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Telemóveis tramam serial killer

Enganou-se e utilizou cartão do telefone de Joana no aparelho de Ivo
24 de Julho de 2010 às 00:30
Arquivo CM: Ivo, em 2006, dois anos antes de desaparecer, fotografado pelo CM ao lado de Leitão, quando a casa deste ardeu
Arquivo CM: Ivo, em 2006, dois anos antes de desaparecer, fotografado pelo CM ao lado de Leitão, quando a casa deste ardeu FOTO: Tiago Sousa Dias

Há dois erros que foram fatais ao serial killer da Lourinhã na escalada dos três homicídios – dois a 5 e a 26 de Junho de 2008, um a 3 de Março deste ano. Ao despistar as famílias das vítimas, fazendo-se passar por Tânia, Ivo e Joana no envio dos SMS para os pais, sempre dos telemóveis dos jovens, a dizer que estavam bem, no estrangeiro, Francisco Leitão acabou por dar provas essenciais à Judiciária. Inseriu o cartão do telemóvel de Ivo num aparelho que era seu – esta ligação fica registada na operadora móvel, uma vez que os aparelhos também deixam rasto na rede – e no caso de Joana ainda fez pior. Já este ano, depois de matar a jovem por namorar com Luís, rapaz que o suspeito de três homicídios desejava, enganou-se e inseriu o cartão do telemóvel da rapariga de 16 anos no aparelho que foi de Ivo até ser morto, em 2008.

Para o juiz Luciano Carvalho, que já pôs Francisco em prisão preventiva, estes são indícios fortes de que era ele quem tinha os telefones das vítimas. Se inventava SMS para as famílias, é ele o responsável pelo desaparecimento dos três jovens. O suspeito, recorde-se, foi detido terça-feira de madrugada pela Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da PJ. Primeiro, Francisco Leitão terá assassinado Tânia Ramos, 27 anos, por esta lhe ter roubado o namorado, Ivo. E o jovem de 22 anos, pela traição, foi a vítima seguinte, 16 dias depois. Em Março deste ano, chegou a vez de Joana Correia, aos 16 anos, só por namorar com Luís, jovem desejado pelo serial killer.

As famílias foram iludidas, tendo Francisco feito tudo para simular que os jovens estavam em Espanha e França, a trabalhar. As burlas que cometeu com a identidade de Ivo fazem prova – ter-lhe-á roubado os documentos, além do carro – e no caso de Joana, este ano, também foi apanhado a mentir. Disse à PJ que não tivera um encontro com a vítima a 3 de Março, mas uma amiga da jovem é testemunha do contrário.

DE CRIANÇA NORMAL A EXCÊNTRICO 'REAL'

Quando era pequenino era normal, como todos os meninos da sua idade." As palavras, da vizinha Francisca, carregam a sabedoria de quase 80 anos de vida. "Quando cresceu ficou diferente." Tão diferente que, além dos estranhos vídeos satânicos que colocava no YouTube, auto-intitulando-se filho de Lúcifer e profetizando tragédias do fim do Mundo, passava os dias com adolescentes a quem dava boleias dúbias até às discotecas da zona e ‘brincadeiras’ entre as quatro paredes de uma casa que mais parece um castelo ensombrado, com uma Branca de Neve e gnomos à porta.

Francisco José da Cruz Leitão, 43 anos, era considerado pela vizinhança, em Carqueja, Lourinhã, um homem "afável e prestável." Chegou a prestar auxílio a quem dele precisou, sobretudo levando idosos da zona ao hospital a Lisboa, em caso de necessidade. Aos familiares dos três jovens desaparecidos, Tânia, Ivo e Joana, mostrou interesse, preocupação e foi dando (falsas) pistas para os confortar. Tudo mentira, descobriu a polícia.

De criança normal a adulto com confusas opções sexuais, conhecidas na terra, foi o passo de uma vida que foi ganhando traços de excentricidade e dando que falar entre os vizinhos. Aos 20 anos casou com Rosa Nunes, mas o enlace pouco durou. O pai da rapariga, Rogério Nunes, nunca dera a bênção ao casamento, e considerava o genro "má rês". Confirmar-se--iam rápido as suas piores expectativas, quando, poucos meses depois do enlace, Rosa viria a pedir ao pai para regressar a casa. Apanhara o marido na cama, com um homem.

Francisca, a vizinha, lembra-se ainda das perdas do então jovem Francisco, que, tal como os irmãos, teve de superar a morte da mãe e a partida do pai, há cerca de 15 anos, para Setúbal – onde hoje vive com outra companheira. Francisco ficou com o negócio paterno, uma sucata que entretanto deixou ir à falência, e uma casa que converteu num estranho castelo quase fortificado.

Mas era discreto, e entre as quatro paredes, vigiadas com várias câmaras no exterior, a sua vida permanecia em segredo. Voltou a ter nova companheira, e em 2006 foi mesmo fotografado pelo Correio da Manhã com a filha de ambos ao colo, entre os despojos da sua casa em cinzas, depois de um incêndio de contornos estranhos.

À data, na entrevista ao CM, em Abril de 2006, Francisco dissera que se deparara com a sala em chamas, ao chegar a casa. Na noite anterior, de caçadeira em punho, espantara dois presumíveis intrusos e, por isso, fora detido por posse ilegal de arma. Ao voltar da GNR, onde fora ouvido, a casa ardia outra vez.

"Só pensava na minha mulher e na minha filha, que estavam lá dentro", relatara. Mas Gina e a pequena Eva, então com 18 meses, conseguiram sair a tempo – e hoje estão emigradas em França, apurou o CM. Segundo Francisco Leitão, que se dizia vítima de "ameaças" e alvo de "inveja", horas depois foi a vez de o seu carro arder. "Estava farto de ameaças por isso é que comprei a caçadeira", dissera então ao nosso jornal. As autoridades nunca acreditaram plenamente na sua versão e suspeitavam de que fosse o próprio Francisco Leitão o incendiário...

Hoje, aquele castelo tipo bunker, com uma Branca de Neve à porta, mais parece um sítio dos horrores, símbolo da já conhecida excentricidade do proprietário. Mas nas redondezas ninguém consegue acreditar que aquele homem que "matava a fome a jovens de fora" e ajudava os idosos em deslocações ao hospital seja o mesmo que, com requintes de malvadez, planeou e executou as mortes de três jovens.

Vários psicólogos criminais já avançaram um perfil do alegado homicida: narcísico, calculista e meticuloso no planeamento e execução dos seus crimes, excêntrico e com a mania das grandezas.

Nos calabouços da PJ de Lisboa, onde está preso preventivamente, Francisco não tem acesso à internet. Senão veria os inúmeros comentários – de escárnio e maldizer – aos seus vídeos no YouTube, onde muitos deixam agora mensagens de ódio e forte repúdio pela sua actuação. O ‘rei Ghob’, como se intitulava, dificilmente conseguirá mais gnomos como jovens seguidores.

"CORPOS FUNDAMENTAIS PARA LUTO DAS FAMÍLIAS"

"Recuperar os corpos é agora muito importante", garante Almeida Rodrigues, director da PJ, que, para além da necessidade de fundamentação da prova, realça que para as famílias das vítimas "fazer o luto é fundamental". "A prova que apresentamos é consistente e permitiu que o detido ficasse em prisão preventiva. Mas temos de dar paz às famílias, encontrando os corpos dos seus familiares", afirmou ontem o número um da Judiciária, que realçou ainda o que considerou ser um trabalho notável ao nível de investigação. "A PJ está de parabéns", garantiu.

Sem querer entrar em pormenores, o director da Judiciária lembrou que as diligências da Polícia remontam a Março. "Quando soubemos do desaparecimento da Joana, começámos a investigar a tese de rapto. Tivemos de fazer uma reconstituição histórica e rapidamente percebemos que em vez de um desaparecimento tínhamos três", recordou.

Almeida Rodrigues comparou este caso ao de Santa Comba Dão. "Aí também só começámos a investigar quando já tinham desaparecido três jovens. E tivemos de reconstituir o passado."

Quanto à possibilidade de haver mais vítimas, Almeida Rodrigues diz ser essa uma hipótese quase remota. "Não temos nenhum elemento que aponte nesse sentido", concluiu.

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