Chegou ao Rio horas antes do que disse à polícia. Informação cruzada com telefonema feito de bairro perigoso.
As operadoras móveis brasileiras deram à polícia toda a informação sobre as chamadas que Duarte Lima fez e recebeu nas últimas estadias no Brasil. E quanto à última e mais importante, em que foi assassinada a sua cliente Rosalina Ribeiro, a localização celular dos telemóveis do advogado fez com que a polícia o apanhasse em falso. A 7 de Dezembro do ano passado, Lima diz que chegou ao Rio de Janeiro a uma determinada hora, mas, pelas informações das antenas que os aparelhos móveis accionaram em certos locais, a polícia descobriu que o português chegou à cidade horas antes.
Conforme contou à polícia depois do crime, saíra de Belo Horizonte – cidade no estado de Minas Gerais de onde é o assassino contratado que a polícia já identificou, conforme o CM avançou ontem – e chegou ao Rio, sozinho e de carro, a certa hora, após ter feito determinado percurso. Mas tudo isso foi alvo de análise cuidada, com base na informação celular, e os investigadores consideram ter encontrado contradições "relevantes".
Contradições a que não é alheio o facto de, na análise ao telefone de casa de Rosalina, a polícia ter descoberto, por exemplo, que quem ligou à vítima horas antes do encontro com Duarte Lima, servindo-se de um cartão de telemóvel descartável, estava num bairro do Rio conhecido pelo comércio de armas.
No dia do crime, Lima percorreu 400 quilómetros para se encontrar com a sua cliente no Rio – representava-a na disputa judicial pela herança de Tomé Feteira, milionário de quem a vítima fora secretária e amante. Diz que a apanhou perto de casa, já de noite, e a levou ao encontro de uma mulher em Maricá, a 60 quilómetros. Rosalina quis ficar sozinha, à porta do hotel Jangada, para falar de negócios com Gisele – loira misteriosa que ninguém conhece.
O advogado diz que voltou ao Rio, tendo dormido num hotel, e no dia seguinte voou para Lisboa – sem saber que Rosalina fora morta a tiro depois de ele a ter deixado. A polícia já chegou ao executante e, entre outros meios de prova para chegar ao mandante, cruza dados telefónicos do matador com os de potenciais suspeitos de terem encomendado o crime.
EXECUTANTE NAS MÃOS DA POLÍCIA
Encontrar o executante do crime – homem contratado para assassinar Rosalina Ribeiro com dois tiros, um no peito e outro na testa, abandonando o cadáver na berma de uma estrada perto de Maricá, a cerca de 60 quilómetros do Rio – foi essencial para a investigação, no sentido de reunir provas que conduzam a polícia ao mandante do homicídio. Os investigadores, conforme o CM avançou ontem, não só identificaram o matador, de Belo Horizonte, como sabem onde adquiriu a arma do crime. Objectivo era silenciar a mulher de 74 anos e roubar a pasta que ela levava – com informações comprometedoras.
CONSTITUIÇÃO DE ARGUIDO EM NOVA ROGATÓRIA
Depois de se ter recusado na Polícia Judiciária a responder às 193 questões que constavam da primeira carta rogatória, enviada pela polícia brasileira à Procuradoria-Geral da República, alegando o direito a conhecer primeiro o processo – na qualidade de testemunha –, Duarte Lima vai ter acesso a partes do mesmo. E depois chegarão a Lisboa mais questões, por via da cooperação judiciária, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, numa rogatória com perguntas mais incisivas sobre novos dados que chegaram à investigação. Ao que o CM apurou, a polícia brasileira pondera solicitar nessa altura a constituição de arguido de Lima – o que fará dele suspeito formal.
ADVOGADOS LEVAM MILHÕES SUSPEITOS
As contas de Rosalina Ribeiro no Brasil estão congeladas à ordem de um tribunal do Rio de Janeiro, conforme o CM avançou no domingo, a pedido de outros herdeiros do milionário Feteira, e a informação sobre as mesmas foi considerada essencial para a polícia na descoberta do móbil do crime – quem teria interesse em que a mulher de 74 anos fosse morta e porquê.
Em causa, apurou o CM, podem estar várias irregularidades cometidas, com procurações falsificadas em nome da mulher de 74 anos.
A polícia brasileira tem estado a investigar, por exemplo, a parceria existente entre o português Duarte Lima e o advogado brasileiro Normando Ventura Marques, que representava os vários interesses de Rosalina Ribeiro no Brasil.
Os investigadores da Divisão de Homicídios do Rio procuraram saber quem fazia o quê na defesa da vítima – para que se justificassem transferências das contas bancárias da herança Feteira, a que Rosalina tinha acesso, para as contas dos dois advogados: mais de um milhão de euros para Normando e cerca de sete milhões para Lima.
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