A noite do Porto está a ferro e fogo. Ontem de manhã a mãe e um dos irmãos de Ilídio Correia, morto na madrugada de quinta-feira, foram agredidos por membros do grupo da Ribeira.
A PJ esteve no local a registar as queixas, depois de ter ouvido outros dois irmãos da vítima em declarações que identificaram, sem hesitação, pelo menos três dos indivíduos responsáveis pelos disparos.
Os testemunhos coincidem com os que foram feitos por outras testemunhas, mas a PJ ainda não formalizou qualquer detenção. Os três suspeitos encontram-se neste momento a monte e as autoridades tentam fortalecer a prova de outra forma. Designadamente com a descoberta das armas usadas na noite do crime ou com mais testemunhos.
“A PJ sabe quem são. Os meus irmãos conseguiram vê-los e um até gritou ao chefe que ia denunciá-lo. Ele ameaçou-o, mas nós falámos”, disse ao CM Benjamim Correia, irmão da vítima, que não se conforma com a actuação da polícia. “Não sei do que estão à espera. Se querem que haja mais mortos. Isto não vai parar e também não vamos ficar à espera para morrer”, continuou, indignado, garantindo que os autores dos disparos são os mesmos que mataram Aurélio Palha no final do passado mês de Agosto. “Eles actuaram de cara descoberta e vão voltar porque moramos na mesma freguesia.”
Segundo apurou o nosso jornal, são vários os problemas com que a investigação se debate. Embora os autores estejam identificados encontram-se em parte incerta. Além disso a PJ teme avançar com prisões apenas com base na prova testemunhal. Toda ela muito frágil, tanto mais que as testemunhas poderão mudar de versão em julgamento. Além disso, tal como no caso da morte de Aurélio Palha, as testemunhas também estão envolvidas em crimes. Antes de serem atacadas protagonizaram ataques – o que levará as autoridades a ouvi-los na qualidade de arguidos e até a admitir que alguns possam ser presos.
Ainda segundo o CM apurou, os suspeitos pertencem ao grupo conhecido como o da Ribeira, autores até de uma música que circula na internet e que incentiva à violência.
PJ INVESTIGA HIPÓTESE DE CRIME PASSIONAL
A Polícia Judiciária não descarta a possibilidade de o homicídio de José Gonçalves se tratar de um crime passional. O advogado da vítima foi ontem ouvido na Direcção Central de Combate ao Banditismo e instado a dar elementos da vida do empresário.
Ao mesmo tempo, o Instituto Nacional de Medicina Legal recebeu “ordens superiores” para “não mexer no corpo” até à autopsia – que se realiza hoje de manhã, apurou o CM junto de fonte daquela entidade. O motivo da proibição prende-se com a necessidade de preservar todos os vestígios da detonação do engenho explosivo que vitimou o proprietário do bar o Avião.
A investigação está a “revirar toda a vida de José Gonçalves”, incluindo a tentativa de homicídio ocorrida há dois anos, em que foi alvejado com três tiros à porta de casa. O caso nunca foi resolvido.
O CM sabe que o homicídio de José Gonçalves surpreendeu tanto as autoridades como o meio em que o empresário se movimentava. “Ele não era ameaça comercial para ninguém. O Avião não tinha muito movimento”.
Ontem, a família de José Gonçalves esteve no Cinebolso, também propriedade da vítima, mas não quis prestar declarações ao CM. O Cinebolso é, a par do Cine Paraíso, um dos dois últimos cinemas porno a funcionar em Lisboa. Ontem esteve encerrado e não se sabe se voltará a abrir.
DEPOIMENTO EM LEIRIA "PODIA SER IMPORTANTE"
O depoimento de José Gonçalves no julgamento do caso Passerelle “podia ser importante” para se perceber como era feita a contratação das bailarinas de striptease, nomeadamente as que actuavam no bar Show Girls, nos Açores, do qual era sócio, defendeu ontem uma fonte próxima da Acusação do processo que está a decorrer no Tribunal de Leiria. De acordo com a mesma fonte, é “prematuro” estabelecer uma ligação entre o homicídio do empresário e o seu depoimento em Leiria, mas não é de excluir a hipótese de ele ter dito a alguém que estaria a ponderar contar tudo o que sabia, ajudando à condenação dos arguidos. O advogado de Vítor Trindade, o principal arguido, diz que o homicídio é um “reflexo da insegurança que se vive na noite” e o facto de ter ocorrido pouco antes de a vítima ser chamada a depor no processo Passerelle não passa de uma “coincidência”. Para Mapril Bernardes, defensor do fundador das casas de striptease, é “abusiva e exagerada” a ligação do homicídio do dono do bar o Avião ao processo Passerelle, já que o seu depoimento “não seria minimamente relevante”.
EMPRESÁRIO AINDA NÃO ESTAVA NOTIFICADO
José Gonçalves era a testemunha de acusação n.º 36 do caso Passerelle – que está a ser julgado em Leiria e envolve 1200 crimes relacionados com o tráfico de mulheres – e ainda não estava notificado para depor, pois o tribunal continua a ouvir os arguidos que aceitaram prestar depoimento. Ontem foram inquiridos os arguidos Ana Cristina Silva e Carlos Filipe Cardoso, que voltará a tribunal amanhã. Hoje será a vez de Bonifácio Peter. A morte de José Gonçalves não interferiu no julgamento, que ficou marcado pelos pedidos de reagendamento das sessões pela Acusação e pela Defesa, por haver dois recursos pendentes que podem levar à anulação das sessões já realizadas. O tribunal indeferiu-os e manteve a agenda estabelecida.
MARCA
O facto de ter sido usado um engenho explosivo pode ser significativo para os investigadores. Os autores do homicídio poderão ter entendido que tinham de deixar a sua marca, usando um método mais brutal.
VÁRIOS DISPAROS
Os dois homicídios mais violentos no Porto, o de Aurélio Palha e Ilídio Correia, foram levados a cabo por vários indivíduos, que dispararam diversas vezes. Em ambos os casos as vítimas foram atingidas na cabeça.
TESTEMUNHAS
Só quatro dias depois da morte do último empresário (Ilídio Correia) na noite do Porto os irmãos da vítima aceitaram depor à PJ. Antes disso tinham dito que nada tinham para revelar e evitaram a polícia.
MEMORIAL
Na rua, à frente da casa da mãe, onde foi morto, os amigos de Ilídio depositaram flores e uma vela. Recordam a morte do chefe dos seguranças, que liderava um grupo cujos problemas com o do Ribeira eram antigos.
INCÓGNITA
Ainda está por esclarecer o homicídio de Aurélio Palha. A sua morte também é atribuída ao grupo da Ribeira, mas a prova volta a assentar no testemunho do sobrevivente, que era o braço-direito do empresário.
NEGÓCIO DAS ILEGAIS AUMENTA
O negócio das mulheres ilegais aumenta de dia para dia. Tratadas como carne branca, são obrigadas a prostituir-se nos bares de alterne. Os patrões da noite têm também regras precisas de território
TESTEMUNHAS RECUSAM-SE A FALAR
Os casos envolvendo mortes em bares que assentem em prova testemunhal têm terminado sem resultados de forma recorrente. As testemunhas sofrem de ‘amnésia’ em tribunal e a prova fica sem efeito
CONTROLO DA NOITE EM CAUSA
Um dos maiores e mais antigos problemas da noite do Porto tem a ver com o controlo da segurança. Diversas ‘empresas’ privadas querem à força impor os seus serviços e as lutas pelo território são violentas
MAI PROMETE RESULTADOS
Apesar de não ter a tutela da PJ, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, garantiu que a investigação do atentado à bomba, em Lisboa, vai dar frutos
MELHORES POLÍCIAS
Paulo Portas afirmou ontem que “não é possível combater mais criminalidade com menos polícias”, questionando o Governo sobre os quatro mil agentes prometidos
SINDICATO ALERTA
A Associação Sindical dos Profissionais da Polícia alertou ontem o Governo para o facto de a polícia não ter meios nem preparação para combater o crime organizado
PORTUGUESAS
A duas bailarinas que seguiam com José Gonçalves no carro e escaparam ilesas à explosão são portuguesas. Fonte da Judiciária assegurou ao ‘Correio da Manhã’ que todas as strippers que estavam a trabalhar no bar na noite do atentado eram portuguesas.
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