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“A avioneta embateu numa árvore e caiu redonda”

Conduzi debaixo de fogo, vi arder uma Mercedes cheia de vinho e abri uma pista para que um bimotor nos levasse pão
Miguel Balança 16 de Setembro de 2018 às 11:00
FOTO: Direitos Reservados
Do Cais da Rocha, em Lisboa, embarquei rumo a Moçambique a 24 de outubro de 1964. Cheguei a Nacala Porto a 18 de novembro. O ‘Quanza’ – que navegava a uns míseros 14 nós (26 km/h) – fez escala em Luanda, Lourenço Marques e na Cidade da Beira. De Nacala seguimos de comboio para o Alto Molócuè, onde estivemos oito meses.

A 23 de junho de 1965 partimos para a zona de Mueda, onde chegámos incólumes quatro dias depois. Chegados às três da tarde, descansámos uma hora e seguimos de pronto para a Sociedade Agrícola Algodoeira, ou SAGAL – o acrónimo aguçará a memória de tantos quanto para mim foi referência. A 30 quilómetros de Mueda, em plena estrada para Mocimboa da Praia, a fábrica votada ao abandono pelos desertores involuntários da guerra serviu de base por três meses.

O batismo de fogo deu-se às portas daquele refúgio. Afortunadamente, ninguém ficou ferido – a ajuda inesperada de um avião de combate foi crucial, admito. A 10 de julho sofremos o segundo ataque. Uma emboscada, naquela mesma estrada, impor-nos-ia a primeira baixa.

Onde começou a guerra

Agosto de 1965. Um pelotão da minha companhia, em coluna com dois outros de uma companhia distinta, partiu em reconhecimento para norte. Estacionámos na Missão Católica do Embu - a guerra havia começado ali. Parqueámos as viaturas naquele local e partimos a pé, à procura de povoados inimigos que, uma vez lá chegados, se mostravam vazios. Já não estava lá ninguém. À partida, eu e o meu pelotão guiámos os destinos da coluna; na jornada de regresso, as posições inverteram–se, havíamos de seguir atrás. Soubemos depois que fomos vigiados o dia todo pelo inimigo. Já de volta, a dois quilómetros do local onde deixámos os veículos de combate, esperava-nos uma emboscada aterradora. O pelotão da frente sofreu três mortos e dez feridos, uma das maiores chacinas com que tive de conviver. Todos os pelotões estiveram debaixo de fogo.
Em setembro rumámos a Mocimboa do Rovuma, mais a norte, em zona igualmente perigosa. Sempre que nos deslocávamos a Mueda para reabastecer despontavam problemas – ataques, emboscadas com bazucas, granadas de mão e minas anticarro. Recordo a emboscada a toque de bazuca, que acabaria desgraçadamente por atingir uma Mercedes carregada de barris de vinho e combustível. Parecia teleguiada, ardeu completamente. Tivemos um morto e cinco feridos. Eu seguia como condutor do carro de escolta, o primeiro veículo atrás da infeliz Mercedes, e fui dos primeiros a chegar-lhe junto. O cenário era horrendo - do pior que por lá vivemos -, mas não tão diferente de outros que se seguiriam.

Ordem dada, quatro condutores da companhia seguiram para transportar um pelotão de paraquedistas que acabava de aterrar em Mueda, para reconhecimento a norte. Eu fui, claro. Sofremos dois ataques. A investida noturna, com granadas de mão, terminou sem mortos. Um outro avanço, à luz do dia, revelar-se-ia mais tenebroso. Um paraquedista que seguia na viatura que eu guiava morreu no local. Abrimos depois uma pista improvisada para que uma avioneta nos abastecesse de pão – aterrou bem e serviu-nos. Ao descolar, embateu numa árvore e caiu redonda. Faleceu o piloto. Foi difícil retirá- –lo daquele bimotor.

Quando deixámos a zona de guerra deslocámo-nos para Namialo, a 80 quilómetros de Nampula, onde passámos o resto da Comissão. A 8 de março de 1967, embarcámos em Nacala. Os 17 nós do ‘Niassa’ fizeram-nos voltar mais depressa do que a viagem de ida: chegámos a 3 de abril.


Relato de Manuel José Rosa

Comissão 1964 - 1967
Força Batalhão de Caçadores 729 C.C.S.
Info Aos 75 anos, é reformado da guarda florestal
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