Correio da Manhã

Dois mestres num só livro
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Por Francisco José Viegas | 11:30
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Em ‘Estrela Solitária’, biografia de Garrincha, juntam-se dois mestres talentosos: o biografado e o biógrafo.

É provável que, hoje, Manoel Francisco dos Santos, aliás Mané Garrincha, tivesse passado ao lado de uma grande carreira: ele tinha o corpo de um desajeitado, os nervos e a sensibilidade de uma criança, a intolerância ao mando de treinadores patetas – e tinha as pernas tortas (há um poema de Vinicius de Moraes com esse título, que lhe é dedicado), arqueadas, pernas de menino pobre, de menino índio, de poliomielite. Mas essas pernas à Garrincha, encurvadas, fizeram incendiar ou gelar estádios de futebol.

A canarinha (a seleção brasileira), aliás, só perdeu uma vez com Garrincha em campo – e é vastíssimo o anedotário sobre o jogador eterno do Botafogo (onde marcou quase 250 golos), o clube do coração, apesar de ter jogado também no Corinthians e no Flamengo.

Se forem ao YouTube encontram antologias dos seus golos – procurem um Brasil-Checoslováquia em junho de 1962, e o Brasil-Bulgária de julho de 1966, campeonatos do mundo: num drible, finge correr mas estaciona no relvado; então, volta atrás e, curvado, num ângulo perfeito e perigoso, arranca para a baliza.

Também pode verificar que a lenda é mesmo verdadeira: Garrincha fintava um adversário mas, ainda não contente, volta atrás para driblá-lo de novo. Ele sabia – talvez por ser menino índio – que a derrota não fica completa sem humilhação ou, pelo menos, sem risota. E ele ria. Além de jogar como um diabo, Garrincha era um prodígio de humor – dá vontade de rir ao vê-lo jogar. E dá vontade de chorar ao ver como a sua vida se foi desperdiçando, entre futebol, álcool, aventuras sexuais, desprezo pelos que amava (como Elza Soares) e que o amaram (como Nair).

Ruy Castro é um biógrafo notável. Na língua portuguesa não tem um rival (talvez apenas o Fernando Morais de ‘Chatô, o Rei do Brasil’, mas não mais) a não ser ele mesmo: o Ruy Castro que assina as biografias de Nelson Rodrigues (‘O Anjo Pornográfico’) ou de Carmen Miranda.

Minucioso, serve-se dos ardis da literatura para compor a biografia de um grande mágico do futebol. É um encontro de dois reis: o dos estádios e o da biografia. Belo encontro.

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