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“Tenho medo que mandem matar-me”

José Faria diz que tem medo. Que Ferreira Torres lhe faça mal, que voltem a atentar contra a sua vida, como terá acontecido nos últimos dias. "Tenho medo que mandem matar-me. Não do Ferreira Torres, mas das pessoas que ele pode contactar. Do que me podem fazer quandoeu chegar, depois de ir a tribunal dizer a verdade", disse ao Correio da Manhã a testemunha-chave do processo que hoje chega a julgamento e que tem o ex-autarca de Marco de Canaveses no banco dos réus.
16 de Abril de 2008 às 13:00
Faria acusa Torres de ameaças e de ter mandado alguém bater-lhe no Brasil. Ontem falou com o ‘CM’ e explicou agressões
Faria acusa Torres de ameaças e de ter mandado alguém bater-lhe no Brasil. Ontem falou com o ‘CM’ e explicou agressões FOTO: António Rilo

'Mandei uma carta ao Ministério Público a pedir protecção policial. Quero que alguém assegure que nada me acontece', continuou o ex-amigo de Ferreira Torres, garantindo que quando chegou ao Brasil foi agredido por indivíduos amigos do ainda vereador de Amarante. 'Bateram-me e mandaram-me para o Nordeste, ordenando-me que ficasse calado. Só na segunda-feira contactei o meu primo advogado e pedi ajuda. Estava assustado.'

José Faria explica ainda que foi para o Brasil, num negócio proposto por Torres. 'Ele disse-me que me dava três mil euros. O dinheiro é meu, foi o que tive de pagar às Finanças nos negócios imobiliários que ele fez em meu nome. Aceitei os bilhetes para viajar porque pensava regressar no dia seguinte. Nunca pensei que me batessem e ameaçassem para não regressar', continuou, explicando que na tarde em que viajou (dia 6 de Abril) recebeu só duas chamadas telefónicas. 'O meu telefone português ficou em casa e a PJ pode confirmar o que estou a dizer. Recebi nesse dia dois telefonemas: do Torres e de um senhor chamado Sousa. Foi com esse último que tratei da viagem e foi ele que ficou de me entregar o dinheiro do Brasil'.

Entretanto, já ontem o familiar de José Faria enviou ao tribunal uma carta dando conta dos motivos da fuga e manifestando o desejo de regressar.

O documento foi ontem à tarde entregue ao procurador de Marco de Canaveses e o CM sabe que a protecção policial poderá vir a ser activada nos próximos dias, depois de ser avaliada a situação e verificada a validade das denúncias.

Ferreira Torres manteve-se durante todo o dia de ontem incontactável.

PROVA CONDICIONADA À FALTA DE TESTEMUNHA

É o autarca que mais vezes respondeu à Justiça. Que sempre se vangloriou de que nunca seria preso, que escapou sempre nos meandros de códigos demasiado morosos, de tribunais que aceitaram recursos impossíveis, de sentenças que mais de uma década depois se mantêm em recurso.

Hoje em tribunal, quando se der início ao julgamento onde volta a ser acusado de crimes relacionados com o desvio de dinheiros públicos, Ferreira Torres deverá falar aos jornalistas. Está prevista uma conferência de imprensa onde deverá rebater as acusações da principal testemunha do Ministério Público, onde é esperado que garanta que nada teve a ver com o desaparecimento de José Faria.

A verdade porém é que hoje a prova do Ministério Público está mais frágil. Sem a principal testemunha, alguns dos crimes pura e simplesmente não poderão ser discutidos. Ferreira Torres, que responde por corrupção, peculato de uso, abuso de poder e extorsão, tem motivos para sorrir.

O CM sabe que a proposta de Faria – adiar as audiências até ao seu regresso – não será aceite. O julgamento vai mesmo ter início, mas só deverá ser marcada uma sessão por semana. O que significa que aquele poderá ainda ser interrogado se regressar ao nosso país.

Refira-se ainda que além de Ferreira Torres vai a julgamento Assunção Aguiar, chefe de gabinete do ex-autarca do Marco, acusada de um crime de peculato. José Faria, que após uma tentativa de suicídio aceitou depor contra Torres, nunca foi constituído arguido.

TESTEMUNHA PRINCIPAL NO 'APITO DOURADO'

José Faria afirma que corre risco de vida por ser a testemunha principal no processo de Ferreira Torres e pede protecção policial para regressar a Portugal e ir depor no Tribunal do Marco de Canaveses. É o mesmo argumento que Carolina Salgado alegou e a procuradora Maria José Morgado autorizou a segurança à testemunha-chave contra Pinto da Costa em processos no âmbito do ‘Apito Dourado’. A ex-companheira do presidente do FC Porto queixou-se ao Ministério Público de estar a ser vítima de ameaças de morte e perseguições. O Ministério Público considerou credíveis os receios.

Carolina Salgado está desde Julho de 2007 sob protecção pessoal em permanência, feita por elementos do Corpo de Segurança Pessoal da PSP.

FAMÍLIA EM PESO NO TRIBUNAL

Joaquim Faria, irmão de José Faria, promoveu uma reunião de família anteontem à noite para dar conhecimento do teor da carta que recebeu do Brasil. O irmão revelou ao ‘CM’ que pediu a todos os familiares para marcarem presença hoje no Tribunal do Marco, em solidariedade para com o irmão, ausente. Joaquim Faria confirmou que a assinatura que veio do fax 'é exactamente a do irmão'. Assegurou ao ‘CM’ que até ontem ainda não tinha conseguido falar com ele.

PROCESSO EM INQUÉRITO

Mantém-se em inquérito outra investigação contra Ferreira Torres que diz respeito a um terreno particular do autarca. Aquele precisava de dois milhões do BES para custear uma quinta em Tuías e é acusado de ter falsificado o PDM para dar à zona uma área de construção. O avalista do banco desconhecia que José Faria, apresentado como fiscal de Finanças, era afinal um funcionário da Câmara. O BES nunca se queixou porque Ferreira Torres paga as prestações a tempo e horas.

CARTAS DE FARIA

'Estão aí três mil euros para ti e o restante que te devo o sr. Sousa trata contigo'

Terá dito Torres a José Faria

'Começou após o almoço a discutir comigo, maltratando--me com palavras de baixo calão, dizendo-me que chegara a hora de partir para o Nordeste brasileiro'

Disse agressor a Faria no Brasil

'De repente começou a desferir socos e pontapés'

 

'José Faria [...] requer protecção policial, visto que passará a correr risco de vida'

 

'Mais um drible do réu em causa, especialista na matéria'

Diz Faria sobre adiamento da primeira sessão do julgamento por motivos de saúde de Torres

'Se este artista fosse tão bom a driblar com os chispes como é com a cabeça era obviamente muito melhor joga-dor do que foi o Maradona. Esse senhor nunca aceitou esta justiça, só acredita na de Fafe'

NOTAS

PEDIU DESCULPA POR CARTA

Numa carta enviada ao tribunal, a 25 de Dezembro de 2006, Faria pediu desculpa a Torres. A24 de Janeiro de 2007, à PJ do Porto, disse que Torres o obrigou a escrever o documento.

2,5 MILHÕES EM CONTAS PARTICULARES

Entre Maio de 2002 e Fevereiro de 2004 foram detectados depósitos de mais de 2,5 milhões nas contas de Avelino, Assunção Aguiar, chefe de gabinete, e Lindorfo Costa, vereador.

PASSAPORTE DEVOLVIDO

Em Novembro de 2006 foi devolvido o passaporte a Torres e voltou a ser-lhe permitido viajar para o estrangeiro. O MP pediu uma caução. O juiz recusou

ALGUNS ARQUIVAMENTOS

Houve empreiteiros que garantiram que os pagamentos a Ferreira Torres eram para saldar dívidas. Mesmo quando os cheques eram da autarquia

CONTAS PARALELAS

No processo o ex-presidente do Futebol Clube do Marco afirmou: 'Era tudo feito às três pancadas. Quando era preciso o Torres dava. Quando havia o futebol devolvia'

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