Uma poderosa rede de tráfico de carros topo de gama, altamente organizada e com tentáculos por toda a Europa, actua em força em Portugal. Através de programas informáticos que permitem ultrapassar os mais complexos sistemas de alarme e de segurança das viaturas, furtam jipes e carros de marca Mercedes, Audi, BMW e Volkswagen – que traficam para países de Leste e para África.
A Polícia Judiciária, a Brigada de Trânsito e Núcleos de Investigação Criminal da GNR, em colaboração com outras polícias europeias, tentam perseguir esta rede há cerca de um ano – mas, até aqui, sem resultados.
Ainda durante o mês de Agosto, cerca de 20 viaturas de luxo foram furtadas no Algarve.
Os crimes ocorreram na zona entre Faro e Tavira. Houve dias, segundo uma fonte policial, em que foram furtados três carros. Na semana passada, ainda segundo a mesma fonte, foram recuperados três destes carros, em Algeciras, a Sul de Espanha. Estavam prestes a embarcar num ‘ferry boat’ com destino ao Norte de África.
As autoridades portugueses conhecem as rotas utilizadas para o tráfico dos carros roubados (ver infografia). Uma parte dos automóveis segue por estrada para a Europa de Leste. A abertura das fronteiras joga a favor dos criminosos – que atravessam o espaço europeu em menos de 48 horas. Outros seguem para a Holanda – onde no porto de Roterdão são colocados em contentores e embarcados com destino a portos da África Ocidental e Oriental. Uma terceira rota tem como destino o Norte de África: os carros roubados entram pelo sul de Espanha e nos portos de Cádis ou de Algeciras são embarcados para Marrocos.
Numa primeira fase do tráfico para países africanos, segundo fonte policial contactada pelo CM, seguiam apenas carrinhas comerciais. Agora, para lá vão também carros de luxo – Mercedes é a marca preferida – e jipes.
ESPECIALISTAS
A maior parte dos carros que se destina ao tráfico é furtada por especialistas. “Utilizam equipamento informático para descodificar alarmes e conseguem pôr os motores a trabalhar sem grandes estragos” – diz uma fonte policial.
Mas, por vezes, as viaturas encomendadas são roubadas com violência e sob ameaça de armas – método conhecido como ‘carjacking’. Este crime, segundo a Polícia Judiciária, está a crescer, em parte devido aos alarmes cada vez mais eficazes.
Os carros furtados são escondidos em garagens clandestinas, onde os números de série da carroçaria e as matrículas são alterados. A Brigada de Trânsito da GNR está atenta: os militares têm ordens para fiscalizar as viaturas topo de gama e receberam treino para detectarem a viciação dos números da carroçaria dos carros.
Muitos dos carros furtados e roubados, tanto em Portugal como no resto da Europa, são na maior parte dos casos vendidos a clientes que desconhecem a extensão dos crimes que alimentam este negócio.
O preço aliciante de um carro de luxo – divulgado através da internet por ‘stands’ ou por vendedores particulares – pode tornar-se numa grande dor de cabeça: a legalização do carro chega a duplicar o preço da viatura – e se o comprador for apanhado pelas autoridades a circular num carro que se constata ter sido furtado ou roubado, mesmo que desconheça, fica sem a viatura e sem o dinheiro.
Só nos primeiros seis meses deste ano a Direcção-Geral das Alfândegas apreendeu 461 automóveis, mais de metade do que os 726 apreendidos no ano anterior por falta de pagamento de imposto. A maioria eram topo de gama. A procura de carros no estrangeiro está a aumentar, mas na maior parte das vezes os preços baixos indiciam que se trata de carros de origem duvidosa.
330 ROUBOS VIOLENTOS
No ano passado a PJ investigou 330 roubos de carros através do método de ‘carjacking’, mais do triplo dos investigados em 2003. Este crime já representa cerca de 15 por cento de todos os roubos investigados pela Judiciária.
64% SÃO ALEMÃES
De acordo com a Direcção-Geral das Alfândegas, no ano passado 64 por cento dos carros estrangeiros legalizados em Portugal (30 305) vieram da Alemanha.
LEGALIZADOS
No ano passado foram legalizados em Portugal 315 699 carros comprados no estrangeiro. Destes, apenas 2461 foram despachados por motivo de mudança de residência na União Europeia.
LEGAIS
152 comerciantes registados em Portugal dedicam-se ao negócio dos carros comprados no estrangeiro e vendidos no nosso país.
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