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Soares não condiciona Cavaco

A iminente recandidatura de Mário Soares à Presidência da República, que já conta com o apoio do próprio José Sócrates, não condiciona a decisão de Cavaco Silva avançar com uma candidatura às próximas presidenciais.
25 de Julho de 2005 às 13:00
Cavaco (à esq) e Soares (dir) preparam um duelo de titãs
Cavaco (à esq) e Soares (dir) preparam um duelo de titãs FOTO: d.r.
O ex-primeiro-ministro analisou ontem o novo cenário político e, segundo fonte próxima, concluiu que não há razões para alterar o ‘timing’ previsto para o anúncio da sua eventual candidatura, previsto para após as eleições autárquicas, que se realizam a 9 de Outubro. Mário Soares poderá anunciar a sua candidatura em Setembro.
Ontem, vários apoiantes da candidatura de Cavaco Silva sublinharam ao CM que a recandidatura de Mário Soares, dada como irreversível depois do apoio do secretário-geral do PS e das pressões para que seja candidato, “não influencia, de forma nenhuma, a decisão do professor Cavaco Silva”, nas palavras de Arlindo Cunha, ex-ministro da Agricultura do antigo primeiro-ministro. “Se ele interpretar que os portugueses o vêm como um factor de estabilidade e de confiança, avança com uma candidatura. O nome do candidato da oposição não é condicionante”, frisa.
Silva Peneda e Dias Loureiro, ex-ministros da Segurança Social e da Administração Interna dos governos de Cavaco Silva, alinham pela mesma ideia. Peneda diz que o aparecimento de Mário Soares como candidato presidencial da esquerda “não precipita o anúncio da candidatura” nem é “razão para alterar os ‘timings’ do antigo chefe do Governo. E Loureiro afirma que, “se Cavaco Silva for candidato, é porque pensa que é do interesse do País ser candidato” e “não pelos resultados de sondagens” ou de “outras candidaturas”.
O receio dos apoiantes da candidatura do ex-primeiro-ministro é, segundo fonte próxima de Cavaco Silva, que seja realizada na Comunicação Social uma campanha artifical pró-Mário Soares. A recente aquisição de uma posição importante na TVI por parte do Grupo Prisa, empresa espanhola de comunicação ligada ao PSOE, é, aliás, apontado como um exemplo de que esse receio se possa concretizar.
A verdade é que o anúncio de Manuel Alegre, na sexta-feira passada, de que estava disponível para ser candidato às presidenciais despoletou uma intensa movimentação no PS. Pressionado por Alberto Martins, líder parlamentar do PS, e Vera Jardim, ambos apoiantes de uma candidatura de Manuel Alegre, José Sócrates foi forçado a assumir uma posição, reconhecendo que Mário Soares “é um bom candidato”.
Com este apoio declarado do secretário-geral do PS, estava aberto o caminho para o ex-Presidente da República ponderar a sua recandidatura ao cargo. Ontem, depois de ter dito em Dezembro passado que “bastava de vida política” activa, Mário Soares revelava que vai “reflectir e contactar sectores muito alargados da sociedade portuguesa” antes de tomar uma decisão. E salientou, desde logo, que o apoio de Sócrates “tem um peso inegável”. Sendo a sua candidatura dada como “irreversível”, o anúncio poderá acontecer em Setembro.
Jorge Coelho, coordenador da Comissão Permanente do PS, já disse que “tudo se encaminha para que Mário Soares possa ser o candidato ideal para que o Presidente da República continue a ser da área política do PS”. E diz mesmo que “acha, sinceramente,“ que Soares é o único capaz de vencer Cavaco Silva.
Para já, o ex-Presidente da República conta com o apoio de 20 das 21 federações regionais socialistas.
CONFRONTO DE VELHOS 'AMIGOS'
Mário Soares e Cavaco Silva, cada um na sua área política, foram as duas figuras que mais marcaram a história do País no período pós-25 de Abril e o seu relacionamento nunca foi pacífico.
Conheceram-se era Soares primeiro-ministro do Governo do Bloco Central, quando Cavaco é eleito presidente do PSD. Cavaco protagoniza uma ruptura na coligação que leva à queda de Governo e convocação de eleições antecipadas que dão a vitória ao PSD.
Vivia-se em véspera de presidenciais e Cavaco Silva apoia a candidatura de Freitas do Amaral. Contra
o que indicavam as primeiras sondagens Mário Soares ganha à 2.ª volta as presidenciais mais renhidas da história portuguesa. Iniciavam-se dez anos de coabitação, durante os quais Cavaco Silva conseguiu duas maiorias absolutas.
No primeiro mandato a coabitação foi tranquila, com excepção dos assuntos relacionados com Angola e o apoio do presidente da República, levando Cavaco Silva a apoiar Mário Soares na sua recandidatura, o mesmo não sucedeu no segundo mandato, quando Soares apelava ao “direito à indignação” e Cavaco incluía o presidente no leque das “forças de bloqueio”.
VIDA DESCONTRAÍDA MOTIVA RESERVAS À CANDIDATURA
Cavaco Silva, nas suas sucessivas declarações públicas, invoca o seu estatuto de professor universitário, profissão e actividade de que diz “gostar muito”, como argumento para não se decidir a avançar com uma eventual candidatura à Presidência da República.
A par de uma vida profissional que lhe agrada e que o preenche, o professor de economia alega ainda a “vida familiar”, nomeadamente o sossego para “os netos”, como afirmou em Março passado à revista ‘Sábado’, durante umas férias na Baía.
Resta agora ver como acabará por decidir Cavaco Silva, depois de “consultada a família”, segundo o próprio.
Certo é que pela parte de pessoas que lhe são chegadas, a hipotética candidatura de Mário Soares não pesará nessa decisão (embora Pacheco Pereira seja da opinião que Mário Soares ainda justifica mais a candidatura de Cavaco Silva).
Já Medeiros Ferreira, histórico socialista e ministro de Mário Soares, defende que a candidatura deste é “irreversível”, “vence à 1.ª volta” e que resta ver “se Cavaco Silva assumirá o risco de uma segunda derrota fatal para as suas ambições”.
A mais recente sondagem, publicada pelo ‘Expresso’, dá a vitória de Cavaco contra Soares, por 56 contra 44 por cento.
ANÚNCIO ACELERA PROCESSO
“Fiz o que tinha a fazer”, desabafou ontem Manuel Alegre ao CM, lembrando que a sua manifestação de disponibilidade “acelerou todo o processo”.
Recusando comentar o apoio do primeiro-ministro e secretário-geral do PS, José Sócrates, a uma evental candidatura de Mário Soares, o deputado socialista insiste que “ainda não foi formalizada qualquer candidatura”. Manuel Alegre escusou-se também a comentar as declarações do ministro da Presidência, Silva Pereira, segundo as quais a sua candidatura não dividia o PS porque “apenas dois ou três nomes manifestaram apoio”.
Segundo apurou o CM, terão sido as pressões destes mesmos apoiantes, entre os quais o líder parlamentar Alberto Martins e Vera Jardim, junto de José Sócrates que levaram o primeiro-ministro a manifestar o apoio a Mário Soares, assim clarificando a posição da direcção do PS.
A RESERVA DO SILÊNCIO
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, que em recente entrevista ao ‘Diário de Notícias’ deixara a porta aberta a uma possível candidatura às presidênciais em nome do PS recusou ontem qualquer comentário aos mais recentes desenvolvimentos: anúncio da disponibilidade de Manuel Alegre e declaração de apoio de José Sócrates a Mário Soares.
Depois de na referida entrevista ter criticado Cavaco Silva, que antes dizia apoiar, e de não se pronunciar sobre Manuel Alegre, com o argumento de que “o voto é secreto”, Freitas do Amaral disse ontem, através da respectiva assessora para a imprensa, que “tudo o que tinha a dizer sobre as presidenciais, disse-o na entrevista”.
De recordar que na sequência dessa entrevista, elogiada por José Sócrates, Manuel Alegre veio a público dizer que Freitas do Amaral “jamais será o candidato do PS”.
REACÇÕES DOS PARTIDOS DA OPOSIÇÃO
PSD - ÚLTIMO RECURSO
O PSD considera que uma eventual candidatura de Mário Soares “é uma solução de recurso” que divide os socialistas e não cria “especiais dificuldades” aos sociais-democratas. “Uma eventual candidatura de Mário Soares é uma solução de recurso e é a expressão da divisão do PS”, disse Miguel Macedo, secretário-geral, assegurando que “o PSD está tranquilo e sereno” quanto às presidenciais. Macedo frisou ainda que o partido mantém a posição de debater as eleições presidenciais depois das autárquicas.
CDS-PP - DESESPERO DO PS
Para o CDS-PP a eventual candidatura de Mário Soares é demonstrativa “ do desespero que o PS atravessa ao não conseguir arranjar um candidato para o século XXI e ter de ir buscar o candidato de 1986”, considerou o dirigente Paulo Núncio, classificando a provável candidatura de Soares de “passadista”.
“É um regresso ao passado que não traz nada de novo”, justificou, acrescentando que Soares “representa o socialismo de uma certa esquerda”. Para Paulo Núncio, o PS está ainda a tentar desviar as atenções das autárquicas.
PCP - CANDIDATO PRÓPRIO
O PCP recusou fazer, ontem, qualquer comentário sobre uma candidatura de Mário Soares à Presidência da República. António Rodrigues, porta-voz do partido, sublinhou a intenção do PCP em avançar com um candidato próprio, do partido, às presidenciais.
“Foi uma decisão tomada pelo Comité Nacional”, lembrou, frisando que “hoje [ontem] essa decisão mantém-se”. António Rodrigues acrescentou ainda que a apresentação do candidato comunista deverá ocorrer “antes das autárquicas [9 de Outubro] e depois das férias do Verão”.
BE - EVENTUAL APOIO
O Bloco de Esquerda (BE) vai ponderar apoiar Mário Soares para a Presidência da República quando o fundador do PS tomar uma decisão quanto a uma sua candidatura, adiantou ontem o eurodeputado Miguel Portas recordando que, em Convenção Nacional, o BE “tomou uma decisão” quanto às presidenciais de 2006, que consiste em “apresentar uma candidatura na sua área, na qual se pudesse reconhecer plenamente”. No entanto, há agora “um contexto novo”, reconheceu o eurodeputado.
CRONOLOGIA
CAVACO SILVA
Crónico candidato, o nome de Cavaco Silva começou a ser mais falado depois de Santana Lopes, em Julho de 2002, ter afirmado a sua disponibilidade para encabeçar uma candidatura deste partido. Cedo se levantaram vozes a colocar objecções a essa candidatura, optando pela de Cavaco Silva. Já no final desse ano, a 2 de Novembro, o CM noticiava o “Regresso do tabu”, depois de um jantar entre Durão Barroso e Cavaco Silva.
Por sua vez, o professor de economia tem optado por guardar silêncio, não eliminando a possibilidade, mas também não assumindo uma candidatura. Cavaco Silva argumenta que é “um assunto sério” e tem de ser discutido com a família. Depois de ter dito que era uma questão para decidir “lá para o Verão” (este), já alterou o prazo para depois das autárquicas.
MÁRIO SOARES
No dia 8 de Dezembro passado, por ocasião do jantar do seu 80.º aniversário, Mário Soares dizia ainda: “Basta! Basta de política partidária”. Há uma semana, Marcelo Rebelo de Sousa fez eco público de rumores que corriam ainda em surdina. Logo se repetiram as manchetes de jornais com as pressões sobre Mário Soares e a possibilidade de ele protagonizar uma candidatura apoiada pelo PS.
Depois de Freitas do Amaral deixar a porta aberta e de Manuel Alegre assumir a sua disponibilidade, o primeiro-ministro e secretário-geral do PS, José Sócrates, manifestou o apoio a uma eventual candidatura de Mário Soares. Este escreveu ontem à Lusa, a dizer que vai “reflectir” e “contactar” sectores da sociedade antes de tomar uma decisão.
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