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Ravinas são as zonas mais perigosas nos incêndios

Em pleno incêndio, não há locais bons para se estar. Mas os vales e ravinas são, dizem os bombeiros, dos piores sítios para alguém ser apanhado pelas chamas – como aconteceu segunda-feira, em Mortágua, ao pronto-socorro florestal em que seguiam os sapadores de Coimbra.
3 de Março de 2005 às 13:00
O fogo nas encostas e os ventos tão fortes como irregulares podem criar um inferno no espaço de poucos segundos. “É uma sensação de total impotência”, admite ao Correio da Manhã o comandante de uma corporação do centro do País.
Escassos dois dias depois da morte dos quatro sapadores de Coimbra, e com a tese de ter existido falha humana a ser discutida, ninguém arrisca cenários sobre o acidente. Mas todos concordam que era quase impossível ter ocorrido em pior local e em condições mais difícieis. “Quando sobe a encosta, o fogo tem uma velocidade catorze vezes superior à registada a descer ou em terreno plano”, refere um outro comandante de bombeiros, também da zona centro.
De acordo com as informações disponíveis, o pronto-socorro florestal em que seguiam cinco elementos dos Sapadores de Coimbra dirigia-se para a frente de fogo quando foi surpreendido pelas chamas a meio de um desfiladeiro, não muito longe do fundo, a zona onde as encostas se juntam. Além disso, as chamas avançavam de baixo para cima num terreno coberto de eucaliptos.
“Neste tipo de terreno, pode acontecer uma de duas situações. Uma hipótese é o fogo já ter passado para baixo, queimando a vegetação seca e aquecendo o cimo das árvores. Depois, volta para cima e progride pelas copas a uma velocidade impressionante”, descreve o responsável de uma corporação do Alentejo.
A hipótese mais temida pelos bombeiros tem o nome de ‘efeito chaminé’. As chamas que consomem uma das encostas são projectadas para o lado contrário, pelo ar. A humidade é baixa, a temperatura alta e tudo se transforma numa bola de fogo. “Há uma explosão”, diz um bombeiro – que, como os outros, não quer ser identificado.
Mas não chega considerar apenas a geografia do terreno. As condições meteorológicas são determinantes. “Naquele dia, o vento estava a soprar com rajadas irregulares e a velocidades que chegavam a atingir os 80 quilómetros por hora. E isso pode ser suficiente para alterar tudo de um segundo para o outro”, revela ao CM um bombeiros que combateu incêndios na mesma zona onde morreram os quatro sapadores.
Domingos Xavier Viegas, professor universitário em Coimbra e especialista em matéria de fogos florestais, acrescenta ainda mais um dado. “O próprio fogo cria as suas condições”, explica. A temperatura influencia o vento, torna-o imprevisível, altera a pressão na zona do incêndio. “A progressão das chamas numa ravina torna tão difícil combater o fogo como escapar dele”, diz Domingos Xavier ao CM.
Os bombeiros concordam. “Há momentos em que não se pode fazer nada. É tudo demasiado rápido”, lamenta um comandante. “Pode não haver falhas e o fogo mudar de repente. Só estando lá para perceber o que pode acontecer.”
À ESPERA DO INQUÉRITO
“Fico estupefacto como é que em dia e meio se consegue avaliar tudo e se diz que houve falha humana”. Fernando Curto, da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, comentou assim a hipótese de falha humana na morte dos quatro sapadores. Aceitando-a como possível, Fernando Curto prefere aguardar pela investigação. “Não vale a pena haver hipocrisia, é preciso defender os bombeiros”. Já o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Duarte Caldeira, considerou que “a falha humana tem de ser equacionada no inquérito.” O testemunho do bombeiro sobrevivente será decisivo para apurar o que ocorreu em Mortágua. “A melhor estratégia para combater o fogo foi adoptada”, disse, por seu lado, o comandante dos Bombeiros de Vila Nova de Poiares, garantindo ter documentos que provam esta situação.
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