Correio da Manhã

“A floresta é fonte de uma riqueza imensa”
Por Vanessa Fidalgo | 00:30
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Professor de Ciências Florestais e Arquitetura Paisagista da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Domingos Lopes alerta para o problema da desertificação e os perigos do afastamento da sociedade em relação ao meio rural

Nasceu no campo, no coração da serra da Lousã e a ele dedicou a sua carreira académica. Domingos Lopes, professor da Universidade de Trás- -os-Montes e Alto Douro (UTAD) só trocou a ruralidade pelo bulício de Londres nos tempos do doutoramento. E lamenta que outros não lhe sigam as pegadas.

Sobram vagas nas universidades portuguesas para os cursos de Engenharia Florestal e Arquitetura Paisagista. A litoralidade e o apelo da ‘vida moderna’ ditaram o desinteresse por estes cursos?

As dinâmicas sociodemográficas, em todo o Mundo, mostram que as pessoas estão cada vez mais citadinas e mais distantes dos territórios rurais. Isto pode fazer-nos correr o risco de efetuarmos uma leitura pouco eficiente destes espaços, muitas vezes assentes em ideias românticas destes territórios, mas simplistas e desfasadas da realidade. Não consigo encontrar explicação para a atratividade de áreas com relevância para o País muito mais reduzida e, em contrapartida, a falta de atratividade que têm demonstrado áreas de conhecimento verdadeiramente fulcrais para o País e para o seu desenvolvimento harmonioso, como são Engenharia Florestal e Arquitetura Paisagista. Veja-se o problema constante dos incêndios... A Engenharia Florestal é completamente estruturante na resposta integrada que se deseja para este problema. Enquanto não formos capazes de trazer conhecimento, ciência e tecnologia para a gestão dos territórios rurais e da sua floresta, nunca conseguiremos resolver eficazmente os seus desafios. Já a Arquitetura Paisagista é da maior relevância na promoção da qualidade de vida dos espaços urbanos e no ordenamento do território.

A falta de empregabilidade nestas áreas é um mito?

Todos os alunos recém-licenciados em Engenharia Florestal da UTAD estão a trabalhar. Não temos alunos suficientes para responder às solicitações, em especial depois da época de incêndios do ano anterior. A procura de recém-licenciados em Arquitetura Paisagista tem sofrido também uma evolução muito positiva, refletindo uma dinâmica crescente de projetos públicos na valorização dos espaços urbanos.

Teme que no futuro não haja quadros qualificados para gerir a floresta portuguesa, que ocupa 35 por cento do território?

Sinto verdadeiramente essa preocupação. São poucos os jovens recém-licenciados em Engenharia Florestal. Os técnicos dos serviços do Estado estão todos numa faixa etária já bastante avançada, não tem havido rejuvenescimento deste corpo técnico, muito à semelhança do que acontece noutras áreas do Estado (mas neste caso de forma muito marcada e reflexo também da pouca valorização que o setor florestal tem tido por parte da maioria dos agentes e decisores públicos em Portugal).

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O que falta para uma melhor gestão e valorização da floresta?

A floresta em Portugal ainda não é vista a partir do seu potencial imenso e corre o risco de ser considerada mais como um problema do que como uma fonte de riqueza e biodiversidade. Ela é maioritariamente privada, muito fragmentada, não é gerida numa perspetiva profissional e os seus recursos (lenho, frutos silvestres, caça, cogumelos, apicultura, turismo, etc.) estão muito longe de ser maximizados. Problemas ampliados porque os pequenos proprietários e o próprio Estado não sentem necessidade de reforçar o acompanhamento técnico.

O drama dos incêndios é o mais visível problema resultante do abandono da floresta, mas há outras coisas que estamos a perder, certo?

Indiscutivelmente. A gravidade atual dos incêndios resulta da conjugação de um conjunto de fatores, desde logo a artificialização excessiva da floresta, a monocultura excessiva, mas também do abandono dos espaços rurais e das alterações de uso, etc. Mas floresta é muito mais do que isso. A paisagem florestal é um recurso em si mesmo, de que pode resultar um ecoturismo de qualidade e o desenvolvimento de atividades desportivas. Também a cinegética, a pesca, a apicultura, a exploração de aromáticas silvestres e a recolha ordenada (e com conhecimento de causa) de cogumelos. Na exploração do lenho, abordagem mais comum e a que se restringe muita vez o valor dos espaços florestais, a utilização de biomassa do estrato arbóreo de menores dimensões para obtenção de bioenergia, pode e deve desempenhar um papel primordial no equilíbrio energético sustentável do País. Neste contexto desafiante de alterações climáticas, a retenção de carbono atmosférico deve-se à área de arvoredo e de matos. Foi a floresta que cumpriu as metas de Quioto para Portugal. É igualmente fundamental na preservação do solo e ao nível do ciclo da água, onde a gestão integrada de toda a bacia hidrográfica é fundamental para a quantidade e qualidade da água que chega às populações.

O futuro passa inevitavelmente por uma produção mais sustentável?

Como dizia há dias o professor Sobrinho Simões, o nosso futuro tem de passar obrigatoriamente por uma maior aproximação à natureza. Ela ensina-nos e aponta-nos as abordagens mais sustentáveis do desenvolvimento urbano.

É possível travar a desertificação?

A desertificação humana do interior é, na minha opinião, o maior problema com que Portugal se debate. Trata-se, acima de tudo, de um problema de mentalidade que, numa abordagem muito simplista, considera que apenas nos grandes centros urbanos se encontra as melhores condições de vida. Uma viagem cuidada por estes espaços permitirá perceber que a oferta de infraestruturas é, na sua maioria, muito ampla, ainda que o fecho de serviços públicos contrarie a utilização destes espaços e o aproveitamento de todas as potencialidades que aqui encontramos. É talvez a altura de se pensar que uma mudança da lei eleitoral possa ter de acontecer, no sentido de assumir que a área dos territórios deve ser um fator igualmente decisor do número de deputados e não apenas da densidade populacional. No discurso fala-se muito de Interior mas, na prática, as políticas não são consequentes.

A si, o que o atraiu para esta área?

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Como nasci em plena serra da Lousã, a proximidade à natureza e ao verde fez sempre parte da minha vida. O caminho para a escola, entre a aldeia e a vila, era sempre feito a pé. Acompanhar os meus avós nas atividades agrícolas, nos intervalos da aulas, fez-me ter mais carinho pelos animais e plantas e vontade de compreender estes ecossistemas. Por exemplo, conhecer o nome das plantas e árvores, compreender os contextos em que se desenvolvem melhor, perceber as potencialidades de uso, pode ser estimulante e fornecer ferramentas fundamentais para que a naturalização dos espaços mais urbanizados promovam uma maior resiliência a fenómenos ambientais extremos. A natureza ensina-nos a antecipar problemas estruturais de espaços artificiais, se planeados antecipadamente.

B.I.:

Nasceu em Vale de Maceira, aldeia da serra da Lousã, a 24 de julho de 1968. Terminou o doutoramento em Ciências Ambientais na Kingston University, em Londres, em 2005, e é professor de Engenharia Florestal na UTAD. Tem concentrado a sua investigação nas alterações climáticas, na quantificação do carbono fixado por ecossistemas florestais, no estudo dos ecossistemas florestais num contexto de alterações climáticas e monitorização de florestas mistas. Dá apoio a projetos da Associação de Produtores Florestais e Autoridade Florestal Nacional. É casado e pai de três filhos, de 22, 15 e 6 anos.  O que faz falta a um professor 

Computador portátil -para me ligar ao Mundo, para me permitir ler e responder a emails encurtando distâncias físicas e permitindo que seja útil a alunos e colegas. Para me permitir ler os jornais e manter atualizado.

Telemóvel – gerindo com cuidado a sua utilização, utilizado apenas para receber e fazer chamadas, permite- -me estar disponível para os alunos, colegas e amigos.

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Sacho – para quebrar a rotina e poder jardinar um pouco. Cuidar do meu quintal e do meu jardim é impres-cindível para recuperar equilíbrios.

Fotografia dos meus filhos – porque a família e os amigos são a base de tudo e a razão para continuarmos numa busca con-tínua de um futuro mais equilibrado.

Livro – para ampliar o sonho,
reforçar o caráter, abrir janelas e horizontes.

Chávena de café – vício trazido de uma estada de um ano no Brasil, onde estive a lecionar como Professor Adjunto da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás. O café funciona como ativador de energia. Há dois a três momentos de pausa com café, numa abordagem momentaneamente egoísta, ao longo do dia.

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