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Testemunhas identificam grupo de assassinos

Foram várias as testemunhas que identificaram com clareza os autores dos disparos que, na quinta-feira da semana passada, vitimaram o segurança cabo-verdiano Ilídio Correia. Todos afirmam que um dos intervenientes no ajuste de contas foi Bruno ‘Pidá’, líder do grupo da Ribeira. Seguia ao volante de um Mercedes e estava acompanhado por alguns amigos. Ameaçou os irmãos da vítima e só por pouco não os matou.
8 de Dezembro de 2007 às 13:00
Dois dias antes, Natalino, irmão de Ilídio Correia, tinha ido à PJ pedir ajuda. Contou, na ocasião, que o tentaram matar, que dispararam contra o seu carro em andamento e que o autor das ameaças tinha sido Bruno ‘Pidá’. Que se faria acompanhar pelos ‘amigos de sempre’, os seguranças que habitualmente se encontram na Ribeira.
A morte de Ilídio Correia e a falta de respostas da Polícia Judiciária, que estuda o melhor ‘timing’ para avançar com uma operação de grande envergadura, está a criar uma verdadeira guerra de nervos na noite portuense. Que se transformou num autêntico barril de pólvora, onde há alvos marcados que aguardam quem dará o próximo passo. Ou o próximo tiro.
Bruno ‘Pidá’ diz agora que tem medo. Assegura que a família está recolhida em casa e que as ameaças do grupo de cabo-verdianos – que eram liderados por Ilídio Correia – são constantes. Aqueles respondem com os mesmos argumentos e garantem que tiveram de esconder-se porque os da Ribeira os querem matar. Quem fala a verdade é uma das muitas perguntas que ainda se mantêm sem resposta. Tal como saber-se quais os motivos exactos que têm levado a PJ a adiar uma operação policial.
Certo apenas é que, desde o Verão – e muito principalmente depois da morte de Aurélio Palha, um dos ‘patrões’ da noite portuense –, a tensão aumentou.
A disputa de ‘territórios’ atingiu nessa fase o seu pico e sabia-se que podia haver mais mortes a qualquer momento. Como aquela que aconteceu na madrugada de quinta-feira da semana passada, quando Ilídio Correia foi baleado à porta de casa, em Miragaia.
A PJ responde com silêncio. Oficialmente, garante que as investigações prosseguem e que todos os caminhos estão a ser seguidos. Bruno ‘Pidá’ está em casa porque nada de consistente existe contra ele.
Os receios tornados públicos pela família de Ilídio Correia são olhados com desconfiança pelos investigadores. Os familiares não se disponibilizaram imediatamente para depor na Judiciária, só o fizeram na passada segunda-feira após alguma pressão das autoridades. Não ‘abrem’ o jogo mas mantêm a tensão alta na noite.
O CM sabe que as autoridades também não conseguiram encontrar o Mercedes de que as testemunhas falam. O que é considerado um problema em termos de consolidação da prova.
MANIFESTAÇÃO ESPONTÂNEA
O FC Porto emitiu ontem um comunicado em reacção à notícia de anteontem do CM que dava conta de que ‘Pidá’ era um dos seguranças de Pinto da Costa quando aquele foi ouvido no Tribunal de Gondomar, onde foi detido por suspeitas de corrupção.
O clube considera que “a fotografia em causa [que mostra ‘Pidá’ junto ao dirigente] reporta a uma manifestação espontânea de adeptos e curiosos” e que os adeptos têm “profissão própria para além dos espectáculos” de futebol.
FAMÍLIA REVOLTADA COM ENTREVISTA DE BRUNO
A família de Ilídio Correia está revoltada com a entrevista concedida anteontem por Bruno ‘Pidá’ à TVI. Os familiares reuniram ontem com a advogada e decidiram que só vão tomar uma posição oficial a partir de segunda-feira, mas o CM sabe que desconheciam que o segurança se mantinha em casa. O facto de nunca mais ter sido visto na Ribeira levava-os a pensar que se tinha ausentado do Porto, aceitando que a PJ não o prendera porque estaria a monte.
Benjamim Correia, que se recusou a falar ao CM, disse durante a tarde ao site Portugal Diário que a entrevista foi “uma mentira pegada”. “Há cinco pessoas que o viram matar o meu irmão, que nem da família são, e que foram testemunhar à polícia. Agora, venho a saber que o assassino do meu irmão está a 500 metros da minha casa e ninguém faz nada?”, questionou, indignado.
A troca de acusações também aumenta quando se tenta perceber quem começou com as ameaças. Bruno diz mesmo que se queixou à polícia porque o grupo de Miragaia garantia que o matava depois de um confronto físico que aconteceu em Agosto.
Natalino, por sua vez, assegura o contrário. Afirma que, dois dias antes da morte do irmão, Bruno o tentara matar ao disparar contra o seu carro no Túnel da Ribeira.
LIGAÇÕES COM O PORTO AFASTADAS
A morte do empresário José Gonçalves, proprietário do bar O Avião, também não está esclarecida. Aconteceu menos de 48 horas depois de Ilídio ser baleado, à porta do seu estabelecimento em Lisboa, mas o método utilizado foi muito mais sofisticado. José Gonçalves tinha acabado de entrar no carro quando detonou uma bomba colocada estrategicamente debaixo do seu assento, e os elementos da Direcção Central de Combate ao Banditismo começaram imediatamente a estudar as ligações no mundo da noite. Sabe-se que José Gonçalves seria uma testemunha importante no caso Passerelle mas já está afastada qualquer possibilidade de relação com os crimes do Porto. Embora muitos dos membros do grupo de Miragaia sejam da capital.
PALHA MORTO EM GUERRA DE GANGS
Aurélio Palha, poderoso empresário da noite do Porto, morreu no centro de uma guerra pelo controlo da noite portuense. E as culpas pelo seu homicídio recaem sobre o gang da Ribeira, alegadamente liderado por Bruno ‘Pidá’. O mesmo grupo é ainda suspeito de ter morto, quase quatro meses depois, Ilídio, segurança de Miragaia. Palha terá sido atingido acidentalmente uma vez que os tiros se dirigiam ao ‘Berto Maluco’, o segurança que acompanhava o empresário naquela noite. Pelas 03h30 de 27 de Agosto, falavam os dois à porta da discoteca Chic, depois de uma reunião de paz para a qual Aurélio convocou Rómulo, o proprietário de um ginásio frequentado por seguranças da Ribeira, e Fernando Madureira, o líder dos Super Dragões. Rómulo acabou espancado por Alberto e levado para o hospital por Madureira. Trinta minutos depois Aurélio morreu a tiro.
PORMENORES
AMEAÇAS CONTINUAM
As ameaças continuam de parte a parte e são frequentes sempre que os elementos dos dois grupos e famílias se cruzam na cidade do Porto. Os irmãos de Ilídio Correia continuam a receber ameaças por SMS que os avisam de que serão os próximos alvos a abater.
FAMILIARES COM MEDO
Os familiares do segurança morto em Miragaia, Ilídio Correia, vão pedir ao Ministério Público o regime de protecção policial de testemunhas.
‘PIDÁ’ EM ENTREVISTA
‘Pidá’ disse anteontem em entrevista que nada tem a ver com a morte de Ilídio Correia. Garante que sempre esteve em casa e que está disposto a ser ouvido pela PJ se as autoridades assim o entenderem. Explicou depois que ele é a ‘vítima’ e pediu à PJ que o protegesse.
NUNO 'GAIATO’
O homicídio do segurança Nuno ‘Gaiato’, pelas mãos de colegas, foi o primeiro incidente que incendiou a noite portuense. O jovem morreu com um tiro na cabeça e outro no pescoço na madrugada de 13 de Julho, no clube latino El Sonero. Estava a ser ameaçado e vestia um colete à prova de bala.
NOTAS
AMEAÇA COM ARMA
A mãe de ‘Pidá’ disse ontem ao Portugal Diário que um irmão de Ilídio Correia a ameaçou com uma arma em plena rua, tendo sido detido pela PSP.
VERSÃO DO ÁCIDO
Benjamim Correia nega. “O meu irmão não tinha arma. Ela é que tentou agredi-lo e à minha mãe com ácido sulfúrico e acabou por lhe cair ácido no pé.”
POLÍCIA NADA ENCONTROU
Fonte policial referiu que a mãe de Bruno apresentou uma queixa mas negou que o irmão da vítima tivesse armas. “Os ânimos estavam muito exaltados.”
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