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Vara fez pressão para salvar Sócrates

Socialista recebeu em casa arguida que queria primeiro-ministro como testemunha.
17 de Outubro de 2011 às 01:00
Armando Vara chamou Ana Simões a sua casa e deu-lhe depois o número privado para contactar com José Sócrates
Armando Vara chamou Ana Simões a sua casa e deu-lhe depois o número privado para contactar com José Sócrates FOTO: direitos reservados

Armando Vara chamou a sua casa Ana Simões. Estávamos em Julho de 2009, quando o ex-ministro socialista e amigo pessoal de José Sócrates marcou um encontro com a arquitecta, que é arguida no processo Cova da Beira. Tinha também sido conhecida, pouco tempo antes, a lista de testemunhas que aquela tinha arrolado: o nome mais sonante era o então primeiro-ministro, que na altura dos factos era secretário de Estado. Tinha estado envolvido na adjudicação do aterro ao grupo HLC.

No âmbito do processo Face Oculta, a PJ de Aveiro fez vigilâncias e documentou o encontro com uma reportagem fotográfica. Foi a 12 de Julho e diz o ‘relato de diligência externa' que Ana Simões chegou a casa de Vara pelas 18h31 e aí permaneceu até às 20h06. Explica-se também nesta vigilância (documentada entre as páginas 3608 e 3631 do processo principal) que foram interceptadas várias mensagens entre os dois e que o encontro foi marcado depois de Vara ter sido contactado por uma jornalista - que as autoridades dizem ser Dina Aguiar - a alertá-lo para o facto de a TVI estar a preparar uma trabalho sobre a Cova da Beira.

Três dias depois, Vara chamou Ana Simões a sua casa, tendo vindo mais tarde a enviar-lhe por mensagem um número de telemóvel que era exclusivamente usado para contactar com José Sócrates.

O que ambos conversaram na casa do então administrador do BCP não está documentado, mas o CM sabe que Ana Simões terá sido ‘aconselhada' a retirar o nome do então primeiro-ministro da lista de testemunhas. O argumento seria que o testemunho de Sócrates não iria adiantar muito à sua defesa e que só iria alimentar páginas de jornais.

Certo é que os encontros de Vara não surtiram o efeito pretendido. A defesa de Ana Simões não cedeu e manteve Sócrates na lista de testemunhas. O ex-primeiro-ministro testemunhou a 31 de Agosto de 2009, por escrito e depois de devidamente autorizado pelo conselho de ministros.

Recorde-se que no seu testemunho, Sócrates recusou qualquer participação ou influência na escolha da empresa para a construção da central de compostagem de lixo. Negou conhecer Ana Simões. "Não tenho qualquer relação de parentesco, amizade, afinidade ou dependência relativamente às partes do processo, designadamente aos arguidos, nem tenho qualquer interesse na presente acção penal", lê-se na carta.

MORAIS ARGUIDO POR CORRUPÇÃO E BRANQUEAMENTO

Ana Simões, António José Morais (o professor de Sócrates na Universidade Independente) e Horácio Luís de Carvalho vão ser julgados, a partir do dia 19 nas varas criminais de Lisboa, pelos crimes de corrupção e branqueamento de capitais, relacionados com a adjudicação da obra ao grupo HLC. Jorge Pombo, antigo presidente da Câmara da Covilhã, chegou a ser arguido e a sua residência foi alvo de buscas, mas o procurador da República responsável pelo inquérito entendeu arquivar os autos.

PJ TENTOU PERCEBER CASOS "EQUÍVOCOS"

Num despacho datado de 6 de Outubro de 2009 e proferido horas depois de o inspector responsável pelo processo ter feito o relato da diligência externa a documentar o encontro entre Vara e Ana Simões, Teófilo Santiago, responsável pela PJ de Aveiro, enviou ao Ministério Público um documento onde sustentava que a investigação devia ser autonomizada. "Para evitar a manutenção de situações equívocas perniciosas e geradoras de toda a espécie de interpretações impróprias", explicava o coordenador superior de investigação criminal, requerendo que as certidões acompanhassem a investigação de Atentado contra o Estado de Direito.

Teófilo Santiago revelava ainda que a 2 de Setembro, Armando Vara tinha enviado a Ana Simões por SMS um número de telemóvel. "Era o mesmo que, a determinada altura, passou a ser utilizado regularmente quando Armando Vara e o primeiro-ministro pretendiam conversar", disse. Esse número era utilizado por alguém chamado Carlos.

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