Correio da Manhã

A mão que escreveu a carta contra o papa Francisco
Foto Getty Images
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Por Fernanda Cachão | 00:30
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Carlo Maria Viganò, o arcebispo de 77 anos que abriu uma crise na Igreja, é visto como “um empregado insatisfeito”.

A minha consciência exige que revele os factos que presenciei, relativos ao Papa Francisco, que têm um significado dramático (...) e que não permitem que fique em silêncio; aquilo que aqui afirmo, e que estou pronto para repetir sob julgamento, assim seja Deus minha testemunha", escreve na página seis de uma carta aberta de onze páginas Carlo Maria Viganò; carta essa em que acusa o Pontífice de encobrir desde 2013 as acusações de abuso sexual de menores que recaem sobre o ex-cardeal americano Theodore McCarrick. Foi por isso, que o arcebispo de 77 anos pediu ao Papa que resignasse.

Foi o jornalista e vaticanista Marco Tosatti a ajudar o arcebispo italiano, irmão de um padre jesuíta, velho conhecido do Pontífice, na redação e edição das onze páginas - sentaram--se lado a lado numa mesa de madeira na sala da casa de Tosatti, durante três horas. O vaticanista, que escreve no ‘La Verità’, consultor da CBS News, autor de livros como ‘João Paulo II - Retrato de um Pontífice’, ‘Dicionário do Papa Ratzinger’ ou ‘La Profezia di Fatima’, diz que aquele é "um dos mais dramáticos e importantes documentos que leu nos quase 40 anos em que faz a cobertura de assuntos religiosos".

Mas Tosatti, que segue os assuntos do Vaticano desde 1981, é um conservador, crítico de Papa Francisco - à Associated Press contou que Viganò lhe terá ligado inesperadamente, pedindo-lhe que se encontrassem. A carta aberta baseia-se em acusações pessoais, sem anexar documentação ou prova. Tosatti diz que apaziguou a linguagem de "um homem enraivecido", que costuma insurgir-se contra as "redes homossexuais" no seio da Igreja, que atuam "com o poder de tentáculos de polvo" para "estrangular vítimas inocentes". Viganò liga a pedofilia à "existência de um lóbi gay" dentro da Igreja. O Papa Francisco é o Pontífice da tolerância que disse a célebre frase - "Quem sou eu para julgar?".

Carlo Maria Viganò nasceu a 16 de janeiro de 1941, em Varese, na região italiana da Lombardia, irmão do padre jesuíta Lorenzo Viganò. Foi ordenado padre a 24 de março de 1968, tendo recebido o título de arcebispo pelo Papa João Paulo II em 1992. Pouco depois ingressou no departamento diplomático da Igreja e há quase dez anos viu o seu poder crescer ao ser promovido a secretário do governo do Vaticano pelo Papa Bento XVI, tornando-se o "número dois" do papado e tendo acesso direto ao Pontífice que resignou em 2013, agora emérito.

Em 2011, Viganò foi envolvido por acusações anónimas de hipocrisia e pediu ajuda ao cardeal Tarcisio Bertone para abafar o que dele se dizia, mas acabou arrastado pela onda do VatiLeaks - associado à divulgação dos documentos do preâmbulo da megafuga sobre a corrupção no Vaticano. Viganò bem pediu ao Papa Bento XVI para não ser transferido para Washington (EUA) como núncio, pois queria terminar o seu serviço de "limpeza da corrupção". "Santo Padre, a minha transferência neste momento causaria desorientação e desencorajamento nos que acreditaram ser possível varrer a corrupção e os abusos de poder", escreveu numa carta. Em vão. O porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, não nega a autenticidade mas lamenta a divulgação de documentos "reservados".

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Sem telemóvel

Em 2015, já com um novo homem no lugar de São Pedro, o arcebispo criou uma situação embaraçosa ao ordenar a cessação à arquidiocese de Saint Paul e Minneapolis da investigação por conduta sexual inapropriada do arcebispo John Nienstedt e a destruição de documentos que alegadamente o incriminavam.

Ainda em 2015, Viganò arranjou um encontro entre Francisco e uma tabeliã norte-americana, Kim Davis, que se negara a casar homossexuais no Kentucky. Mais tarde, o Vaticano teve de vir a público para explicar que Davis era apenas convidada da Nunciatura Apostólica e não tivera nenhuma conversa privada com o líder católico, nem um suposto encontro poderia ser considerado um "apoio" do Papa à causa de Davis. Um ano depois, Viganò é removido do cargo pelo Papa Francisco.

Viganò desligou o telemóvel, "escondeu-se e teme pela sua vida após a publicação do testemunho", contava, esta terça-feira, outro vaticanista, Edward Pentin, que na Amazon tem à venda a obra ‘The Rigging of a Vatican Synod: An Investigation into Alleged Manipulation at the Extraordinary Synod on the Family’, em cuja sinopse se lê: "Intriga ou inexperiência? Líderes-chave do recente Sínodo Extraordinário dos Bispos tentaram manipular o resultado para apoiar uma mudança na prática católica e talvez na doutrina católica sobre o divórcio e o novo casamento e a atividade do mesmo sexo? Minaram a visão do Papa Francisco de uma discussão ‘aberta’?(...)".

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Daniel Burke, o editor de assuntos religiosos da CNN, diz que para os católicos a carta aberta de Viganò é uma espécie de teste de Rorschach (que consiste em dar respostas sobre com o que se parecem dez pranchas com manchas de tinta simétricas): onde uns, os mais conservadores, veem motivos para que o Papa resigne; outros, mais liberais, veem um golpe de Estado.

Viganò "é um ex-empregado insatisfeito que lidera a conspiração que está em andamento" contra o Papa, escreve a imprensa americana. No Vaticano suspeita-se que alas conservadoras do episcopado dos EUA - com ligações à política - estejam por trás da divulgação da carta do arcebispo italiano.

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