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Correio da Manhã

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Vítimas identificam o violador

Maioria das dez novas pessoas chamadas à PJ, entre raparigas abusadas e testemunhas, não teve dúvidas.
23 de Abril de 2010 às 00:30
Vítimas identificam o violador
Vítimas identificam o violador FOTO: direitos reservados

Henrique Sotero voltou ontem à tarde pela segunda vez a uma sala de reconhecimentos da Polícia Judiciária de Lisboa, onde a esmagadora maioria das dez novas pessoas ali chamadas, entre raparigas vítimas dos abusos sexuais e testemunhas, não teve dúvidas em identificá-lo como o violador de Telheiras.

Depois de quatro vítimas o terem reconhecido logo no dia da detenção, a 5 de Março, a prova no processo contra o predador sexual confesso foi desta forma consolidada pela investigação da PJ com novos reconhecimentos – entre os quais, apurou o CM, o do namorado de uma das raparigas, que foi forçado a assistir ao abuso sexual. Ao todo, há cerca de dez casos conhecidos com queixa das vítimas.

Em causa, no que diz respeito às raparigas que ontem não tiveram dúvidas em apontar o dedo a Henrique Sotero, estão vítimas que não foi possível chamar ao reconhecimento presencial, que faz fé em tribunal, logo na altura da detenção. E entretanto o processo esteve quase sempre no Ministério Público desde o dia do primeiro interrogatório, quando o juiz de instrução aplicou prisão preventiva ao suspeito. Só anteontem regressou à Secção de Combate aos Crimes Sexuais da PJ, para as novas diligências.

O violador, de 30 anos, confessou aos investigadores muito mais até do que estes esperavam e tinham conhecimento – cerca de 40 casos, entre abusos sexuais tentados e consumados, nos últimos cinco anos, desde que ainda estudava no Instituto Superior Técnico. Mas para o actual processo continua a contar apenas cerca de uma dezena de casos, ocorridos nos últimos dois anos e a maioria no bairro de Telheiras, em que as vítimas estão identificadas. Para a maioria destes casos, os reconhecimentos positivos de ontem deram consistência à prova – mas, mesmo naqueles em que as vítimas não conseguiram identificar o violador, que não permitia que as raparigas o olhassem nos olhos, sob ameaça de faca, a PJ já conta com outro tipo de provas, como a comparação do ADN de Henrique Sotero com o dos vestígios de sémen que o predador deixou em alguns locais de crimes.

Quanto aos mais de 30 casos, na Grande Lisboa, que o violador confessa mas que os investigadores não sabem quem são as vítimas, a PJ continua à espera que as mesmas se apresentem para poder agir criminalmente contra Sotero.

RECONHECIMENTOS VÃO SER CONTESTADOS

Quando Henrique Sotero entrou ontem na sala de reconhecimentos da PJ, lado a lado com outros homens com características físicas muito semelhantes às suas, o rosto do verdadeiro violador já era conhecido por toda a gente – depois de o CM o ter revelado, há quase dois meses que circula em toda a Comunicação Social. Deste modo, o violador pode, na prática, ser facilmente reconhecido por qualquer pessoa, sendo ou não vítima ou testemunha dos seus crimes. E esse é um ponto, apurou o CM, que deverá ser explorado pela Defesa do violador de Telheiras – tentando retirar valor probatório aos reconhecimentos ontem efectuados, ao contrário dos primeiros, a 5 de Março, quando o rosto do suspeito ainda não era conhecido. Contactado ontem pelo CM, José Pereira da Silva, advogado de Henrique Sotero, recusou prestar esclarecimentos sobre o caso.

TRAÍDO POR SÉMEN EM VÍTIMA E LENÇO

Escolhida a vítima, o violador obrigava-a quase sempre a fazer--lhe sexo oral ou a masturbá-lo. Só em dois casos, do conhecimento da PJ, houve cópula. No final, tinha o cuidado de não deixar vestígios: dava um lenço de papel às vítimas para se limparem. Mas dois vestígios de sémen, numa vítima e num lenço esquecido, permitiram identificar o predador pelo ADN.

PORMENORES

VIRGEM ATÉ AOS 21 ANOS

Henrique Sotero revelou aos investigadores que tinha iniciado a vida sexual aos 21 anos, quando já era estudante universitário. Confessou também que, há cinco anos, tinha sentido uma compulsão que o levou a violar várias raparigas.

DIZIA QUE IA AO GINÁSIO

O engenheiro que trabalhava na ZON, em Lisboa, violava quase sempre às terças-feiras. À namorada, com quem andava há nove anos e com quem vivia há três, dizia que ia para o ginásio.

DETIDO APÓS CONSULTA

Henrique Sotero foi detido pela Polícia Judiciária, no local de trabalho, a 5 de Março, depois de ter sido denunciado por uma chamada anónima. Um dia antes da detenção tinha consultado o psicólogo Paulo Sargento, que lhe recusou mais consultas.

PROCUROU ADVOGADOS

O violador foi abordado pela PJ, em Telheiras, em Outubro. Em Novembro, assustado pelo encontro, procurou aconselhamento jurídico junto de pelo menos dois advogados. Nesse mês iniciou as consultas com o psiquiatra António José Albuquerque.

DESAJEITADO COM A FACA A AMEAÇAR 'MIÚDAS GIRAS'

Habitualmente, Sotero atacava as vítimas, menores que escolhia dentro ou à entrada de prédios, de cara destapada, evitando que o fixassem directamente nos olhos. Só à medida que ganhou confiança e entusiasmo chegou a actuar pelo menos uma vez encapuzado. Segundo confessou aos investigadores da PJ, seria para se testar a si próprio. Na mesma altura, atacou desajeitadamente armado com uma faca. Ao apontá-la à vítima, antes de a forçar a sexo oral, tinha o cabo da faca virado para cima.

Apesar de em Alfragide e em Linda-a-Velha também haver registos de violações – que a PJ apurou serem da autoria do mesmo predador muito antes de o identificar e prender, por vestígios deixados que correspondiam ao mesmo ADN – foi em Telheiras que escolheu actuar preferencialmente, sempre às terças-feiras, dia em que dizia à namorada que ia ao ginásio. Zona residencial, o facto de não haver por perto grandes superfícies comerciais para onde as jovens pudessem fugir e pedir socorro tornou Telheiras, aos olhos do violador, um local de eleição para concretizar os instintos de predador. Fez ali mais de dez vítimas.

Na mente do violador estava um perfil: 'miúdas giras', como confessou à PJ, e sempre aparentando a mesma idade, entre os 16 e os 18 anos. Com a divulgação de um retrato-robô, apertou-se o cerco a Henrique Sotero, 30 anos, que acabou preso e reconhecido por algumas das vítimas a 5 de Março.

NOTAS

FILME: À PORTA DE SARGENTO

A 30 de Março a TVI transmitiu imagens de Sotero a entrar para o consultório de Paulo Sargento, em Lisboa, antes de ser detido. O psicólogo não reconheceu as imagens, que comentava na TV

CADEIA: AGRESSÃO DE MACHADO

Depois de ter sido agredido por Mário Machado no estabelecimento prisional anexo à PJ, Henrique Sotero, transferido para o Estabelecimento Prisional de Lisboa, não voltou a ter problemas

JUDICIÁRIA: TENTA NEGOCIAR 

No interrogatório com a PJ, o violador tentou tomar as rédeas e negociar a colaboração, à americana, de modo a beneficiar de uma atenuante na pena a que possa vir a ser condenado

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