Correio da Manhã

“Vivemos numa sociedade erotizada precocemente”
Foto Bruno Colaço
Por Miguel Balança | 10:30
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Vânia Beliz é autora de ‘Chamar as Coisas pelos Nomes’, um manual prático para uma conversa sem pudores com os mais novos.

Como e quando falar sobre sexualidade com os nossos filhos? Com o desenvolvimento da criança aumentam as dúvidas sobre uma intimidade crescente (de que é tabu falar) e ignoram-se oportunidades únicas para esclarecer e educar os mais novos para um assunto que ainda é um verdadeiro quebra-cabeças para os pais, que - por pudor, desconhecimento ou medo – fogem a sete pés de uma conversa sem rodeios.

A propósito do lançamento do livro ‘Chamar as Coisas pelos Nomes’ (Editora Arena), a psicóloga clínica e da Saúde Vânia Beliz, de 39 anos, guia-nos numa conversa despudorada sobre aquela que é, afinal, uma parte fundamental da vida de pais e filhos.

Falar de sexo continua a ser um assunto tabu?
Continua. A literatura diz-nos exatamente isso: que as famílias parecem compreender a importância da educação sexual em algumas temáticas, mas depois receiam a abordagem noutras. A educação sexual formal existe há muito tempo nas nossas escolas e em momento algum substitui as orientações da família, pois tem o objetivo de trabalhar os direitos sexuais das pessoas em que o respeito pela individualidade e escolha de cada um é muito importante. As famílias temem que a educação sexual formal lhes roube os valores e que incentive à sexualidade precoce, o que não acontece de todo. São vários os estudos que referem o adiamento da atividade sexual em jovens que participam em programas de educação sexual. Ainda assim, muitas famílias não aceitam que se discutam certas temáticas, talvez porque não saibam exatamente como serão abordados.

Qual é o maior obstáculo a uma educação sexual digna desse nome?
A confusão com o conceito de sexualidade, porque a maior parte das pessoas ainda acha que falar de sexualidade é falar exclusivamente de sexo, de relação sexual. Cada criança é única e educar para a sexualidade deve ser um processo contínuo. As famílias assustam-se quando falamos de conceção com crianças de nove anos, mas muitas esquecem–se que existem meninas férteis aos 9-10 anos e que é importante que compreendam os riscos que correm até em algumas brincadeiras exploratórias inocentes, por exemplo. Esquecemo-nos que vivemos numa sociedade erotizada precocemente, em que as crianças são expostas a inúmeros estímulos menos favoráveis a um desenvolvimento saudável da sexualidade. E se não comunicarmos em casa, alguém cá fora o fará por nós. Mensagens descontextualizadas constituem riscos que muitas vezes não avaliamos, de que são exemplo as inúmeras situações de violência e abuso sexual em que crianças e jovens estão tão vulneráveis.

A quem compete educar neste campo?
Em primeiro lugar à família. Existem, depois, agentes formais através da educação e da promoção da saúde, razão por que a educação sexual está incluída nos programas de educação para a saúde (PES) e da educação para cidadania e desenvolvimento. A educação sexual é o parente pobre da educação para a saúde, porque ainda temos muitas raízes extremamente conservadoras no que diz respeito à sexualidade, que se espelham na opinião pública sobre temas como a igualdade de género, do respeito pelas comunidades LGBTI... Não tenhamos medo de admitir as nossas dificuldades, mas tenhamos consciência das consequências que daí advêm.

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Por que razão receiam os pais abordar o assunto?
Porque sentem que não estão preparados; porque acham que, como descobriram sozinhos, o mesmo irá acontecer com os seus filhos; alguns até porque é difícil aceitar que os filhos estão a crescer. Vejo ainda tantas diferenças nos cuidados de meninos e meninas, na divisão de tarefas, na abordagem às questões da puberdade, principalmente com as meninas (sim, o período ainda é algo nojento de que muitos nem sabem como falar), das primeiras relações de namoro… Mas, se as famílias não se disponibilizarem para conversar, hoje todas as dúvidas poderão ser rapidamente respondidas, ainda que muitas vezes de forma errada. A pornografia tão disponível, a erotização precoce, as constantes notícias de violência sexual e de género, tudo áreas que devem ser abordadas num programa de educação sexual que capacita e protege quem de direito.

O que preocupa as famílias vai ao encontro daquilo que inquieta as crianças?
As preocupações serão sempre diferentes. Os estudos revelam que preparamos meninos e meninas de forma diferente. As famílias temem a violência e o abuso sexual, principalmente nas suas meninas, o que deixa os meninos mais vulneráveis; temem uma gravidez precoce, focando-se também na proteção das meninas; e temem as infeções sexualmente transmissíveis. Em relação a questões mais fraturantes, como a orientação sexual, muitas famílias dizem aceitar, mas depois, na escola, os jovens falam-nos de medo e de incompreensão, sentindo-se perdidos e infelizes. Fica claro, nas inúmeras dúvidas que escuto, que os jovens querem uma educação sexual mais próxima das suas necessidades também em constante mudança, tendo em conta os estímulos que hoje recebem.

Com que idade deverá acontecer ‘a primeira conversa’ sobre sexualidade entre pais e filhos?
Aí é que está o grande desafio, achamos sempre que há uma idade, um momento, uma conversa - mas educar para a sexualidade antecede isso tudo. Quando os pais preparam a chegada do bebé e conhecem o seu sexo criam um contexto que irá, desde logo, influenciar o seu desenvolvimento. A forma como as famílias dividem os cuidados desde cedo, tudo isso constrói a identidade da criança e isso também é sexualidade. Educamos desde que nascemos... a criança começa a descobrir-se, depois, com a linguagem, começam a surgir as perguntas e idade para perguntar, idade para responder. Com este livro espero conseguir passar estratégias para as famílias se sentirem preparadas para qualquer questão, chamando as coisas pelos nomes e abordando todos os temas sem dificuldades.

Que importância é que a linguagem assume no diálogo entre pais e filhos? Como aconselha que seja feita a abordagem do tema?
Aconselho sempre que não se reprima e que se tente perceber de onde surgem as questões e os comportamentos. Sabemos que, na adolescência, contrariar e proibir não é solução. Sabemos que nos primeiros anos devemos insistir em regras para que as crianças aprendam a adequar os seus comportamentos e a prevenir riscos. A linguagem deve ser sempre objetiva, simples e adequada à compreensão da criança.

De que forma o tratamento do assunto deverá evoluir com o amadurecimento da criança?
À medida que a criança cresce, os seus interesses mudam. O interesse romântico/erótico por outra pessoa chega com a puberdade, antes disso a criança deverá ter conseguido desenvolver uma noção saudável de si, do seu corpo, do outro. Deverá estar preparada para a puberdade e para todas as mudanças que ela implica. Com a entrada na puberdade deve-se abordar aspetos importantes da intimidade, como o consentimento, o bom trato... Depois a relação sexual, com os riscos mas também com os seus potenciais. Não vale a pena assustar os adolescentes dizendo-lhes que é perigoso ou errado, quando eles devem saber que uma relação responsável e gratificante nos pode fazer tão felizes. Existem culturas que ensinam e preparam os filhos para o prazer, mas ainda estamos muito longe de isso acontecer connosco, principalmente com as meninas. Quantas de nós ouviram falar de clítoris? Temos um ‘pipi’ e pronto... muitas mulheres adultas nem sabem o que é a vulva e depois admiramo-nos de tantas mulheres não sentirem nada na sua intimidade...

Com que idade a criança acaba o processo de formação nesta área?
Nunca terminamos o nosso processo de aprendizagem. O nosso ciclo de vida vai mudando e vamos adaptando a nossa intimidade a todas essas mudanças. Ter consciência disto é ter uma janela aberta quando as dificuldades nos fecharem algumas portas. A forma como vivemos a nossa sexualidade na infância e na juventude é determinante para nos tornarmos adultos mais felizes e saudáveis.

BI
Vânia Beliz (39 anos) é licenciada em Psicologia Clínica e da Saúde, mestre em Sexologia e doutoranda em Estudos da Criança na especialidade de Saúde Infantil, na Universidade do Minho. É autora do livro ‘Ponto Quê?’ (Objetiva), sobre sexualidade feminina, e co-autora de ‘A Viagem de Peludim’ (Marcador), dirigido a crianças e educadores. Apresentou durante três anos uma rubrica televisiva sobre sexualidade. É responsável pelo projeto ‘ControlTalk’, um serviço de aconselhamento sexual para jovens através do Whatsapp.

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