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A boa energia começa no prato e reflete-se na vida

Veganos e crudívoros são cada vez mais. Opção alimentar anda de mãos dadas com estilos de vida amigos do ambiente
Vanessa Fidalgo 27 de Agosto de 2017 às 12:12

Somos aquilo que comemos e a forma como escolhemos viver. Em traços muitos gerais, é isto que defendem os que acreditam que as boas energias começam no prato e passam por um modo de vida mais amigo do planeta. E são cada vez mais, e de todas as idades, aqueles que resolveram abandonar a mesa tradicional, largar o carro ou os cosméticos, apoiar a causa animal ou cultivar uma horta em casa em nome de um Mundo melhor.

Darchite Kantelal, de 23 anos, nascido em Portugal e hindu, formou-
-se em Nutrição no King’s College, de Londres, e em Oxford completou o mestrado em Nutrição Desportiva. Claro que o apetite por comida saudável vem do berço. Na família, de origem indiana, sempre se praticou uma alimentação vegetariana. Mas quando chegou a Inglaterra foi reunindo maior conhecimento sobre a matéria, o que se somou à paixão pelos animais e à admiração pelo trabalho de Michael Greger (que inclusivamente o levou a integrar a equipa do Nutritionfacts.org, onde participa ativamente como nutricionista moderador da plataforma). Um dia resolveu acabar com todos os produtos de origem animal que ainda faziam parte da sua alimentação. Tornou-se vegano em dezembro de 2015.

"Não foi assim tão fácil como pode parecer, apesar de antes já ser vegetariano, porque eu ingeria mais de um litro de leite por dia e comia ovos diariamente", avisa, perante a proximidade das duas opções, enquanto vai saboreando um caril de legumes no refeitório da Comunidade Hindu, em Telheiras.

"As carnes processadas, como as salsichas, fiambre, bacon, presunto e outras foram recentemente classificadas como cancerígenas (Grupo 1) pelo International Agency for Research on Cancer. A mais recente revisão científica publicada sobre os efeitos nocivos das carnes vermelhas determinou que por cada 50 gramas de carne vermelha processada consumida por dia, o risco de desenvolvermos certas doenças aumentam, como em 13 por cento para o AVC, 18 por cento para o cancro colorretal, 19 por cento para o cancro do pâncreas, 24 por cento para a morte relacionada com doenças cardiovasculares, 32 por cento para diabetes e 22 por cento para a morte prematura", enumera Kantelal.

Mas não é só: "As carnes vermelhas, como a de vaca, porco, vitela, carneiro, cavalo ou cabra também estão classificadas como provavelmente cancerígenas. Por cada 100 gramas de carne vermelha (não processada) consumida por dia, o risco de desenvolvermos certas doenças aumentam em 11 por cento para o AVC e para o cancro da mama, 15 por cento para mortes relacionadas com doenças cardiovasculares, 17 por cento para cancro colorretal e 19 por cento para o cancro da próstata avançado. E as brancas também não são inócuas. Seja qual for o tipo de carne, está cheio de contaminantes, compostos N-nitrosos, ferro heme, amino-heterocíclicos, gordura saturada, colesterol, hormonas e uma fonte natural de gorduras trans. Cozinhar a carne e peixe também cria compostos que são nocivos à saúde humana", explica, com tanta assertividade que deixaria qualquer um a pensar duas vezes em relação ao mais suculento hambúrguer.

Segundo Darchite Kantelal, pensa-se ainda que "a carnitina nas carnes vermelhas e a colina nos ovos, carnes (vermelhas e brancas), laticínios e peixe produzem um composto altamente tóxico —N-óxido de trimetilamina — que pode levar à acumulação de colesterol nas nossas artérias, aumentando as hipóteses de arteriosclerose. Todas as carnes elevam - e muito - o risco de AVC e de enfarte", independente de qualquer outro fator.

O peixe também não está totalmente isento de perigos ou de razões ecológicas. "Existe um limite nas recomendações nutricionais para o consumo de peixe (não mais que uma ou duas porções por semana). Isto porque o peixe é a principal fonte de microplásticos, metais pesados, contaminantes e toxinas na nossa alimentação", diz Darchite. Mas também lembra que é "uma irresponsabilidade enorme recomendar o consumo de pescado, porque é simplesmente insustentável e está a destruir os nossos oceanos".

Tirando isto, Darchite é como qualquer outro rapaz da sua idade: sai à noite, viaja e é apaixonado pelo desporto. Mas anda num carro elétrico e transporta a comida e bebida em marmitas de alumínio por causa da emissão de gases poluentes e para evitar o plástico. "Isto se queremos deixar um planeta habitável para as gerações que hão de vir", frisa. Trabalha como nutricionista desportivo no Estoril Praia e pôs alguns dos seus conhecimentos no livro ‘Bem Comer, Jogar Melhor – A Nutrição no Futebol’, editado no mês passado. Quando sai com os amigos, coisa típica de um jovem de 23 anos, não encontra problemas: "Até já há fast-food vegetariano". Afinal até é possível alimentar uma mente e um corpo sãos em qualquer lugar.

Pelos animais

Há 20 anos, Vera Martins não conhecia nenhum vegetariano, ninguém na família falava em ecologia e muito menos se dava com ativistas. Mas em 1998 um dossiê "extremamente completo" sobre violações dos direitos dos animais saiu na imprensa portuguesa e incomodou-a para sempre. De tal maneira que aos poucos foi tirando os animais do seu prato.

"A princípio não foi nada fácil porque não tinha informação quase nenhuma. Agora basta ir à internet buscar uma receita ou encomendar os produtos. Os hipermercados têm áreas de comida natural cada vez maiores, tal como os mercados de bairro. Onde é que havia leite de soja na mercearia há 20 anos como agora vejo ?", pergunta.

Pois claro que não havia. Mas isso não lhe tirou o fôlego: "Com o tempo fui conhecendo pessoas ligadas ao vegetarianismo e às associações de animais, e fui aprendendo e partilhando. Muita gente acha que estas coisas são ‘manias’ da adolescência – em abono da verdade, muita gente abandona os ideais anos depois – mas eu sou a prova de que a procura de uma maior harmonia e equilíbrio com o planeta no prato e na vida não são uma coisa de modas. Comigo já dura há 20 anos."

Há mais de dez anos abriu o seu negócio, igualmente amigo do ambiente. Filha de uma costureira, Vera cresceu entre moldes, agulhas e trapilho. Teve formação em estilismo e chegou a trabalhar na área durante alguns anos em Londres e em Portugal. Quando o desemprego bateu à porta tornou-se ajudante no restaurante vegetariano no Porto que costumava frequentar, mas ao mesmo tempo começou a costurar. Inicialmente era uma solução de recurso para um período de desemprego, mas as coisas correram tão bem que depressa se tornou na sua atividade profissional: a costura com reaproveitamento de pedaços de tecido de artigos reutilizáveis. Sacos para as compras, malas e pensos higiénicos não descartáveis, que têm sido o grande motor da sua marca.

"Os primeiros que fiz foram para uma pessoa conhecida que tinha alergia a pensos descartáveis, mas depois foram-me pedindo mais. Atualmente estou tão cheia de encomendas que nem estou a aceitar pedidos este mês", diz Vera, que acredita que são cada vez mais as razões ecológicas que levam a clientela a bater-lhe à porta.

"Não pode ser toda a gente alérgica!", brinca. E confessa-se espantada com a mudança rápida de mentalidades, coisa a que nunca pensou assistir em vida. "Às vezes ainda me espanto e comovo com o facto de as pessoas quererem investir em sacos reutilizáveis, por exemplo, quando têm outros mais em conta e mais rapidamente no supermercado, por quererem mudar para melhor... "

Vera tem carta de condução, mas não sente a falta de carro na garagem. Aos 40 anos, anda de bicicleta para todo o lado. "Mesmo quando é preciso ir ao centro do Porto, vou sempre de bicicleta. São uns 13 quilómetros", diz com naturalidade. Para se abastecer não tem problemas: "Vou a frutarias, e sobretudo aos mercados ao ar livre. Levo os meus sacos de rede e a minha bicicleta". Sempre que pode continua a ajudar os animais. A associação a que pertencia, ‘Porto pelos Animais’, está agora um pouco parada, pois "integrava diversas pessoas do PAN e agora têm menos tempo", mas ao seu jeito vai batalhando pelos bichos. Ainda há pouco tempo doou peças para serem leiloadas em prol de um santuário de recolha de roedores nos EUA. E os valores atingiram as largas dezenas de euros, para "orgulho e sentimento de missão cumprida" da autora.

Revolução depois dos 50

No meio do campo, na Aroeira, Maria de Jesus Teotónio de Almeida, a quem "toda a gente trata por Maria ‘Jú’", tem agora o ‘modus vivendi’ que começou a construir após a reforma, quando deixou de sentir "a pressão do tempo".

A ex-professora de 63 anos, que já tinha deixado as carnes vermelhas, aboliu os fritos e o açúcar há cinco anos. Seguiu-se o leite. "Percebi que o meu corpo não gostava de leite e fui deixando aos poucos todos os derivados também. A última coisa que deixei de consumir foi a manteiga", recorda. Por fim, começou a pensar em enveredar por uma alimentação vegana e, aos poucos, eliminou carnes brancas, peixe e, por fim, os ovos. Por essa altura conheceu uma corrente especial, o crudivorismo, e deixou de cozinhar pois o calor, garante, é o pior inimigo dos alimentos. "Mata tudo, todos os nutrientes da alimentação".

Alimenta-se sobretudo à base de sumo verde (de legumes) e batidos que faz diariamente com produtos biológicos. Relaciona-se com outros crudívoros sobretudo através da internet, em grupos que trocam receitas e até organizam piqueniques. Já teve foi dissabores quando quis almoçar com umas amigas numa cervejaria de Lisboa. "A única opção que havia para mim era salada. O empregado estranhou e levou aquilo tão a mal que me perguntou o que é que eu estava ali a fazer se não era para comer". Mas é raro ter problemas, nem mesmo quando viaja. "No Norte da Europa é mais complicado, mas no Oriente como lindamente porque a alimentação deles também é à base de vegetais", conta.

No quintal de casa, Maria ‘Jú’ tem uma horta biológica na qual faz a compostagem, pratica yoga e pilates, fabrica a sua própria pasta de dentes e o gel de banho, não pinta o cabelo e, de vez em quando, faz limpezas ao fígado. A seu lado, o marido, Paulo, que não é vegetariano e não dispensa umas boas favas com entrecosto, revela: "As análises dela estão tão boas como as minhas." Mas a crudívora sente alterações: "Sinto-me mais saudável, purificada, com melhor humor e energias..."

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