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Ousadia

Acorda cedo porque não consegue dormir muito. As noites tornam-se longas na solidão.
Tiago Rebelo 2 de Novembro de 2014 às 10:08
Tiago Rebelo
Tiago Rebelo FOTO: DR

É sábado, o Verão parece ter voltado no final de Outubro e ela decide aproveitar o dia soalheiro. Sai para um passeio. Vagueia pelo Chiado por entre o bulício de gente. Há muitos turistas que falam de maneira diferente, algumas línguas que não entende, embora veja a felicidade nos rostos dessas pessoas de férias num país diferente.

Detém-se à frente de uma montra a ver a roupa que vestem os manequins de figuras humanas, mas depois os seus olhos focam o vidro e dá por si a observar-se. Acha-se bonita e elegante.

Desde que  o  marido  morreu nunca mais teve ninguém. Primeiro, esteve demasiado ocupada a sobreviver. Antes, passava tanto  tempo  a  cuidar  dele  que acabou  por  perder  o  emprego. Mas quando ficou sozinha teve de procurar um novo emprego, e depois  teve  de  trabalhar  muito para o manter. Não havia tempo para romances, nem vontade.

Ele surge-lhe por trás, chama-a, ela volta-se. Quase não o reconhece na roupa de fim-de-semana, de tão habituada a vê-lo de fato e gravata. Parece-lhe mais novo assim vestido, com calças de ganga, camisa por fora, sapatos de  ténis.  É  outro  homem, realmente, e ela apercebe-se de que não sabe a sua idade. Na empresa é só mais um colega engravatado como os outros, um tipo desengraçado, calvo e com um pouco de peso a mais. E uma pessoa tem sempre aquela estranha tendência de pensar que os outros são mais velhos do que ela. Afinal, não é.

Ela sorri, pergunta-lhe o que faz por ali. Ele encolhe os ombros, vim dar um passeio, diz. É como eu, afirma ela, está um dia tão bonito… Ele convida-a para tomar um café. Ela aceita.

Estão sentados frente a frente, com a mesa redonda de permeio. Ela pensa: que se lixe o café. Quero antes uma cerveja, anuncia, perante o  empregado.  Ele  olha para o homem, reconsidera o pedido e diz-lhe que esqueça os cafés e traga duas imperiais.

 

Bebem uma, pedem outra e mais outra. Conversam descontraidamente, ambos com a sensação de que só agora se estão a conhecer, apesar de trabalharem juntos e de se verem todos os dias. Ele não sabia que ela era viúva e ela não sabia que ele nunca se casou.

Não faço amor há três anos, declara ela, solenemente. Eu já me esqueci como é que isso se faz, afirma ele, igualmente sério. Depois desmancham-se  a  rir.  O efeito do álcool permite-lhe uma ousadia que normalmente não tem, sente-se livre para o encorajar. Vamos para minha casa, diz. Ele  concorda.  Pagam  a  conta  e vão-se  embora  a  tagarelar  de braço dado, com uma intimidade inesperada que, no entanto, não os assusta.

Tiago Rebelo breves histórias
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