendeu com o filho adoptivo, de 14 anos, pelo que a Comissão de Protecção de Menores decidiu enviá-lo para casa da mãe adoptiva em Gaia.
As opiniões em relação ao regresso de Alice dividem-se na vizinhança, entre os que não a conseguem perdoar e os que pensam que o regresso “vai fazer bem às duas filhas que já sofreram demais”.
CRONOLOGIA DO REGRESSO DE ANDREIA A CASA
17/02/06
Bebé recém-nascida desapareceu do Hospital Padre Américo, em Penafiel, depois de ter sido colocada na zona da enfermaria e de a mãe ter ido jantar.
18/02/06
O hospital lançou um apelo dramático, pedindo aos raptores para devolverem a bebé que, com apenas 2,5 quilos de peso, necessitava de assistência cardiológica.
07/03/06
Albino e a mulher Isaura foram ouvidos durante cinco horas na Polícia Judiciária.
13/06/06
A PJ divulgou os primeiros fotogramas da mulher suspeita do rapto, colhidas pelas câmaras de videovigilância.
12/03/07
Alice foi presa, depois de Carlos a denunciar à PSP de Valongo. Confessou imediatamente o rapto e devolveu a bebé que estava bem de saúde.
NOTAS
ADVOGADA PEDE ADIAMENTO
A advogada de Alice Ferreira pediu para que o julgamento não começasse a 11 de Setembro, porque está no estrangeiro
DORES IMPEDIAM SEXO
Durante os meses em que simulou a gravidez, Alice evitou contactos íntimos com o companheiro. Dizia que o sexo lhe provocava dores
FALTA DE DOCUMENTOS
Foi a falta de documentos que levantou as suspeitas dos familiares. Carlos queria baptizar a filha, Alice nunca a tinha registado
Ver comentários