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Vende quota antes da sentença

Ex-apresentador de televisão só tem em seu nome um terreno em Grândola, avaliado em 70 mil euros, e a pensão de 65 mil/ano.
8 de Setembro de 2010 às 00:30
Cruz esteve no notário dois dias antes da primeira data agendada para a leitura do acórdão
Cruz esteve no notário dois dias antes da primeira data agendada para a leitura do acórdão FOTO: João Cortesão

Dois dias antes da primeira data agendada pela juíza Ana Peres para a leitura do acórdão da Casa Pia (9 de Julho), Carlos Cruz desfez-se das quotas que detinha na empresa Produções Marajó – Rádio, Televisão e Publicidade, Lda. O antigo apresentador de televisão confirma ao CM a transacção, mas recusa adiantar os motivos da decisão. "Faz parte da minha vida pessoal", sustentou.

A escritura notarial foi efectuada no dia 7 de Julho num notário de Cascais, tendo Carlos Cruz dado ordem para a cessão de quotas a Isabel Maria de Almeida Rocha, que foi secretária do ‘senhor televisão’ durante largos anos.

"Trata-se de uma quota de 5 por cento relativa a uma empresa que não tem actividade", limitou-se a dizer Cruz. De acordo com a escritura, a que o CM teve acesso, Isabel Maria de Almeida Rocha pagou o valor irrisório de 350 euros pela referida quota.

Condenado na primeira instância a uma pena de prisão de sete anos, assim como ao pagamento de uma indemnização de 50 mil euros às vítimas da Casa Pia, Carlos Cruz não se tem cansado de dizer que foi obrigado, ao longo do processo, a vender todo o património. "Vendi muitos quadros... A casa onde vivo está hipotecada. É evidente, há familiares que dão uma ajuda em situação de crise. Mas não posso fazer loucuras. Vendi a casa que tinha no Alentejo, vendi a casa que tinha no Algarve. Vendi tudo! Neste momento não tenho nada meu", disse numa recente entrevista ao CM.

O antigo apresentador de televisão também nunca escondeu que vive de uma reforma de cerca de três mil euros. Nas Finanças, Cruz declarou que recebeu pensões anuais num total de 65 623 46 euros. O CM sabe porém que o antigo apresentador de televisão declarou nas Finanças que é proprietário de um terreno em Grândola avaliado em 70 419,50 euros. "Está penhorado por causa de uma dívida da minha empresa [Carlos Cruz Audiovisuais] ao banco", garantiu Cruz ao Correio da Manhã. Já a mulher do antigo apresentador, Raquel Cruz, tem em seu nome um imóvel de luxo no Chiado, uma das zonas mais caras de Lisboa. O casal, apurou o nosso jornal, poderá estar a tentar vendê-lo.

Carlos Cruz já fez saber que vai apresentar todos os recursos que estiverem ao seu alcance. Caso a condenação da primeira instância se confirme nos tribunais superiores, não tendo património, as indemnizações às vítimas serão pagas com recurso à sua pensão.

CASA DE LUXO NO CHIADO

A mulher de Carlos Cruz, Raquel Rocheta Cruz, é proprietária de um apartamento numa das zonas mais nobres da cidade de Lisboa, a do Chiado. No prédio da rua Nova do Almada há aliás uma casa à venda e é visível um anúncio de uma imobiliária de luxo.

O arrendamento de uma casa nas imediações pode ir até aos quatro mil euros por mês. Quanto à média de preços de venda de casas naquela zona nobre da capital, os números mais elevados rondam os dois milhões e meio de euros, conforme constatou o Correio da Manhã no site da agência de mediação imobiliária que colocou o imóvel à venda no mesmo edifício em que a mulher de Carlos Cruz detém um apartamento.

A casa mais barata que se pode encontrar à venda no Chiado é um T1 (um quarto) com 60 metros quadrados que vale 207 mil euros, na mesma agência.

Quem fizer uma pesquisa naquele bairro à procura de imóveis encontrará um palacete dos anos cinquenta, duplex, casas pombalinas e vários apartamentos com remodelações de luxo.

50 MIL EUROS PARA VÍTIMAS

Carlos Cruz foi condenado a sete anos de prisão por três crimes de abusos sexuais sobre dois menores e ao pagamento de uma indemnização de 25 mil euros a cada uma das vítimas, num total de 50 mil euros. Em causa estão actos ocorridos em Elvas e numa casa da avenida das Forças Armadas, em Lisboa, mas o arguido mais mediático já anunciou que vai recorrer.

CARTAS ANÓNIMAS DÃO NOMES

A maioria dos nomes famosos que constam do processo, e que Cruz promete revelar, diz respeito a denúncias anónimas. Um dos casos, revelado em 2004, dava conta de uma carta anónima que referia o nome do então presidente da República, Jorge Sampaio, tendo o juiz Rui Teixeira sido criticado por juntar a carta ao processo.

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