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A minha guerra

Quando passámos próximo da Fazenda da Beira Baixa, tinha havido um ataque um pouco antes que provocou várias baixas
13 de Novembro de 2015 às 12:57
Rafael Oliveira no Grafanil
A minha vida militar teve início a 21 de janeiro de 1969, onde comecei por assentar praça em Leiria, onde fiz recruta. Após a conclusão da recruta fui para o quartel da Pesada, em Vila Nova de Gaia, e embarquei para Angola a 26 de agosto de 1969, no navio Vera Cruz. Fizemos uma paragem na ilha da Madeira, onde aliás entrou um outro batalhão também com Angola como destino. Lá comprei um cacho de bananas por 15 escudos. Foi um regalo para todo o batalhão. Chegámos finalmente a Luanda a 7 de setembro, pelas 08h00. A sensação que tive foi de alegria, porque a viagem tinha corrido bem, e também de surpresa. Achei aquela terra muito bonita, com o sol e a terra vermelhos, da cor das queimadas. Haveria de voltar a Luanda mais vezes, para fazer alguns períodos de férias e inclusivamente tirar a carta de condução. Tirei-a em dois meses!
Boas recordações
Depois do desembarque, fomos conduzidos para o campo militar do Grafanil, onde pernoitámos durante sete dias, à espera de ordem para seguirmos para o mato.
Recebemos depois ordem para irmos para a região dos Dembos, mais concretamente para a base de Santa Eulália – sede de comando do Setor D na área militar número 1, onde estivemos 25 longos meses. Próximo da Fazenda Beira Baixa, poucas horas antes de nós passarmos, tinha ocorrido uma emboscada, com vários mortos e feridos. Nós escapámos por pouco, ainda mal tínhamos chegado. Na nossa viagem passámos por Quicabo, Mabubas, Balacende, Muxaluanda e Tári. Foi uma viagem dura, em pé, em camionetas descaracterizadas, sempre de armas em punho e com os olhos na mata. O cenário era escuro e perigoso.
No quartel general de Santa Eulália nunca sofremos um ataque, mas ainda apanhei alguns sustos, porque quando vinha o Noratlas, depois fazíamos o reabastecimento pelos aquartelamentos em redor de Santa Eulália e aí já íamos pelo mato. Nas picadas tudo podia acontecer e foram várias as vezes que ouvimos fogo ou que percebemos a proximidade do inimigo. Mas, felizmente , nunca houve mal de maior e nunca fui ferido. Aliás, nunca houve uma baixa no meu batalhão, o que era coisa rara.
Penso que em grande parte devemos essa bênção ao nosso capitão, Bernardo Dias, um homem muito responsável e que trouxe de volta sãos e salvos todos os homens que levou para Angola. Era, aliás, um capitão muito conhecido por isso. Em abono da verdade, e volvidos todos estes anos, posso até afirmar que ter ido à guerra colonial foi uma experiência boa. Mas também tenho a perfeita consciência de que só digo isso porque, no final, até correu tudo bem. Talvez por isso, ainda hoje vou com prazer aos encontros do meu batalhão, onde todos partilhamos estas memórias dos nossos tempos de juventude.
O nosso capitão criou uma política para nos manter ocupados e não nos metermos em confusões, mesmo fora do tempo em que estávamos dedicados às tarefas militares.
Dentro do quartel general tínhamos um pequena horta, uma pequena suinicultura e até uma carpintaria e alguns dos camaradas eram responsáveis por elas. Eu, por exemplo, aprendi coisas do meu ofício na tropa, portanto até posso dizer que me foi muito útil. Muitas das coisas que depois foram a minha profissão, aprendi-as na tropa.

Rafael Oliveira
Comissão
Angola
1969-1971
Força
Companhia de Artilharia 2583
Atualidade
Reformado da construção civil, 67 anos, dois filhos e três netos
Angola Vera Cruz Luanda Grafanil
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