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A ajuda que não está entre nós

São pessoas comuns que acreditam ter poderes especiais. Através dos mortos - dizem - aliviam os males dos vivos
30 de Outubro de 2011 às 22:00
Ana, 50 anos, médium, Usa artefactos. Não é a regra nos espíritas
Ana, 50 anos, médium, Usa artefactos. Não é a regra nos espíritas FOTO: João Miguel Rodrigues

São médiuns, videntes e terapeutas. Oferecem ajuda espiritual à borla em sites e páginas de classificados de grátis. Independentemente dos dotes, têm todos costela de psicólogos. Trabalham sozinhos, não cobram pelas consultas, mas não se importam de receber ofertas. Monetárias ou não, é escolha que fica a cargo da consciência de cada um.

Do lado de lá da linha telefónica atende uma voz feminina, a exalar simpatia e disponibilidade. Prefere não revelar o nome verdadeiro, porque o marido, o filho e os colegas de profissão desconhecem aquilo que faz nas horas vagas. Só a filha comunga do segredo da mãe. Todavia, o nome fictício que será usado nesta peça não pode ser um qualquer. É-lhe sugerido ‘Maria’, pois há muitas na terra. Aceita, até porque ‘Maria’ não foge à verdade de ser mesmo o seu primeiro nome. Mas depois não pode ser "uma coisa qualquer". Tem de ser algo imbuído da intenção que lhe move os dias. ‘Maria do Amparo’, ‘das Dores’, ‘da Felicidade’?, pergunta-se. "Amparo", responde. Esse sim faz jus às suas interferências nos mais íntimos recantos da vida alheia. Das ‘Dores’ é que "não", porque de "energias negativas" não quer que reze a sua história . Maria do Amparo, seja , então. Casada, mãe de dois filhos, 47 anos de idade, residente no distrito de Aveiro, telefonista de segunda a sexta e médium nas horas vagas.

Maria do Amparo nunca soube de onde lhe veio tal vocação. Desde menina que pressente coisas. Como o sexo dos bebés antes deles nascerem, as doenças alheias e toda uma panóplia de acontecimentos que lhe assomam em pensamento muito antes de serem reais na vida dos seus protagonistas. Quando conheceu o marido, soube logo que ia casar com ele. "E não foi porque o achasse muito bonito, porque até nem era...", explica. Teve a certeza da morte da mãe dias antes de acontecer. Depois procurou ajuda num centro espírita do Norte do País, onde fez um curso de mediunidade e aprendeu que é errado cobrar pelo seu dom. "Nunca aceito nada em troca, muito menos dinheiro. A não ser que seja algo simbólico, feito pela própria pessoa, por exemplo".

Agora ‘trabalha’ sozinha, sobretudo por telefone, e não arrisca atender qualquer um. "Só pessoas que venham através de outras que ajudei anteriormente". Foi assim que, aliás, tudo começou. A amiga a quem confiou o seu segredo levou outra amiga e assim sucessivamente. "Nunca pus um anúncio, porque isso só faria sentido se fizesse disto um negócio. Acredito que os meus guias é que trazem as pessoas até mim", admite.

Também faz de psicóloga. "Sou uma boa ouvinte, uma humanista. Gosto do ser humano e interesso-me por ele em todas as suas revelações e contradições", garante.

Muitas das pessoas que a procuram têm males do corpo, da alma ou gente querida presa à cama de um hospital. E em Maria do Amparo procuram as notícias que os boletins clínicos nem sempre podem antecipar. Depois, a situação pode ser reversível ou não. E aí entra ela. "Peço ajuda aos meus guias, às entidades da luz para saberem o estado daquela pessoa e daí para a frente tomarem conta dela", explica Amparo, que não está só nesse caminho.

Ana (nome fictício), 50 anos, funcionária pública (administrativa) e mãe de duas filhas, publicou um anúncio num site onde diz não cobrar pelas suas consultas. Também com ela as visões começaram na adolescência e aos 14 anos foi encaminhada pela própria mãe para um centro espírita, onde aprendeu a controlar os momentos em que um espírito incorporava e comunicava através do seu corpo, deixando-a num estado de semiconsciência.

Aos 20 anos quis fechar a porta a esse mundo, ignorar a sua mediunidade, mas a negação fez a vida andar para trás. "Foi um caos: problemas, divórcios, problemas económicos. Coisas mirabolantes que humanamente era impossível que acontecessem a uma só pessoa. Percebi que tinha de voltar à actividade. Era a minha missão e só assim as coisas podiam fluir na minha própria vida", relembra.

Depois, tudo voltou a entrar nos eixos. Não voltou a integrar a comunidade espírita por achar que já estava "num nível mais além". Fez várias formações, inclusivamente em Cuba. E também usa velas, defumadores (para fazer limpezas em casas) e cartas de tarô, fruto das correntes que foi estudando. Atende pelo telefone, pela internet gente de todo o lado do Mundo, mas sobretudo em casa. E se lhe derem qualquer recompensa no final, aceita.

'ENTRE VIDAS'

Aos espíritos, ensina que "têm de seguir o caminho, seguir os seus outros irmãos de luz", pois muitos ficam presos a este mundo. "Como na série ‘Entre Vidas’", compara a própria. Mas há alguns que são "mais teimosos". E tal como acontece com a personagem da vidente ‘Melinda Gordon’ na referida série, nem toda a gente sabe desta sua vocação: "Só respondo se me perguntarem. Tenho amigos extremamente cépticos, aos quais explico que tudo está interligado... nem sempre consigo que entendam".

SER ESPÍRITA

Do outro lado da barricada existem ainda as associações espíritas. Demarcam-se veemente dos primeiros em várias frentes e não gostam que os "confundam". As razões são óbvias. Primeiro, trabalham em grupo dentro de uma comunidade que, como qualquer outra, desenvolve várias actividades sociais (cursos, palestras, aulas para crianças, ajuda aos mais desfavorecidos). Depois, seguem uma doutrina consagrada e muito antiga. Não misturam outras correntes. Não colocam anúncios, não prometem cura e seguem à risca a máxima "de graça o recebeste, de graça o darás". Casos como os de Amparo ou Ana são, aliás, considerados pelos espíritas como avessos aos seus princípios e até revelam "um certo desconhecimento da doutrina, apesar de afirmarem que passaram por centros espíritas", garante José Lucas, 49 anos, casado, dois filhos e militar da Força Aérea no activo e espírita.

Aliás, falar de espiritismo não é o mesmo que falar de mediunidade. O primeiro, defendem os espíritas, é "ciência, filosofia e moral", cujos ensinamentos foram compilados por Allan Kardec em meados do século XIX. Enquanto ciência, estuda a origem e a natureza do espírito, bem como a sua relação entre o mundo corpóreo, e traça um roteiro de consequências morais. Preconiza o bem, em comunhão com os outros e com a natureza. O espírita é simplesmente o adepto desse sistema de ideias.

Acontece, porém, que integra médiuns nas suas comunidades, e usa o seu "sexto sentido" – palavra que os espíritas preferem a ‘dom’ – como meio de comunicação com os que já partiram. Tem cada vez mais seguidores e adeptos em Portugal e até já há médicos que remetem para os centros espíritas os seus casos mais complicados.

Num centro espírita não há rituais, símbolos ou objectos esotéricos. Mas há ajuda para os males da alma. Gratuita. O que é ainda mais importante em tempos de crise e mudança.

"O espírita é uma pessoa normal, com a sua família, trabalho, obrigações sociais, e que nas horas vagas colabora gratuitamente com associações espíritas, de modo filantrópico, tendo como único salário a alegria de poder ser útil a alguém", afirma Ulisses Lopes, presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo em Portugal (ADEP). E defende que todos os seres humanos, espíritas ou não, têm o tal sexto sentido, mais desenvolvido nuns do que noutros.

"Ser médium é uma característica de todo o ser humano, de modo que encontramos médiuns em qualquer religião tradicional ou filosofia de vida. Há médiuns ateus", acrescenta o responsável.

O médium sente coisas diferentes dos demais. "Sensações corporais de bem-estar ou mal-estar inexplicáveis, sintomas de doenças que após avaliadas por médicos não existem, ouve vozes ou vê seres que mais ninguém vê. Há toda uma panóplia de percepções e sensações corporais que podem ser indicadores de mediunidade", explica José Lucas.

No seu caso, a característica manifestou-se por volta dos 20 anos. Sem que soubesse o que era, via caras, inopinadamente, "umas simpáticas e outras tristes". Ouvia vozes como se ecoassem dentro do crânio, "bem definidas e de pessoas que não conhecia".

"Quando concentrado, conseguia escrever coisas sem saber o que ia sair a seguir, saindo muitas vezes estilos e palavras que desconhecia. No campo da intuição e da inspiração, tinha ideias que brotavam repentinamente, que tinha de escrever, e que muitas vezes eram desconhecidas de mim e até contrárias à minha maneira de pensar. Paralelamente, também tinha sensações corporais diversas, bem como sentir que estava junto de alguém, olhar e não estar ninguém. Tudo isto é muito comum a qualquer pessoa em que esteja a desabrochar esta característica", justifica. Mas, nessa altura, José não o sabia...

Sentia-se estranho, confuso e, obviamente, não sabia como lidar com tão singular faculdade, pois "as religiões tradicionais não a conhecem nem sabem lidar com ela, logo não ensinam as pessoas a viverem assim". Acredita que se não tivesse buscado explicação no espiritismo teria ficado "louco".

Mas não ficou e, hoje, coloca a sua mediunidade ao serviço do Centro de Cultura Espírita das Caldas da Rainha.

AJUDA EM COMUNIDADE

No centro de Cultura Espírita das Caldas da Rainha, a comunidade reúne-se todas as sextas e sábados. O ambiente é familiar. Todos se conhecem. Todos sabem o que levou uns e outros até ali. Regra geral, procura ali ajuda quem está a lidar sozinho com manifestações de entidades espirituais ou então quem perdeu alguém querido e precisa de um sinal da vida para além da morte para se reconciliar com o destino. A ajuda tem custo zero.

Amélia Valente dos Reis, 65 anos, professora do ensino básico, aposentada, perdeu um filho e, nesse momento fatídico, perdeu também o norte da vida.

"A determinada altura o espiritismo veio ter comigo mas foi como se o conhecesse há muito tempo, porque preencheu algo que, até ali, em mim andava à deriva. Abracei-o para sempre. Era o amparo de que precisava, quando tudo parecia desabar no universo", confessa. Entendeu, por exemplo, que não era uma esquecida de Deus quando o luto lhe bateu à porta. "Percebi que tudo tem uma explicação neste nosso mundo e que outros mundos mais felizes nos esperam. À medida que o espiritismo impregnou a minha vida fui sendo capaz de o transmitir aos outros, sem promessas nem fantasias mas com a segurança que o Evangelho de Jesus dá aos simples", explica-se.

Na comunidade da qual agora faz parte encontrou "gente diferente, de ideias arejadas, sem rituais nem fantasias", para os quais, além do mais, nunca teve muita "paciência".

Aliás, aqueles que usam a mediunidade para viver, que cobram dinheiro pela ajuda, que exploram ou enganam, "estão a traçar doloroso destino de sofrimento e loucura no pós-morte, quando não acontece ainda nesta vida, pois a lei de causa e efeito diz-nos que cada um receberá de acordo com o que semear", avisa José Lucas sobre os "charlatães" que pululam em anúncios na internet, jornais ou papelinhos entregues em mão na rua.

À PROCURA DE RESPOSTAS

Compreender é o motivo que leva mais gente ao espiritismo. Cláudia Antunes, 33 anos, naturologista e acupunctora, tinha 16 anos quando começou a ver vultos e a incorporar espíritos que falavam através das suas cordas vocais. Ganhou medo de sair à rua, por não saber controlar o fenómeno. Evitava os amigos. Andou "anos nos médicos, sobretudo na psiquiatria". Quando descobriu o espiritismo, disseram-lhe que tudo isso "era normal". E normalmente prosseguiu a sua vida. Agora faz o mesmo por outros. "Algumas entidades têm de ser doutrinadas, porque a maioria nem sequer sabe que já morreu. É preciso explicar-lhes os porquês e as contra-indicações de estarem a fazer mal a uma pessoa. Mas só incorporamos espíritos que se compatibilizem connosco, até porque eles conseguem sentir os nossos medos, as angústias, as raivas", explica a jovem médium, agora ao serviço do Centro Cultural Espírita das Caldas da Rainha.

A psicóloga Patrícia Palma reconhece o percurso. "Primeiro é preciso perceber e isolar todas as possíveis causas patológicas que possam estar por trás das sensações, pois há perturbações mentais que podem configurar sintomas deste género. Mas se não houver nada em termos médicos e se o paciente retomar a sua vida e conduta normais e reencontrar a satisfação através do espiritismo, tudo está bem. Sei de colegas que já apoiaram pacientes com a intenção de visitar centros espíritas".

Foi lá que António Luís, 39 anos, funcionário administrativo, buscou resposta para o que há muito o atormentava. Órfão de mãe à nascença, experimentou na adolescência todas as dúvidas. "Não concebia que tudo tivesse terminado ali conforme preconizam outras religiões. Perguntava-me onde estaria a minha mãe...", confessa. Começou a frequentar um curso de espiritismo. Meses mais tarde, teve a resposta que precisava, numa mensagem transmitida através de uma médium que correspondia aos seus "medos e ansiedades". Agora é um dos colaboradores mais activos do centro, coordenador de um curso on-line, do correio electrónico e do ‘passe espírita’.

Num local onde, ao contrário do que se pensa, não há cerimoniais, pés de galo, velas, imagens ou qualquer outro tipo de artefactos, o ‘passe espírita’ é apenas um momento de empatia: "Uma transmissão de energia, de carinho e conforto transmitido pela força do sentimento positivo que se dirige à pessoa que o está a receber e que apenas sente uma sensação de calor e bem-estar. Um acto de amor".

DIVALDO FRANCO NO VIII CONGRESSO NACIONAL DE ESPIRITISMO

Este fim-de-semana realiza-se no Fórum da Maia o VIII Congresso Nacional de Espiritismo, que terá como convidado de honra um dos mais célebres e respeitados médiuns do Mundo, o brasileiro Divaldo Pereira Franco.

Divaldo, actualmente com 84 anos, nasceu na mística cidade de São Salvador da Bahia, Brasil. Nascido no seio de uma numerosa família de 13 elementos, Divaldo tinha quatro anos quando, ao brincar na sala, viu uma senhora entrar em casa e chamou a mãe. A progenitora apressou-se a chegar mas ao entrar na divisão não viu ninguém. Ralhou com o petiz e foi-se embora. Então a tal ‘senhora’ virou-se para o menino e disse-lhe: "Vá chamar a Ana (mãe do vidente) e diga que é Maria Senhorinha, sua avó". O menino assim fez. A mãe ficou petrificada. Nunca na vida lhe falara do nome da avó, já falecida. No entanto, só muito mais tarde conheceu o espiritismo. "É preciso ver que estávamos nos anos 30 e essas questões eram muito mal vistas pela sociedade. Ainda por cima, éramos uma família muito católica e isso não era bem aceite. O padre mandava-me orar e então eu ficava horas rezando. Mas quanto mais orava, mais me concentrava, e consequentemente mais coisas eu via", relembra.

Foi professor primário durante 35 anos e fundou, nos anos 50, a Mansão do Caminho, uma instituição que já educou 35 mil crianças carenciadas.

A sua mais destacada capacidade mediúnica é, porém, a psicografia, ou seja, a capacidade de escrever mensagens recebidas do espírito e que já resultaram em 210 obras de temas filosóficos, espirituais e pacifistas. Todos os lucros das vendas reverteram para obras de caridade.

Em Portugal, no Fórum da Maia, irá fazer uma intervenção que pretende desmistificar os preconceitos e as reservas em relação aos espiritismo, utilizando inclusivamente resultados de ultra-nosografias que mostram as alterações cerebrais num médium no momento de transe.

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