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Sexo para todo o Mundo ver

Fazê-lo em lugares públicos está na moda.
Vanessa Fidalgo 8 de Maio de 2016 às 01:45
As novas tecnologias estão a tornar as escapadinhas em público mais perigosas
As novas tecnologias estão a tornar as escapadinhas em público mais perigosas FOTO: D.R.

Há poucos dias, um casal foi filmado numa estação do metropolitano de Barcelona a fazer sexo. No Cazaquistão, outro casal parou o carro no meio da autoestrada para dar largas à vontade contra o rail. Em Lisboa, há casais a dar largas ao desejo nas casas de banho de discotecas, como o Main. Mas o sexo em público já tem barbas. E só não morre de velho, porque a tecnologia se encarregou de lhe dar audiências. Cristina Mira Santos, psicóloga e terapeuta sexual, reconhece que é uma tendência "crescente" mas faz notar que pouco ou nada terá a ver com sexualidade. "Na escolha de um lugar público para o ato sexual, há uma componente de voyeurismo e exibicionismo, em que a excitação e a erotização advêm do risco de se ser descoberto ou apanhado. Mas só é isto se for feito em plena consciência. Os casos da discoteca, contudo, apontam para outras variáveis, como o consumo de álcool, drogas e os comportamentos sexuais de risco, se atendermos à questão da segurança. E certamente não haverá consciência total do que se está a passar ou até da possibilidade de estarem a ser observados e filmados e das consequências."

O fenómeno passa ainda pela banalização do sexo, que deixa de ser "um momento especial, íntimo, de profunda cumplicidade" e tem como consequência a "fragilidade emocional e a revolta" quando as situações chegam à montra da internet.


Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosna.Net, sublinha que o fácil acesso e a proliferação de tecnologias com câmaras incorporadas são um gatilho impiedoso. "Nos casos que têm sido notícia importa sublinhar que os atos sexuais, apesar de terem lugar num local público acontecem num local supostamente privado (uma casa de banho) e que são filmados e divulgados por terceiros, aparentemente sem o consentimento dos visados. Até quartos de hotel têm sido usados para proceder a gravações sub-reptícias e ilegais da intimidade dos utentes", relata. 


"Mais do que nunca, importa que as pessoas percebam que não controlam a privacidade dos supostos espaços privados em espaços públicos. Até porque depois vem a internet. A fotografia e o vídeo digital vieram facilitar brutalmente a replicação de conteúdos, a sua descontextualização e a sua disseminação para audiências invisíveis, havendo uma erosão entre a esfera pública e a privada. A tudo isto acresce a facilidade com que se pesquisa conteúdos digitais deste teor, tornando-os muito fáceis de encontrar e o facto de, uma vez na internet, lá ficarem para sempre", adverte Tito de Morais.


PARA SEMPRE NA 'NET'

Se o despudor de fazer amor num lugar público pode ser moralmente reprovável, quando há replicação dos conteúdos – ‘sexting’, como é conhecido – facilmente o vilão se torna vítima. Já para não falar nos casos em que as supostas filmagens nem sequer correspondem à verdade…


"O rumor, o boato ou até a mera suspeita podem ser só por si devastadores. Recorde-se um boato que circulou a propósito de pretenso vídeo pornográfico de uma atriz portuguesa [Fernanda Serrano] que se veio a verificar não ser dela, mas de uma atriz de filmes pornográficos. No entanto, a primeira fez um desmentido em lágrimas na TV. Agora imagine-se se for real. E se no caso de um adulto já é dramático, imagine-se no caso de crianças ou jovens que se tornam alvo da troça, do assédio e insulto na escola, levando-os a mudar de escola e, por vezes, até de cidade. Só que as imagens perseguem-nos para onde quer que vão pois estão disponíveis na internet. Uma vez na internet, para sempre na internet. Os impactos ao nível do bem-estar emocional e da saúde mental podem ser devastadores", acrescenta o autor do livro ‘Cyberbullying – Um guia para pais e educadores’.


A captação de imagens, de cariz sexual ou não, e a sua partilha ou divulgação, carece sempre do consentimento dos visados. Se não for assim, é um crime previsto no Código Penal português. Mas são poucos os casos que chegam a tribunal, quer seja difícil ou fácil identificar os culpados.


Perto de uma escola secundária da zona Centro, não era raro nem recente os alunos envolverem-se em carícias mais escaldantes na mata sobranceira aos pavilhões. Mas o que dantes ficava guardado no verde frondoso, agora tem mirones indesejáveis de câmaras de telemóveis na mão. Quase sempre colegas, ciumentos ou aspirando atenção dos pares. O problema foi quando um vídeo de Hugo com a namorada (na altura ambos com 18 anos) começou a passar de email em email até chegar às redes sociais. O caso chegou à direção da escola e aos pais, quer dos visados quer do jovem que os filmou.


Os alunos ficaram proibidos de frequentar o matagal nos períodos de pausa escolar, mas não houve castigos, talvez porque as famílias optaram por não apresentar queixa. Esquecer parecia ser mais fácil do que enfrentar. Ou talvez não: "Assim que terminámos o 12º, ela foi logo para o Algarve e acabou por entrar lá na faculdade. Acho que não voltou mais à terra, nem de férias. O namoro acabou logo. No princípio, apoiámo-nos muito mas depois não falámos mais um com o outro sequer. Os meus pais entenderam melhor, os dela ficaram chateados, claro", conta Hugo, atualmente com 21 anos e também a estudar longe de casa e da terra onde muitos computadores pessoais têm guardado aquilo que nunca deveriam ter recebido.


Impreparados para lidar com a exposição pública da sexualidade dos filhos mostram-se os pais, conforme reconhece Isidoro Roque, presidente da Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais. "Os pais preocupam-se mas nem sempre sabem o que acontece. Além disso, existem pelo menos dois tipos de pais: os que têm conhecimentos sobre as redes sociais e os que não têm, seja porque não as frequentam, seja porque não têm conhecimentos para o fazer. E a grande maioria, independentemente da sua condição de conhecedores ou não, não tem noção dos perigos da exposição na internet. Nem os próprios jovens. Pensam que o que publicam fica restrito ao seu grupo de ‘amigos’, o que já de si seria perigoso, esquecendo que grande parte desses ‘amigos’ foram feitos na rede. Publicar nas redes sociais é como publicar na vitrina da padaria da zona, só que com uma plateia muito maior. E quando as situações acontecem, a maioria dos pais não sabem o que fazer nem a quem recorrer. Este mundo virtual não é fácil, sobretudo para quem não tem as ferramentas para o enfrentar."

 

OFENSAS A TERCEIROS NÃO FACILITAM REMOÇÃO DE CONTEÚDOS

 

Hoje em dia é mais fácil remover um conteúdo por violação de direitos de autor do que por ofensas a terceiros. "E nada garante que não volte a ser publicado por terceiros que entretanto fizeram cópias", explica Tito de Morais. O panorama pode vir a alterar- -se com a adoção do "direito ao esquecimento", mas até lá a "solução passa pela contratação de serviços especializados de gestão da reputação que adotam contramedidas para ‘esconder’ ou ‘camuflar’ os conteúdos dos resultados de pesquisa".


O sexting pode conduzir à coação, à extorsão e até aquilo que é conhecido por ‘revenge porn’, ou seja, pornografia de vingança.  

                                

ALVOS DE DIVULGAÇÃO DE IMAGENS DE CARIZ SEXUAL  

 

Carla Matadinho

Carla Matadinho estava a dar os primeiros passos na carreira de modelo quando imagens íntimas suas e do namorado se tornaram públicas. Ainda hoje o caso circula na internet.


Carolina Salgado

Fotografias íntimas de Carolina Salgado com o ex-namorado Francisco Rôlo foram parar a um site da internet, depois de alegadamente terem sido roubadas do computador do hoteleiro.  


Fernanda Serrano

Fernanda Serrano foi alvo de um boato, que a atriz desmentiu. Em imagens escaldantes foi confundida com uma atriz de filmes pornográficos. Apesar de falso, o episódio foi fragilizante.  


Kim Kardashian

Kim Kardashian e Paris Hilton foram as mais famosas protagonistas da moda das ‘sex tapes’, em que o sexo era aproveitado para capitalizar as próprias carreiras mediáticas.  


Tomás Taveira

Se o caso tivesse sido hoje [cassetes de sexo, cujas imagens foram publicadas] "as repercussões teriam sido maiores. Os conteúdos chegariam mais rápido a muito mais pessoas", frisa Tito de Morais.  

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