Correio da Manhã

Valdemar Alves: Autarca após a Judiciária
Por Leonardo Ralha | 11:13
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Antes de ser eleito presidente da Câmara de Pedrógão Grande nas listas do PSD, e reeleito nas listas do PS, o homem marcado pela tragédia dos incêndios fez carreira a apanhar burlões

Se Valdemar Alves só ficou conhecido por muitos portugueses devido aos trágicos incêndios que mataram 64 pessoas a 17 de junho, outro sinistro de má memória faz parte do percurso do homem que, à beira de fazer 69 anos, foi reeleito presidente da Câmara de Pedrógão Grande. Estava na Polícia Judiciária, na qual passou quase 40 anos, a 25 de agosto de 1988, dia em que o   Chiado inteiro ardeu, provocando duas mortes e prejuízos milionários no coração de Lisboa.

Os dotes de organizador, reconhecidos na polícia de investigação, e o traquejo que ganhou a lidar com infrações económicas ajudaram-no a fazer "um notável trabalho de inventariação" dos objetos de valor que as autoridades recuperavam nos escombros de edifícios de habitação e de lojas, como os Armazéns do   Chiado e do Grandella, facilitando a restituição aos legítimos proprietários.

Nascido   em   Pedrógão   Grande,   deixou a vila leiriense rodeada de floresta aos 14 anos, trabalhando em Lisboa e Coimbra. De volta à capital, ingressou na Polícia Judiciária aos 20 anos, através de concurso. Apesar de ter feito estágio nos Homicídios, encontrou a vocação de desmontar burlas e abusos de confiança, tal como falsificações de cheques e documentos. "Conheci-o sempre de fato e gravata. Nunca o vi a correr atrás de bandidos", diz um ex-colega.

Outra faceta do homem que só se tornou autarca de Pedrógão Grande após a reforma foram as relações públicas. "Foi um dos rostos da Polícia Judiciária quando a polícia estava muito enclausurada em si mesma", nota Moita Flores, cuja amizade com Valdemar Alves nasceu nas instalações da rua Gomes Freire. Por seu lado, Carlos Anjos realça a capacidade de um ex-colega "incapaz de trair alguém ou de dar uma má resposta".

Ligado à terra natal

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Só foi eleito presidente da câmara em 2013, independente nas listas do PSD, mas a "ligação muito forte"   a   Pedrógão   Grande   era   algo bem conhecido pelos mais próximos. Chegou a convencer o amigo Moita Flores a escrever artigos para um jornal regional e fazia o possível para marcar presença na terra natal sempre que tinha tempo livre.

Elogiado por quem com ele trabalhou pela forma como, quase por artes mágicas, conseguia "arranjar mais um carro e mais três pessoas para uma operação se fosse preciso", o futuro autarca também se valeu da experiência a ouvir pessoas. De tal forma que, ao ser eleito em Santarém, Moita Flores pediu ao amigo que o fosse ajudar, acabando por detetar potenciais prevaricadores. "Simpaticamente entalava-os", diz.

Homem do bloco central, Valdemar Alves foi o único presidente de câmara eleito pelo PSD em 2013 a quem o partido não deu hipótese de se recandidatar em 2017. Já o sabia aquando dos incêndios florestais   que   devastaram   a   sua   terra, mas o ex-inspetor da Polícia Judiciária foi reeleito, nas listas do PS, novamente como independente.

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