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Correio da Manhã

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2001, odisseia no tempo

Há países que me limito a atravessar sem remorsos ou vontade de voltar. Noutros, sou obrigada a prometer a mim própria um regresso, tentativa de apaziguar frustrações maiores. À Etiópia hei-de voltar sempre
5 de Outubro de 2008 às 00:00
2001, odisseia no tempo
2001, odisseia no tempo

Nestas ilhas, a religiosidade parece soltar-se da terra, perfume espiritual que nos acompanha enquanto visitamos mosteiros e passeamos pelas histórias bíblicas retratadas nos painéis ancestrais das igrejas. Jan e Jan, um casal de septuagenários homossexuais holandeses, interessa-se em especial pelos martírios de várias espécies, a mim atraem-me as cores vivas e quentes. O mosteiro de Debre Maryam data do século XIV e Ura Kidane Mere tem iconografia do século XVI. Perante as imagens, não consigo deixar de pensar que a história das religiões é um trágico banho de sangue.

Deixo Bahir Dahr e o lago Tana em direcção a Gondar na manhã de domingo, com a dor de cabeça de quem passou a noite a beber vinho de mel e a abanar freneticamente os ombros num prostíbulo obscuro. O som dos tambores, os gemidos do masenko, espécie de cabaça com uma só corda, a luz das velas – e os rapazes a dançar a iskita como se estivessem possuídos –, acompanham- -me até à cidade a que chamam 'a Camelot africana'. Pelo caminho, na margem norte do lago, visito o que resta da Catedral Portuguesa de Górgora.

À semelhança de outras ruínas espalhadas pela paisagem do Norte da Etiópia, a catedral é testemunho da presença portuguesa e católica nestas paragens. Depois de ajudarem a expulsar os muçulmanos, os sobreviventes do corpo expedicionário de Cristóvão da Gama caíram nas boas-graças do povo e por aqui ficaram, formando uma pequena comunidade católica. Para suprir as suas necessidades espirituais, chegou, em 1555, um grupo de missionários jesuítas que – até à expulsão, em 1634, na sequência da guerra que opôs católicos a ortodoxos – exerceu grande influência junto da corte. A sofisticação da doutrina teológica, os conhecimentos de arquitectura e engenharia, bem como as técnicas de construção em alvenaria, estavam na base dessa influência. E por mais que os vencedores ortodoxos tenham tentado apagar a herança jesuíta, a presença portuguesa, tal como a de judeus e árabes – afirma o historiador Manuel João Ramos –, 'é um factor justificativo da identidade miscigenada dos abasha (abissínios) e das particularidades da sua civilização'.

Entre essas particularidades, conta- -se uma estranha medida para o tempo. O sistema horário é um quebra-cabeças para faranjis (estrangeiros) e o calendário anual também é diferente. Amanhã, 11 de Setembro, celebra-se a passagem para o ano 2001. É por causa disso que, depois de visitar o impressionante complexo real de Gondar – mistura de influências arquitectónicas portuguesas, mouriscas e indianas datadas do século XVII –, apanho a maior frustração desta jornada. Não há transporte para Lalibela, passaporte para um mundo antigo e tão irreal que, no início do século XVI, o padre Francisco Álvares se escusou a descrever melhor a cidade, os seus edifícios e igrejas, com medo de que não acreditassem nele. Por acreditar nele, regresso a Adis-Abeba zangada com o Ano Novo, mas não consigo deixar de divertir-me com as roupas domingueiras das pessoas. As miúdas a pastar cabras com vestidos de folhos e os rapazes a jogar matraquilhos no meio da lama, com fatos completos três números acima.

Falta-me o visto para o Djibouti e já ando há demasiado tempo por este país que não se esgota. Para me concederem o visto exigem um papel da Embaixada Portuguesa, complicação burocrática que se resolve com uma visita de cortesia à embaixadora Vera Fernandes, dois dedos de conversa sobre as vicissitudes etíopes e um cartão do restaurante O Português no bolso. Saio da embaixada a salivar com a perspectiva dos sabores lusitanos – mas é urgente voltar à estrada, viagem madrugadora para leste num autocarro que apita, tentando contrariar a tendência suicida de pessoas e bicharada.

Pernoito em Dire-Dawa e saio às três da manhã rumo ao Djibouti, embrenhando-me na aridez desértica e num calor que se vai tornando irrespirável. Na fronteira, o termómetro da ‘aduana’ marca 42 graus. Tenho pena dos clandestinos presos num telheiro à espera de serem recambiados. Dou-lhes água, dinheiro, bolachas, cigarros, e volto para o autocarro, onde rapazes andrajosos regam molhos de ‘chat’ fresco, contrabando conivente com polícias e fiscais que dizem adeus da estrada com a boca cheia de folhas verdes.

Na Cidade do Djibouti, capital deste país minúsculo para as dimensões africanas e ex-colónia francesa, suo em bica enquanto acerto agulhas com a língua gaulesa e com preços parisienses. Ainda por cima, vim cair no meio do Ramadão e antes das seis da tarde está tudo fechado. Nem uma côdea, nem uma gota de água. Se eles aguentam, também hei-de aguentar, determino, resignada mas com pouca fé.

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