Uma vítima de pedofilia do processo Casa Pia, de 18 anos, está internada na enfermaria do serviço de cirurgia de um hospital de Lisboa, a recuperar de uma tentativa de suícidio. A segunda, em pouco mais de dois anos.
Segundo soube o CM, o jovem espetou uma faca na barriga. De imediato transportado ao hospital, seguiu logo para o bloco operatório, para uma delicada intervenção cirúrgica. Ontem, ‘Jorge’ (nome fictício) ainda estava internado, mas já não corre perigo de vida.
O incidente ocorreu na passada sexta-feira, à noite, no lar do colégio onde o rapaz que acusa Carlos Silvino e Ferreira Diniz de abusos sexuais está internado desde os cinco anos. Tudo terá começado após uma educadora lhe ter recomendado para parar de fumar, alertando-o que se o fizesse poderia agravar um problema de saúde (asma) que o apoquenta há algum tempo. O jovem, que estava na companhia de outros casapianos, acatou a ordem, mas saiu do local onde se encontrava. Minutos depois, já noutra sala do colégio, a educadora deparou com ‘Jorge’ a esvair-se em sangue, com uma faca de cozinha espetada na barriga. Menos de um quarto de hora depois de terem sido chamados, os bombeiros chegaram ao local. Após terem prestado os primeiros socorros, colocaram a vítima numa maca e rumaram para o hospital, sem retirarem a faca.
“Assim que foi observado nas urgências, os médicos disseram aos bombeiros que fizeram muito bem em não retirar a faca. Frisaram que se o tivessem feito, o jovem teria falecido. Contudo, ele estava tão mal que decidiram logo operá-lo. Felizmente, a faca não atingiu nenhum órgão vital”, contou ao CM um responsável da Casa Pia que acompanhou a situação de perto.
PROVEDORA PREOCUPADA
A provedora Catalina Pestana confirmou ao CM a tentativa de suicídio de ‘Jorge’ e deixou uma alerta para os magistrados que estão a julgar o processo de pedofilia no Tribunal Militar: “O tempo dos adultos é diferente do tempo das crianças e dos adolescentes. Seria aconselhável que as vítimas de pedofilia fossem ouvidas o mais depressa possível.”
E sem esconder que está preocupada com a lentidão com que decorre o julgamento, Catalina Pestana acrescentou: “Há alguns jovens que não sabemos quanto tempo mais vão ser capazes de aguentar a pressão de estarem tanto tempo à espera.”
‘Jorge’ ainda não tem dia marcado para prestar depoimento no julgamento da Casa Pia, apesar de já ter visitado o Tribunal Militar, como sucedeu em relação à maioria das 32 vítimas que vão ser ouvidas pelos juízes Ana Peres, Ester Santos e Lopes Barata.
O CM apurou, também, que os advogados da instituição estão a estudar a possibilidade de avançarem com um requerimento em que vão solicitar ao Tribunal que agende para o mais breve possível a audição de algumas das vítimas que, por causa da espera, mais preocupam a equipa de psicólogos e psiquiatras da Casa Pia.
‘Jorge’, de 18 anos, órfão, vive na Casa Pia desde os cinco. Com uma situação familiar problemática – só tem uma irmã, mais velha, com quem mantém uma relação muito forte – o jovem é descrito pelo Ministério Público (MP) como uma criança “especialmente frágil”. Segundo a acusação, durante o ano de 1997, o médico Ferreira Diniz observou o menor, então com 10 anos, no posto médico da Rua do Alecrim. Durante todas as consultas, pelo menos sete, Diniz terá mandado o ‘rapaz’ despir-se e abusou dele. O MP sustenta ainda que, em 2002, Carlos Silvino obrigou o menor a praticar actos sexuais em três ocasiões.
CASA ASSALTADA
‘André’, a principal testemunha do processo de pedofilia, viu, há pouco mais de duas semanas, a sua casa ser assaltada. O facto mereceu um comentário do ministro da Administração Interna, obrigou ao reforço das medidas de segurança em torno das vítimas e levou a Casa Pia a transferir o jovem para outro refúgio. Já durante o inquérito, ‘André’ referiu aos investigadores que Carlos Cruz lhe ligara, antes de ser preso, a pedir-lhe silêncio, tendo-o mesmo ameaçado de morte.
INTIMIDADO POR SMS
Outra das vítimas – que só agora tem segurança pessoal – foi recentemente ameaçada de morte, numa rua de Lisboa, por dois indivíduos, e recebeu, no seu telemóvel, mensagens intimidatórias para que se calasse em Tribunal As ameaças terão sido ‘encomendadas’ por pessoas que foram mencionadas ao longo da investigação do processo.
'NÃO PRESTO NEM PARA ME MATAR'
‘Jorge’ tem 18 anos e uma saúde precária. Psicologicamente muito frágil, a situação do jovem piorou consideravelmente com os abusos sexuais sofridos. A primeira tentativa de suicídio aconteceu aos 15 anos e, desde então, tem tido vários internamentos no âmbito do foro psiquiátrico. “Não presto nem para me matar”, confidenciou a Catalina Pestana, segundo contou a provedora em Tribunal: “Disse que queria ter morrido.”
Perante a juíza Ana Peres, Catalina referiu-se, aliás, várias vezes a ‘Jorge’, manifestando uma especial preocupação com o futuro do ‘miúdo’. “Precisará eternamente de apoio institucional”, afirmou, acrescentando que, na sua opinião, é a vítima com a vida mais estragada. “Sonha com profissões que não pode ter e não tem condições intelectuais para fazer qualquer curso de aprendizagem”, assegurou, assumindo as dificuldades da instituição em reabilitar ‘Jorge’: “Não sabemos que solução encontrar para um futuro minimamente equilibrado.” Apesar de já ter 18 anos, a vítima não se consegue estabilizar nos estudos, nem no trabalho. “Está de 15 em 15 dias num emprego protegido. Entra com uma grande euforia, mas depois chora amargamente”, explicou a provedora na 46.ª sessão do julgamento de pedofilia, revelando que ‘Jorge’ “passa do choro ao riso em minutos” e que apesar de tudo o que lhe aconteceu gosta de estar no Colégio.
'O JOVEM ESTÁ CALMO E TRANQUILO'
Álvaro de Carvalho, um dos psiquiatras que presta apoio psicológico às vítimas de pedofilia da Casa Pia, garantiu ontem ao CM que ‘Jorge’ está a recuperar bem: “Está calmo e tranquilo, felizmente a lesão física não teve consequências mais graves”. O médico garantiu ainda que apesar das recentes ameaças e desta tentativa de suicídio, as restantes vítimas encontram-se bem. E acrescentou que, nos últimos dias, todos os técnicos ao serviço da Casa Pia têm acompanhado mais de perto os jovens, uma vez que se prevê que a juíza Ana Peres agende para breve a inquirição das principais testemunhas. “Está finalmente a acontecer o que sempre pedimos”, concluiu.
OUTRAS TENTATIVAS DE SUICÍDIO DE VÍTIMAS DE PEDOFILIA DA CASA PIA
JOÃO A., 22 ANOS
‘João A.’, uma das testemunhas que envolveu Paulo Pedroso e Jorge Ritto no escândalo da Casa Pia, foi a primeira vítima a tentar acabar com a vida (2003). Na altura, uma pessoa próxima do jovem referiu ao CM que ‘João A.’, então com 19 anos, “não aguentou a pressão”, a que estava ser submetido, pelo que resolveu, sem êxito, tentar o suícidio.
JORGE, 18 ANOS
‘Jorge’ tentou suicidar-se, pela primeira vez, em Abril de 2003, atirando-se de um segundo andar do Colégio para o pátio, mas sobreviveu. “Ficou com a cara muito desfeita”, contou Catalina Pestana em Tribunal, revelando que só posteriormente o jovem lhe falou dos abusos de que terá sido alvo, por parte de Carlos Silvino e Ferreira Diniz.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.