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15 PRECIOSIDADES DE SÃO BENTO

Descobrimos em São Bento a constituição de 1822, assinada pelo punho de D. João VI. Esta é uma viagem pelas jóias e histórias de um palácio que marcou os últimos 180 anos da História de Portugal.
4 de Janeiro de 2004 às 15:12
CONSTITUIÇÃO DE 1822
A assinatura curvilínea do rei D. João VI, que jurou a Constituição a 1 de Outubro de 1822, é um dos maiores símbolos da monarquia constitucional. O rei, “mal preparado para o poder, mediano de inteligência, hesitante e timorato”, acabou assim por ficar na História. A Constituição de 1822 é “o mais antigo texto constitucional português e tecnicamente um dos mais bem elaborados”. O documento, que foi subscrito por 141 deputados, encontra-se guardado nas estantes da biblioteca da Assembleia da República.
SALA DOS PASSOS PERDIDOS
A designação é curiosa e está relacionada com o facto de “às portas da Câmara dos Deputados vinham requerentes saber de notícias sobre as promessas dos eleitos e, muitas vezes, percebiam que tinham vindo para nada… Eram passos perdidos”. O nome está igualmente ligado às congeminações políticas: aquilo que era combinado entre os deputados nos Passos Perdidos acabava por não ser levado à prática durante a discussão parlamentar. A enorme galeria, que fica paredes-meias com a sala de sessões, continua a ser um ponto de encontro e desencontro entre deputados, membros do Governo e jornalistas.
BUSTO DA REPÚBLICA
Maria Puga não teria o ‘glamour’ das divas Laetitia Casta ou Catherine Deneuve (as ‘Mariannes’ francesas) mas rezam as crónicas da época de que a modelo que serviu de inspiração para representar o busto da República Portuguesa, em 1911, era uma rapariga muito bela, que encantou diversos escultores no início do século. Puga morreu há menos de uma década num lar em Sacavém. Houve outras jovens modelos que foram símbolo da República, mas há muito que se lhes perdeu o rasto.
OS PORTÕES DE GOMES DA COSTA
Conhecido pelo seu feitio truculento, Manuel Gomes da Costa, o mentor do golpe de Maio de 1926, gritou um “Às armas, Portugal!”. Mandou fechar os portões do Parlamento, um gesto simbólico que pôs fim à democracia. “O último acto do Parlamento que existe em Portugal não foi marcado pela grandeza que devem revestir os actos históricos. Nem uma só voz se levantou a protestar… tanto tinha descido a instituição que um soldado, um simples cabo raso, cerra os portões da câmara”, escreve-se na altura. A foto do soldado da GNR a fechar o Parlamento ficará para a posteridade. Gomes da Costa iria assumir a Presidência da República a 17 de Junho mas, vítima de vários jogos de poder, foi deposto a 9 de Julho. A Câmara só reabre em 1935, tornando-se, durante o Estado Novo, na Assembleia Nacional.
DUELOS DEPOIS DO PLENÁRIO
Nos tempos da monarquia constitucional, os debates parlamentares eram acesos e terminavam muitas vezes em duelos nas ruas de Lisboa. Afonso Costa, parlamentar do Partido Republicano, foi por diversas vezes desafiado para este tipo de lutas, depois de ser acusado de proferir ofensas pessoais no parlamento. Escapou sempre ileso, ao contrário de adversários como o deputado progressista Alexandre de Albuquerque que saiu “ligeiramente ferido” de um desses duelos, em 1910.
PRISÃO DE BOCAGE
No Refeitório dos Frades, uma das poucas salas que preserva o traço do antigo convento beneditino, terá existido uma prisão onde Barbosa du Bocage esteve cativo. O poeta setubalense, que escrevera uns “papéis ímpios, sediciosos e satíricos” contra o despotismo vigente, foi preso por desrespeito à igreja e ao rei. Ficou detido no mosteiro de São Bento da Saúde a 17 de Fevereiro de 1798, depois de ter tentado fugir na corveta ‘Aviso’, com destino à Baía. No mesmo local, também esteve arquivado o depósito da Inquisição, quando a Torre do Tombo estava sedeada em São Bento.
A VARANDA DA REPÚBLICA
Da varanda da fachada principal da AR, virada para a Praça
de São Bento, Braancamp Freire, presidente da Assembleia Constituinte, anunciou em tom triunfante aos lisboetas a proclamação da República Portuguesa. A 19 de Junho de 1911.
SALA DE SENADO
Durante a monarquia constitucional, esta era a Câmara dos Pares. Em 1834, o duque de Palmela, o seu presidente, criou uma comissão para discutir o casamento da rainha D. Maria II com um príncipe estrangeiro. O duque não era a favor do matrimónio real, invocando argumentos políticos. Descobriu-se mais tarde que o nobre apenas desejava casar o seu filho com a herdeira do trono.
DEPUTADOS EM FAMILIA
Entre 1834 e 1910, houve 355 deputados que eram irmãos, 99 eram sogros e 165 cunhados. Dos quase 2600 parlamentares da monarquia constitucional, mais de 900 eram familiares de outros deputados. Os Silva Pereira, os Carvalhos Chanceleiros e os Margiochi, por exemplo, tiveram mais de um familiar no Parlamento.
ALA LIBERAL
A Ala Liberal era uma lufada de ar fresco durante o período da Primavera marcelista. Era nesta cadeira onde se sentava Mota Amaral, em 1969, ao lado de figuras como Sá Carneiro, José Pinto Leite, Miller Guerra, Magalhães Mota e Pinto Balsemão. Hoje, o político açoriano preside os trabalhos parlamentares na Assembleia da República e é o único que continua na vida política activa daquele grupo de ilustres deputados (muitos deles já mortos). “A Ala Liberal teve uma grande importância para o fim do Estado Novo”, confidencia Mota Amaral.
SINOS DE BELÉM
O enorme incêndio de 1895 devastou por completo o Palácio de São Bento. Hoje, o que resta do antigo convento benetino, que
foi erigido em 1598? Entre os poucos vestígios encontram-se os dois sinos que pertenceram à torre da igreja do Convento de São Bento e estão expostos no átrio principal. O refeitório dos frades e o chão do átrio principal da AR são as restantes marcas desse passado distante.
ESCADARIAS, CORREDORES E ASSOALHADAS
Não há certezas absolutas, mas estima-se que a Assembleia da República tenha cerca de cem assoalhadas. As dezenas de corredores labirínticos e as longas escadarias ainda são um tormento para os novos deputados do hemiciclo.
ARQUIVOS HISTÓRICOS
Nos arquivos guardam-se todas as memórias do Palácio de São Bento. Entre elas, a do líder do Partido Progressista, Anselmo Braancamp, que demorou três dias a fazer um discurso sobre o primeiro imposto do rendimento e acabou por ser deposto por um golpe palaciano. Ou quando Alexandre Herculano foi vaiado pelos deputados por ter quebrado a regra parlamentar do improviso. “Herculano larga a sebenta!”, foi a frase gritada pelos colegas irados. Os arquivos históricos, hoje abertos ao público, já foram meros armazéns.
JARDIM INTERIOR
Fica nas traseiras de São Bento, o jardim de inspiração francesa tem um muro de 50 metros a separá-lo da residência oficial do primeiro-ministro. O primeiro estadista a habitar o palácio – construído em 1887, por Machado Cayres – foi Oliveira Salazar. Em 1939 era residência oficial do presidente do Conselho de Ministros.
SALA LISBOA
É uma das salas mais conhecidas dos jornalistas, sendo usada para conferências de imprensa e reuniões. Durante o Estado Novo era o gabinete de trabalho do presidente da Assembleia Nacional.
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