António Guterres

Aquele que não queria o pântano
Por Miriam Assor|31.07.16
  • partilhe
  • 1
  • +
António Guterres
António Guterres
O bigode, cuidado e alinhado, crescera em homenagem a Salvador Allende. Quando previu o pântano, e se demitiu de primeiro-ministro, a tesoura já tinha, há muito, cortado o ‘moustache’. É um homem de fé. A religião Católica deu-lhe uma matriz de valores e ser socialista a visão política do Universo e uma vontade de intervir. Quem o conhece desenha-o sem necessitar de gastar a ponta do lápis: dialogante, atento, generoso, solidário, emotivo, intuitivo, moderado mas de convicções fortes.
Tem humor refinado, sentido de entrega e é guloso. Pode virar a cara a um rol de pecados, menos a uma generosa fatia de bolo de chocolate. Vinho, do bom e tinto, que venha com moderação. Senhor de família e de amizades de longa data, um benfiquista que se emociona com Verdi, é obsessivo no que respeita à preparação de viagens: lê roteiros, quer conhecer, e a fundo, o País a visitar e sua respectiva gente.
António Guterres, dado como uma pessoa genuinamente boa, procura a paz e o consenso, inclusive na babel insiste em querer encontrar a pomba e a unanimidade, e essa sua qualidade é capaz de se transformar, às vezes, num defeito, previne um seu ex-ministro: "Dificulta-o a tomar decisões difíceis."
Em Donas, na freguesia do Fundão, terra materna, a sua reputação ascende ao céu. Vítor Dias, ex-presidente daquela freguesia, garantiu que o museu António Guterres arrancasse com cerca de 60 peças àquele oferecidas enquanto primeiro-ministro e que doou à autarquia. Do centro paroquial, Hilma Santos sintetiza uma faceta prevista: "O senhor engenheiro António Guterres faz o bem nos bastidores." O senhor engenheiro, muito antes de ser engenheiro, aprendeu a ler e a escrever aos quatro anos. A idade de ouro da professora Maria de Lourdes não conseguiu roubar-lhe a memória do seu discípulo: "Muitíssimo esperto. Aprendeu com facilidade. Tinha uma letra muito jeitosa. E certinha. Não dava erros." Certo dia, surpreendeu a mãe com uma carta. Gostou tanto. Ainda hoje a senhora se comove com aquela missiva de amor. Outras cartas se mostravam na Beira Baixa, nas férias de Verão, mas de diferente cariz: serviam para jogar ao king e à canasta. Carlos Gomes, amigo de juventude, que fazia parceria com António Guterres, recorda que "ganhava com frequência". Não só: "Ele era uma enciclopédia" e tinha sempre resposta correcta. Segue uma das primeiras memórias que dele guarda: "Debaixo do braço levava invariavelmente um livro."
O pároco de Donas, o padre Américo da Encarnação Vaz, diz do candidato a secretário-geral das Nações Unidas: "É uma pessoa com uma grande abrangência social, um crente aberto a todos os movimentos. Está sempre a pensar nos outros e ao serviço do seu semelhante."

Morte da mulher
Nascido no dia 30 de Abril de há 67 anos, é filho de Ilda Cândida de Oliveira Guterres e de Virgílio Dias Guterres, que foi funcionário superior da Companhia do Gás e Electricidade de Lisboa. Tem uma irmã médica e um neto, que adora. Activista da Juventude Universitária Católica, está presente em inúmeras acções, entre as quais o apoio às vítimas das Cheias de 1967.
A vida política ergueu-se por ter sentido que o voluntariado trazia, afinal, soluções diminutas. A 25 de Abril de 1974, procura António Reis, na altura oficial miliciano que integrara o destacamento da Escola Prática de Administração Militar, que ocupara os estúdios da RTP: "Disse-me que havia chegado o momento de oficializar com o PS." Trocava, então, a disciplina de Teoria de Sistemas e Sinais de Telecomunicações, no Instituto Superior Técnico, pela Assembleia da República. O past Grão-mestre do Grande Oriente Lusitano aproveita a boleia das palavras do Presidente da República: "António Guterres é a figura mais brilhante da minha geração."
Mas muitos lhe apontaram, e ainda lhe apontam, pertença ao Opus Dei. Guterres jamais confirmou essa possibilidade e nada aponta para que fosse obreiro. Até se poderia dizer que a Maçonaria esteve bem presente durante a sua estadia em São Bento: tantos eram os ministros e secretários de estado dos governos de António Guterres que pertenciam à loja maçónica Convergência (pertencente ao Grande Oriente Lusitano), a ponto de essa loja ter sido conhecida entre os maçons como "gabinete".
Estudantes radiosos e católicos veementes, os amigos Guterres e Marcelo fundam em 1970, com Vítor Melícias, um núcleo de reflexão católica – Grupo da Luz. Haveria de ser o mesmo sacerdote que, em 1972, um ano depois de concluir a licenciatura em Engenharia Electrotécnica, celebraria o casamento de António Manuel de Oliveira Guterres e Luísa Amélia Guimarães e Melo. Fruto do enlace nascem dois filhos, Pedro, quadro superior da Mota-Engil, na África do Sul, e Mariana, médica. A esposa, uma reputada pedopsiquiatra, morreria a 28 de Janeiro de 1998, vítima de complicações de um transplante hepático que fizera em Londres, no Royal Free Hospital. O gastroenterologista Leopoldo da Cunha Matos, actual director clínico do Hospital Lusíadas, em Lisboa, acompanhou de perto esse desfecho. Era seu médico, e também de António Guterres, aquando o tempo ministerial. A gaffe sobre o PIB está a anos-luz de incompetência, assegura Leopoldo: "O engenheiro Guterres acabara de visitar os hospitais da Universidade de Coimbra. Não nos podemos esquecer que a doença da esposa (colite ulcerosa) agastava-o imenso."
Foi aluno exímio, que terminara o curso no Instituto Superior Técnico com 19 valores. Já no liceu Camões ouvira do professor de matemática: "Olhe que você ainda há-de chegar a ministro de Portugal", por ter mostrado competência na resolução de uma complicada equação. Nunca seria ministro. Seria mais – capitaneou muitos ministros entre 1995 e 2002.
Mas a política continha limitações. Os antigos conluios no sótão da sua casa em Algés – onde ao lado de António Costa e Salgado Zenha se conspirava sobre variados temas, como por exemplo o afastamento de Mário Soares do secretariado-geral do PS – puderam anular a limitação.
Dizem que na qualidade de alto comissário das Nações Unidas terá tido um retorno à acção social. Como dissera em 2002, o ano que antecedeu o seu segundo casamento, com Catarina de Almeida Vaz Pinto, actual vereadora da cultura da Câmara de Lisboa: "Não vamos salvar a humanidade, vamos fazer aquilo que pudermos."
Salvou, em certa parte, Timor-Leste. Como primeiro-ministro – assevera um social-democrata – não houve outro político que interviesse tanto para deter a violência na sequência do referendo pela independência." Disse não ao convite para presidir a Comissão Europeia, ao contrário de Durão Barroso, que disse logo que sim.
Guterres representava o tão desejado candidato à Presidência da República pelos socialistas. Mas o largo do Rato ouviu a nega.

Espada ou parede
O caminho era outro, o das Nações Unidas. Agora quer atingir o topo da ONU. Para já, na primeira votação dos 15 membros do Conselho de Segurança venceu sem um único voto negativo. Em Lisboa, o embaixador José Freitas Ferraz orienta a equipa que patrocina Guterres ao comando das Nações Unidas. Entre outros elementos, destaca-se David Damião, que assessorou a imprensa de Guterres entre 1995 e 2002 e de José Sócrates e, agora, de António Costa.
Ao cume do Partido Socialista chegara em 1992, ao derrotar Sampaio. A era cavaquista feneceria três anos a seguir com a posse de Guterres. Governo minoritário repetir-se-á nas legislativas de 1999. Dirigente da Sedes e o fundador da DECO, não gosta que lhe dêem a escolher a espada ou a parede mas sim de "utilizar a vitimização para fugir a confrontos", garante fonte próxima.
Em 1998, José Menéres Pimentel findava o segundo mandato de Provedor da Justiça e procurava que o PS e o PSD se entendessem quanto ao seu sucesso, sugere Laborinho Lúcio, com o apoio de Fernando Nogueira, o fugaz presidente social-democrata, e de José Magalhães, líder parlamentar socialista. Mas uma ala do PSD (que contestava Nogueira) e parte do PS rebela-se e os almejados 2/3 para a eleição não são alcançados. Laborinho decide tornar pública a sua decisão de só voltar a votos se o secretário-geral do PS se envolvesse na eleição. Guterres, que não queria guerras com os seus deputados, respondeu que não permitiria que o "pusessem entre a espada e a parede".
Nas autárquicas de dezembro de 2001, em que o PS saiu derrotado, ficou para a história como o único primeiro-ministro que deixa o lugar a pretexto de evitar o "pântano político".
O jornalista Adelino Cunha, autor de ‘António Guterres: Os Segredos do Poder’ , define-o como "político hábil". A habilidade – afirma um ex-colega universitário – vem do seu instinto apurado: "Ele está sempre no lado certo"


pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!