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São João sem meios para bebés em risco

Recém-nascido foi transportado de ambulância do Porto para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
8 de Setembro de 2010 às 00:30
O Hospital de São João não tem equipamento parar tratar os recém-nascidos quando nascem em asfixia, problema que pode originar paralisia
O Hospital de São João não tem equipamento parar tratar os recém-nascidos quando nascem em asfixia, problema que pode originar paralisia FOTO: Sónia Caldas

Um recém-nascido foi transferido ontem, de ambulância, em estado muito grave, do Hospital de São João, no Porto, para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, devido à ausência de meios técnicos para tratar um problema de asfixia que surgiu durante o parto. "Não temos ainda o equipamento", admitiu ao CM fonte da administração do Hospital de São João.

Neste momento, a criança está a ser tratada na Neonatologia de Santa Maria, através de hipotermia induzida, e continua em estado grave. O director do serviço, Carlos Moniz, diz ser prematuro saber se terá sequelas cerebrais por falta de irrigação de sangue causada pela asfixia.

O tratamento de hipotermia induzida consiste no arrefecimento controlado da temperatura do corpo, mantendo-a nos 33,5 graus durante 72 horas. São precisos mais três dias para completar a terapêutica que evita as complicações neurológicas, sendo a forma mais grave a paralisia cerebral.

Carlos Moniz sublinha que a técnica é eficaz se for iniciada nas primeiras horas de vida. "Há uma janela terapêutica de seis horas que é determinante para anular ou atenuar as sequelas neurológicas da criança." O bebé foi transferido "antes das seis horas" após o parto.

Segundo o São João, "A mãe foi seguida por um médico particular na gravidez e estava com mais de 41 semanas quando deu entrada no hospital. Quando rompeu a bolsa de águas rompeu-se o cordão umbilical, que estava mal implantado. O hospital desconhecia a anomalia. O bebé nasceu em morte aparente e foi reanimado", adiantou.

NÃO EXISTEM MEDICAMENTOS PARA A PARALISIA

Não existem, em Portugal, medicamentos eficazes para tratar a paralisia cerebral (encefalopatia hipóxico-isquémica), pelo que os bebés eram, até muito recentemente, tratados apenas com as terapêuticas de suporte nos cuidados intensivos. Pelo que o CM apurou, apenas dois hospitais, ambos localizados em Lisboa, dispõem da técnica da hipotermia induzida: o Hospital de Santa Maria e a Maternidade Alfredo da Costa. A paralisia cerebral é um quadro muito grave de asfixia neonatal, causada por complicações ocorridas durante o trabalho de parto, no parto ou na reanimação do bebé. A asfixia neonatal pode ainda ser uma consequência do descolamento da placenta, uma situação aguda, súbita e imprevisível, que pode acontecer num espaço de apenas cinco minutos.

SANTA MARIA TRATA 12 CRIANÇAS

O serviço de Neonatologia do Hospital de Santa Maria já tratou doze crianças desde Janeiro, através do tratamento da hipotermia induzida. Em declarações ao CM, o director da unidade, Carlos Moniz, considerou importante o investimento no equipamento que induz a hipotermia para tratar a asfixia neonatal. "Demos prioridade na aquisição do equipamento, que nos custou cerca de 75 mil euros, incluindo monitor cerebral contínuo, adjuvantes e fatos descartáveis, além da formação de médicos e enfermeiros no Reino Unido." Questionado sobre a falta do equipamento no São João, o especialista afirma entender as prioridades de gestão. "O País não pode ter tudo em todo o lado e o Hospital de São João [de dimensão semelhante ao Hospital de Santa Maria] entende ter outras prioridades na gestão das contas e optou por transferir a criança." O bebé continua em tratamento. A mãe encontra-se bem, segundo o São João.

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