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A Aliança Povo-PSP

Hoje, não se mata por um rego de água, mas há quem veja tudo vermelho ao perder o emprego
Victor Bandarra 5 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Victor Bandarra
Victor Bandarra

Era um homem calado, desconfiado e trabalhador – um transmontano cioso do que era seu e dos seus. Perto dos 70 anos, tinha mulher e filhos, um deles cabo da GNR. Observando-o a sachar a horta, numa colónia penal de Bragança, não se imaginava o crime, muito menos o castigo: 20 anos de cadeia por homicídio. "Está arrependido?" Frase fatal calou a pergunta do juiz: "Não! Matava-o de novo se preciso fosse!" Mas que ofensa horrenda lhe havia feito a vítima? Os dois andaram na escola, casaram na aldeia, davam--se como vizinhos de casa e de terras. Um dia, pegou num sacho e não parou até o vizinho cair morto. De arma ao ombro entregou-se à GNR. Matou! Porquê? Porque repetidas vezes as cabras do vizinho lhe invadiram a horta e lhe pisaram os legumes e o batatal. Andavam nisto há anos. Até que aconteceu.

Em Alcoentre, apontaram-me um outro homem – barbudo, cuspindo de lado. "Então, ó ‘Churrasco’?", brincaram os guardas. Cuspiu com mais força. Explicaram-me a alcunha. Vivia numa barraca, fazia biscates como ferro-velho. Um dia, descobriu que o vizinho lhe havia roubado o negócio e a mulher. Pegou numa corrente com cadeado e fechou a barraca com o vizinho, a mulher e o ferro-velho lá dentro. Regou o tugúrio com gasolina e lançou-lhe um fósforo. Morreram os dois... de churrasco. Arrependeu-se? Nunca!

Nos anos do PREC, Pinheiro de Azevedo reagiu a um protesto com a frase que se lhe colou à pele: "É só fumaça! O Povo é sereno!" Também Salazar e o seu regime tentaram convencer o Povo de que... o Povo é sereno e senhor de brandos costumes. Por precaução e precisão, o Povo foi-lhes dando razão. Alguns, orgulhosos, pegaram em poupanças e sacrifícios e lançaram os filhos na advocacia, medicina e engenharia. Outros, precavidos, direccionaram os jovens para a tropa. Muitos, discretos, empurraram os miúdos para o seminário, GNR e PSP.

À conversa com o meu amigo Zé dos Pneus, demos com a notícia: "1100 novos empregos na PSP e GNR". Direito, Medicina, Engenharia e até Forças Armadas já não enchem bolsos e quase não matam a fome. E o Governo já percebeu que o Povo não é assim tão sereno como se deixou pintar. Hoje, não se mata por um rego de água, mas há quem veja tudo vermelho ao perder o emprego. Logo, aposta--se nas forças de segurança.

Zé dos Pneus estava na tropa no 25 de Abril e colou cartazes da Aliança Povo-MFA. O filho mais novo anda em Direito. Manhoso, explicou-me: "Vou tirar o puto da faculdade, vai já para a Escola da Polícia." E sorriu: "O futuro vai ser a Aliança Povo-PSP." O problema é que o Povo nunca foi sereno e a PSP muito menos.

Victor Bandarra
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