Correio da Manhã

Quarenta anos depois da grande conspiração
Foto Pedro Catarino
Por Secundino Cunha | 13:30
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Morreu 33 dias depois de ter sido nomeado Papa João Paulo I. O mistério ainda perdura.

Os corvos que hoje sobrevoam a cúpula da Basílica de S. Pedro e os telhados da Capela Sistina e do Palácio Apostólico lembram, quando crocitam, os tenebrosos dias de há quarenta anos, que culminaram com a morte do Papa João Paulo I, a 28 de Setembro de 1978, 33 dias após a sua eleição no célebre ‘Conclave de agosto’.

Também agora, como há quatro décadas, a ala retrógrada e situacionista da Igreja Católica quer ver o Papa pelas costas. O cardeal Marto, bispo de Leiria-Fátima, falou no primeiro domingo deste mês num "ataque ignóbil e organizado contra o Santo Padre" e, um dia depois, surgiu o apelo ao apoio dos católicos ao Papa lançado pelo patriarca de Lisboa, Manuel Clemente: "Estamos com o Papa Francisco, como ele está com Cristo e o Evangelho". E logo na segunda-feira, na abertura do Simpósio do Clero, em Fátima, os bispos portugueses, acossados pela célebre carta de Viganò, escreveram ao Papa Francisco a manifestar-lhe incondicional apoio. Têm feito o mesmo as conferências episcopais dos diversos cantos do Mundo.

Foi este toque a reunir que faltou ao cardeal Albino Luciani quando, ao sentar-se na cadeira de Pedro, cheio de vontade de pôr em prática as mais revolucionárias decisões do Concílio Vaticano II, se viu cercado de sombras e resistências.

Para além de manifestar respeito pelos divorciados, de falar alto de temas proibidos, como o controlo na natalidade, assumiu as rédeas da Igreja quando os muros do Vaticano eram fortemente abalados pelo maior escândalo financeiro e de corrupção dos últimos quatro séculos. Mais ainda: O recém-eleito Papa estava determinado a limpar a cúria dos vícios que a corroíam desde há séculos e, para além das ideias, assumia atitudes revolucionárias.

Pela primeira vez, nos divinos corredores, caminhava um Papa que ousava falar com os guardas suíços, que recusava sentar-se na sedia gestatória (cadeira que era levada por quatro homens em ombros, como se fosse um andor), que, imagine-se a heresia, aceitava mulheres à sua mesa, ao almoço (aconteceu quando a irmã o visitou) ou, pior de tudo, tinha recusado ser coroado com uma tiara de ouro e diamantes. A Cúria dividia-se em duas alas: a boquiaberta e a indignada. A primeira aplaudia, a segunda fazia contas à vida.

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Sublinhe-se ainda que Albino Luciani, apesar de italiano, era um elemento estranho à Cúria de Roma, porque nunca trabalhou no Vaticano nem foi núncio apostólico, degrau que costuma preceder o cardinalato. Por um lado, não era conhecido na corte, por outro, não tinha inimigos, o que poderá ter sido preponderante no momento em que o Espírito Santo iluminou os purpurados que fixavam os olhos na "criação do Mundo".

O terramoto Ambrosiano
A eleição de Luciani para líder da Igreja Católica deixou meio mundo estupefacto e o outro meio em pânico. Os últimos anos da década de 70 do século XX faziam soar a finados os sinos de S. Pedro, com os fortes indícios de que o Banco Ambrosiano de Milão atravessava tempos difíceis. Ora, o Instituto das Obras Religiosas (IOR), também conhecido por Banco do Vaticano, era detentor de 16 por cento do capital do Ambrosiano e as duas instituições encontravam-se envolvidas por uma longa teia de ligações pouco claras, urdida ao longo de várias décadas.

Na liderança do IOR sentava-se, desde 1971, o arcebispo norte-americano Paul Casimir Marcinkus, defensor a teologia reacionária e a quem chamavam "banqueiro de Deus". O elo mais forte da teia que agarrava o IOR ao banco de Milão era constituído pela amizade férrea entre Marcinkus e Roberto Calvi, o presidente do Banco Ambrosiano (foi encontrado enforcado debaixo de uma ponte, em Londres, a 17 de junho de 1982, não se sabendo até hoje se foi suicídio ou assassinato). Convirá referir que o banqueiro Calvi era um destacado membro da loja maçónica italiana P2.

A situação do Banco Ambrosiano era de tal maneira preocupante que, logo nos primeiros contactos diplomáticos, alguns membros do Governo italiano alertaram o recém- –eleito Papa para "um problema poderia abalar a Igreja Católica". Havia, portanto, que realizar uma profunda limpeza no Vaticano, a começar pelo IOR, epicentro de evidentes casos de negócios ilícitos e corrupção. Marcinkus percebeu que a primeira cabeça a rolar seria a sua e, juntamente com a poderosa teia ambrosiana, afiou as garras e manteve-se no cargo por mais 11 anos.

Opus Dei, máfia e maçonaria
No dia 27 de agosto de 1978 bateu à porta dos aposentos de João Paulo I (escolheu os que tinham sido usados por João XXIII, em detrimento dos de Paulo VI) o cardeal francês Jean-Marie Villot, secretário de Estado do Vaticano e camerlengo, ou seja, aquele a quem competia a gestão do Vaticano em caso de morte ou renúncia do Papa. Villot era o homem de confiança de Paulo VI, membro do Opus Dei e absoluto defensor das tradições mais conservadoras da Igreja. O principal tema a discutir: a sedia gestatória.

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O novo Papa tinha feito saber que não pretendia usar aquela "liteira", considerando inadequado um homem ser transportado por outros homens. Villot estava encarregue de convencer o Papa do contrário. Era tradição e havia que respeitá-la. Luciani bem tentou, mas não conseguiu dobrar a resistência da Cúria e, como mostra a imagem da página anterior, acabou por apresentar-se aos fiéis na sedia gestatória. Mas só o fez uma vez, arrumando definitivamente mais uma tradição.

O pontificado de João Paulo I, de apenas 33 dias, foi um dos mais curtos da História da Igreja. Oficialmente, faleceu na madrugada de 28 de setembro de 1978, vítima de enfarte agudo do miocárdio. A nota oficial acrescentava ainda que "o ataque que vitimou o Santo Padre terá sido causado pela enorme pressão causada pelo cargo. Mas são poucos, dentro e fora da Igreja, que acreditam piamente nessa tese.

Logo nesse dia, foram aventadas teses diversas, reveladas contradições acerca dos acontecimentos e colocadas questões, muitas ainda hoje sem resposta. O que causou verdadeiramente a morte do Papa? Quem encontrou o corpo? E a que horas, ao certo? Porque embalsamaram rapidamente o corpo? Foi ou não realizada uma autópsia secreta? Por falta de respostas a estas e outras perguntas, foi ganhando forma a tese de que, em vez de vítima de um ataque, o Papa tinha sido assassinado.

Sobre este assunto foi escrita toda uma biblioteca, com alguns ‘best-seller’, como ‘Em nome de Deus’, ‘Um ladrão na noite’ ou ‘Batina vermelha’ a atingirem vendas na ordem dos cinco milhões. E em todos eles, com maior ou menor grau de ficção, conclui-se que a morte do Papa foi cozinhada pelo tríplice dominador da situação: Opus Dei, máfia e maçonaria.

Chamem o embalsamador
O Vaticano não assume, mas todos os indícios apontam para o facto de o embalsamamento do corpo do Papa João Paulo I ter sido concluído menos de doze horas após a morte. Há até quem assegure que uma viatura do Vaticano estava junto à casa dos embalsamadores, os irmãos Renato e Ernesto Signoracci, às cinco da madrugada, quando, segundo a versão oficial, o Papa morreu entre as 4h30 e as 5h30. Ou seja, os embalsamadores podem ter sido chamados antes de o Papa ter falecido. E a quem competia essa tarefa de chamar os embalsamadores? Ao cardeal camerlengo, o já referido Jean-Marie Villot.

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De resto, nunca ficou claro se foi o padre irlandês John Mage, secretário pessoal do Papa, ou a irmã Vincenza, uma das freiras que cuidavam do apartamento papal, a descobrir o corpo do malogrado pontífice já sem vida. Também nunca foi clarificado se o corpo foi encontrado na cama ou no escritório. Há versões amplamente estudadas para as duas possibilidades. Ou seja, sobram pontas soltas, omissões e contradições mais do que suficientes para se admitir que João Paulo I tenha mesmo sido assassinado.

Nessa perspetiva, não há como riscar do topo da lista dos suspeitos, o arcebispo Marcinkus, que estava com a cabeça a prémio por causa das suspeitas de negócios fraudulentos envolvendo o IOR, o cardeal Villot, que não suportava o pendor revolucionário de Luciani e que foi quem ordenou o polémico embalsamamento do corpo, e o banqueiro Calvi que, com o seu Ambrosiano em queda livre, precisava desesperadamente do amparo vaticanício.

Quando a História se repete
O cardeal francês Jean-Marie Villot teve consulado curto. Morreu cinco meses e meio depois de João Paulo I. Roberto Calvi, já o dissemos, foi encontrado enforcado numa ponte sobre o rio Tamisa. Já o arcebispo Paul Marcinkus, a quem também chamavam ‘Gorila’, esse conseguiu superar as crises, como a morte do Papa Luciani ou a estrondosa falência do banco Ambrosiano, em 1982. Só foi afastado do cargo de presidente do IOR em 1989, por João Paulo II, quando enfrentava vários processos. Chegou a ser formalmente acusado, mas acabou por ser protegido por um asilo especial do Vaticano. Morreu em 2006.

Quarenta anos depois da "grande conspiração", dá a sensação de que a História tende a repetir-se. Não em toda a sua extensão, mas na clara tentativa a que se assiste, por parte de uma ressuscitada ala retrógrada da Igreja, de cortar as asas a um Papa progressista.

Agarrados aos lúgubres escândalos dos abusos sexuais sobre crianças, praticados por membros do clero, em que muitos dos seus nomes se inscrevem como responsáveis e encobridores, os conservadores, saudosistas de uma Igreja opaca e complacente, atiram pedras ao Papa Francisco, tendo, no essencial, por objetivo, um indesejado regresso ao passado.

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A carta de 11 páginas, publicada cirurgicamente na véspera da visita do Papa à Irlanda, é um exemplo disso mesmo. Francisco, já se sabia, iria ser confrontado com o drama da pedofilia, e o arcebispo, que foi núncio apostólico em Washington e nunca perdoou o facto de não ter sido elevado à dignidade de cardeal, espetou mais uma lança, acusando Francisco de "encobridor" e exigindo a sua demissão. O tempo passa, mas os pecados são eternos.

Dois papas separados pelo tempo mas unidos pelos ideais 

O papa do sorriso
Surpreendido pela eleição para Papa, o cardeal Albino Luciani quis dizer que não aceitava. Mas o holandês Johannes Willebrands, que se sentava ao seu lado, disse-lhe: "Coragem. O Senhor dá o fardo, mas também força para o carregar".

Luciani nunca perdeu o sorriso, mas sabe-se que, nos 33 dias do seu pontificado, terá tido muitas mais razões para chorar. Apologista de uma Igreja pobre e humilde - "Não temos bens temporais para trocar, nem interesses económicos a discutir", disse, foi confrontado com os sinais de falência do Banco Ambrosiano e a real ameaça de levar consigo as finanças do Vaticano.

Para além do manto nubloso que cobria as duas instituições e escondia ligações perigosas à máfia e à maçonaria. Empenhado em pôr em prática as medidas do Vaticano II que ainda se encontravam na gaveta, esbarrou num muro retrógrado, composto pelos mais influentes cardeais e arcebispos. Mas não desistiu. Tanto falava com os guardas, como dizia aos cardeais que os celibatários não sabem nada de sexo. Não teve tempo para nada.

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Homem de branco
O "buonanotte" com que saudou os fiéis que se abrigavam da chuva na praça de S. Pedro, na noite da sua eleição, a 13 de março de 2013, fez o mundo católico perceber que estava ali, na liderança da Igreja, um homem como os outros homens, com a particularidade de vestir de branco.

A sua postura terra a terra (calçava sapatos pretos e meio rompidos, foi aos Jesuítas pagar a estadia, parou numa ótica de Roma para acertar os óculos), cedo causou azia no grupo conservador. Mas o pior foi quando partiu para a ação e procedeu à alteração de peças importantes da Cúria. Mudou o secretário de Estado e praticamente todos os prefeitos das congregações e prometeu firmeza no combate à corrupção, perante mais um escândalo de corrupção no Vaticano, que o padre Lombardi batizou de VatiLeaks.

Apologista de uma Igreja pobre, de serviço ao próximo e descentralizada, Francisco tem sido, cada vez mais, alvo das bicadas dos apologias do cabeção, da batina e do beijo no anel. Já leva cinco anos e meio e o muito que já fez evidencia o mais que falta fazer.

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