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Sida, cancro e hepatite tratados na farmácia

Os doentes com cancro, sida e hepatice C, entre outros que sofrem de patologias graves, vão poder tomar os medicamentos nas farmácias e não apenas nos hospitais.
22 de Outubro de 2006 às 13:00
A medida, anunciada ontem pelo ministro da Saúde, Correia de Campos, e aplaudida pelos farmacêuticos, merece forte contestação da Ordem dos Médicos. Esta entidade diz mesmo que a denuncia nas instâncias internacionais e ameaça com processos disciplinares todos os médicos que prescrevam os medicamentos para serem cedidos nas farmácias. Em causa está, assegura o bastonário, Pedro Nunes, risco grave de saúde pública.
Falando para centenas de farmacêuticos, no final do 8.º Congresso Nacional das Farmácias que ontem terminou em Lisboa, o ministro Correia de Campos afirmou estar em preparação medidas que permitem às farmácias distribuir medicamentos “altamente dispendiosos” para doenças como o cancro, sida, hepatite C e outras.
Estes novos serviços que podem vir a ser prestados nas farmácias são considerados por fontes ouvidas pelo CM como contrapartidas que os farmacêuticos vão receber do Ministério da Saúde por terem subscrito o Compromisso com a Saúde, assumido em Maio com o Governo. O protocolo visa a liberalização da propriedade da farmácia, a melhoria da acessibilidade aos medicamentos e a preservação da qualidade da assistência farmacêutica.
O ministro Correia de Campos explica as razões para a venda dos medicamentos que agora são fornecidos aos doentes pelos hospitais: “O controlo da administração destes medicamentos poderosos, agressivos, essenciais e dispendiosos tem cabido exclusivamente a hospitais do Serviço Nacional de Saúde e não há razões para que ele não seja partilhado com farmácias, nos tratamentos em ambulatório”, afirma.
Correia de Campos sublinha as regras a cumprir pelos farmacêuticos: “É necessário um controlo que passa pelo doente tomar, quando possível, o remédio na presença do farmacêutico, haver um registo individual para conhecer o grau exacto de adesão à terapêutica e uma comunicação ao hospital onde o doente se encontra em tratamento ambulatório, para que as decisões clínicas subsequentes sejam informadas.”
“Não temos dúvidas que trabalharemos bem nesta matéria”, diz.
PARECER TÉCNICO NEGATIVO
Estes argumentos não convencem o bastonário dos Médicos, Pedro Nunes, que tece fortes críticas: “O ministro deve estar distraído. Um parecer da comissão técnica – composto por farmacêuticos e na qual integrei, há dois anos – foi totalmente negativo. Se os medicamentos para a sida não forem monitorizados nos hospitais há um enorme risco de resistência do vírus da sida – à semelhança do que acontece com a tuberculose – que pode matar todos os doentes.”
Quer isto dizer, segundo o bastonário, que se os doentes com sida não controlam convenientemente a terapêutica, desenvolvem resistência aos remédios, o vírus (VIH) fica mais agressivo e os antiretrovíricos acabam por se revelar ineficazes. Os contágios entre as pessoas passam a ser feitos com vírus mais resistentes – conhecida que é a sua capacidade de mutação – e pode originar um problema grave a nível mundial.
A acontecer, seria um retrocesso na luta contra a sida, que hoje já não é considerada uma doença fatal para o doente, mas sim crónica.
Apesar disso, os farmacêuticos defendem o maior acesso ao medicamento.
CORDEIRO DIZ-SE PERSEGUIDO
O presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), João Cordeiro, diz-se perseguido pelo ministro da Saúde, Correia de Campos, e critica aquele Ministério de nunca responder às propostas de colaboração apresentadas pela associação.
Falando na sessão de encerramento do 8.º Congresso Nacional das Farmácias, o farmacêutico João Cordeiro afirma: “Nada fizemos para justificar a animosidade do Ministério da Saúde para connosco. Aos olhos das farmácias, o ministério elegeu-nos como alvo a abater, assumindo posições ou proferindo declarações que não podemos deixar de ler como de perseguição sistemática ao sector.” O ministro não comentou.
DOENTES PODEM TER DE PAGAR
O médico do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa João Oliveira afirma que os medicamentos de uso exclusivo hospitalar devem continuar a sê--lo e o estatuto de dispensa do medicamento não será alterado. Apenas os medicamentos dados ao doente no tratamento ambulatório é que podem vir a ser adquiridos nas farmácias.
Segundo o oncologista, os medicamentos cedidos nos hospitais são gratuitos para o doente, mas se forem adquiridos na farmácia terão de ser pagos, apesar da comparticipação. “Já existem alguns medicamentos para o tratamento do cancro que podiam ser comprados pelos doentes nas farmácias mas eram cedidos gratuitamente nos hospitais”, explica João Oliveira.
PERIGOS
SIDA
O controlo da doença obriga a uma terapêutica rigorosamente administrada e monitorizada, que passa por tomar vários medicamentos sempre à mesma hora marcada e à realização de análises clínicas regulares. Se assim não for feito, o doente desenvolve resistências e os medicamentos deixam de fazer efeito.
CANCRO
Existem vários tratamentos para a doença oncológica (quimioterapia, radioterapia, cirurgia). Alguns medicamentos para o tratamento desta doença, como é o caso do cancro da mama, podiam ser adquiridos nas farmácias, mas não o são, por uma questão de falta de regulamentação.
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