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A chave dos excêntricos da Madeira

A maioria não se conhecia. O Euromilhões uniu-os e deu-lhes 2,6 milhões de euros para as contas bancárias
5 de Dezembro de 2010 às 00:00
João e Luz Aveiro e os filhos. Cabe-lhes uma das fatias dos 52 milhões de euros
João e Luz Aveiro e os filhos. Cabe-lhes uma das fatias dos 52 milhões de euros FOTO: Bruno Colaço

A Madeira ainda chora nas encostas, na água que cai, agora mansa, pelos ribeiros e recordações da enxurrada de Fevereiro. Passaram nove meses - uma autêntica gestação em que se fez e refez a esperança vezes sem conta - e na Madeira que ainda chora nasceu um motivo para rir. "Sabe aquilo que a gente sentiu naqueles dias da tragédia das águas? Agora é o inverso. Antes a tristeza, agora a felicidade".

O inverso chama-se Euromilhões e chegou de repente, tal como as cheias, na noite de 26 de Novembro. Não chegou para todos mas chegou para vinte madeirenses que apostaram numa sociedade constituída informalmente há três anos, na tabacaria do mercado da Penteada, onde a sorte chegou encavalitada entre as frutas e legumes habituados ao fiado das gentes, mas tornou--se assunto da ilha inteira.

FINALMENTE MILIONÁRIOS

Em São Roque, a freguesia onde os números "milagrosos" foram registados, gasta-se em cada banca a expressão ‘Foi Deus' para explicar o sucedido ao mesmo tempo que se olha de viés para cada alma que entra na papelaria seja para comprar o que for. Nos rostos dos que espreitam lê-se a ansiedade por desvendar os sortudos que passam encobertos. "Aquele vai bem disposto" ou "Está com má cara, de certeza não ganhou" são expressões sussurradas por uns e outros nas esquinas do mercado, desde que se soube que o 1º e 2º prémios do sorteio internacional - que renderam 52 milhões de euros - tinham ali caído em jeito de promessa.

João e Luz Aveiro não se sujeitaram aos olhares alheios do mercado desde que se souberam milionários e ainda escolhem com cuidado as palavras para explicar os 2,6 milhões de euros que não tarda - e se tudo correr como previsto - terão a engrossar a conta bancária conjunta. "Realmente foi Deus. Depois de vermos aquela água toda, aquela desgraça que nos consumiu, parece mesmo que se está a fazer justiça. Não perdemos nada nas cheias mas perdemos muita fé. Mas é n'Ele que temos de confiar, é nele que mantemos as esperanças da nossa vida e ele agora deu-nos uma prova de que vale a pena acreditar". E de que, pelo menos, vale a pena jogar.

"Na sexta-feira nem nos lembrámos de ver o sorteio por isso no sábado às oito da manhã, quando um cliente nosso entra no bar e me diz que saiu o Euromilhões para a Madeira, eu nem raciocinei que fosse para nós, estava longe de imaginar. Mesmo quando o rapaz fala no mercado da Penteada eu continuo sem associar que pertencíamos ao lote. A ficha só me caiu quando, durante a conversa, o cliente me diz que foi para uma sociedade de 20 pessoas", recorda uma ainda muito emocionada Luz sobre o fim-de-semana que lhe alterou os sonhos para o futuro.

"Sempre fomos gente de trabalho, casámos com 16 anos, fomos pais cedo, uma vida dura em que nunca nos encostámos. Trabalhamos 15, 16, 17 horas por dia e por isso não vamos manter o bar. Vamos descansar para gozar aquilo que ganhámos, merecemos depois de tanto termos batalhado". A viagem ao Brasil será o primeiro de muitos planos a cumprir, depois de "anos e anos a alternarmos as férias entre o Algarve e Fátima, que era para o que dava e mesmo assim já se gastava muito".

Da lista de vontades a satisfazer também fazem parte "duas casas, uma para nós, outra para o nosso filho que já é pai. Queremos manter aquela onde agora vivemos, e que começou por ser um espacinho apenas com uma casa de banho e uma cozinha mas que fizemos crescer". A habitação dos sonhos deste casal de avós tão jovem, ela de 39 e ele de 40 anos, será "algures no caminho entre o aeroporto e o Funchal, que é o que tem a melhor vista".

A manhã em que soube que parte do prémio lhes pertencia foi a segunda vez que quebrou uma ‘regra' do casal: não acordar o marido antes das nove da manhã. "A primeira vez que liguei para o acordar foi quando vi os carros a serem levados pela enxurrada e entrei em pânico, a segunda foi para lhe dar esta boa notícia. Agora nem ele se importou de acordar cedo". E a filha mais nova de ambos, de 12 anos, surpreendeu Luz no dia em que se souberam euromilionários: "Telefonei-lhe a dizer para ela arrumar a casa porque à tarde íamos dar a notícia à avó e ela diz-me assim: ‘Oh mãe, então somos ricos e eu vou arrumar a casa?'.

SOCIEDADE PREMIADA

João Aveiro juntou-se à sociedade agora premiada há cerca de dois anos, apesar desta existir há três. "A maioria das pessoas que ganhou não faz parte da sociedade desde sempre. Aliás, a maioria é bastante recente, há gente que só pertencia há um mês. Houve muitas pessoas que se aguentaram a pagar os 18 euros na altura de maior fartura mas foram largando à medida que a crise entrava na Madeira", explica a proprietária da tabacaria que por estes dias tem sido vista pelas pessoas como uma "casa dos milagres".

Joana Silva, de 43 anos, resolveu fazer sociedades para os jogos de apostas quando percebeu "que se não as fizesse os clientes iam procurar noutros lados". Daí a num dia à noite, em casa, escolher os números que foram agora premiados, não demorou muito. "Olhe, foi ao acaso, não são datas especiais para mim nem nenhuma crença. Alguém tinha de o fazer".

Joana começou por entrar na lista mas desistiu recentemente - é o que garante - "porque o que ganhava não compensava o investimento e a tabacaria dá para pouco mais do que pagar as contas" de água, gás e luz. "Muitas pessoas que agora estão contentes porque ganharam diziam-me: ‘guarde-me o lugar na sociedade que eu depois pago-lhe'. Tenho uma senhora que há cinco semanas não vinha e eu sabia que ela só ia aparecer quando recebesse. Sabe que fui eu que lhe dei a notícia de que ela tinha ganho? Não fiquei com ele para mim, embora pudesse". Se bem que é ela que o tem de levantar, em Lisboa, uma viagem que terminará a sua "missão divina" - como lhe chama - a de "ver cada um com o que é seu".

DOIS CARROS NO NATAL

Francisco (nome fictício), dono de uma oficina plantada na encosta, já sonha com esse dia. "Claro que agora estou ansioso por ver o dinheiro, enquanto ele não estiver na minha conta parece que não existe na realidade". Apesar disso, o homem de 60 anos - que escolheu resguardar o rosto e o nome - confessa ter andado "nos stands", a escolher dois carros para os filhos, que vai oferecer no Natal. Enquanto Francisco espreitava os preços dos topo de gama - os 2,6 milhões vão-lhe permitir alguns excessos - o casal João e Luz corria os bancos do Funchal à caça dos melhores juros. O dono da oficina também o fará a seu tempo.

"Jogo há vinte anos e nunca joguei para ter a minha vida salva. Felizmente não preciso disto para sobreviver mas claro que me vai dar bastante jeito. Olhe, é desta que vou ao Brasil com o meu irmão". É também desta que, segundo Joana Silva, muitos vão consertar as suas vidas - embora a dona da tabacaria onde a sorte grande caiu não consiga precisar quantos dos que ganharam perderam a casa nas cheias de Fevereiro. "Pelo menos um senhor foi, agora o resto são pessoas remediadas porque a classe média madeirense começou a passar muitas dificuldades".

Daquilo que lhe confidenciaram pelo telefone - "a maioria telefonou" depois de saber os números - "querem ajudar a família, fazer melhoramentos nas casinhas, ficar com as costas livres da Banca. Não acredito na justiça dos homens mas acredito na justiça divina e nesta mão de Deus que deu à Madeira esta alegria depois daquele horror que passámos".

SUSPEITA DOS VIZINHOS

Susana foi uma das vítimas desse horror em forma de água que alagou as esperanças dos madeirenses. Viu morrer o marido, levado pela enxurrada, e esteve quatro meses internada no hospital a recuperar de ferimentos graves. "Sabe, comigo foi ao contrário. Deixei de jogar no Euromilhões depois das cheias, quando fiquei de baixa. Perdi o meu marido e não era o Euromilhões que mo trazia de volta. Só o queria a ele, o dinheiro deixou de ter importância".

O facto de estar a "fazer uma cozinhinha, que era o último desejo" do marido levantou a suspeita de alguns vizinhos de que seria uma das contempladas com o prémio milionário. "Era o grande sonho dele e comecei a fazê-la quando regressei a casa, não tem a ver com dinheiro algum. Ninguém me deu nada". As marcas do dia negro permanecem: há um muro caído, falta de vegetação, lágrimas no rosto de uma mulher que nem a vista impressionante sobre a encosta com o mar ao fundo acalma. "Mas Deus queira que tenha saído a alguém que viveu a tragédia de frente", diz na despedida, usando uma das frases mais repetidas pelos madeirenses nos últimos dias.

Palavras iguais escolhe Rui Lopes, de 47 anos, a quem o desemprego acabou com o hábito de jogar 18 euros por semana na sociedade vitoriosa. "Espero que tenha saído a alguém que tenha ainda menos do que eu. Conheço um dos premiados e estou com esperança que me dê qualquer coisinha, porque é uma pessoa que não está mal na vida". A ele, resta a desilusão por não ter esticado as poupanças para conseguir jogar. "É muito dinheiro para quem não tem emprego. Fui mandado embora, eu e mais 27, era chefe de compras e desisti da sociedade. Agora olhe, resolvia-me a vida, mas uma pessoa não adivinha".

O amigo José Freitas, que tem um talho paredes-meias com a tabacaria, desistiu há menos tempo: "deixei de jogar há três semanas. Tinha duas sociedades e tive de optar por uma, estava a ficar puxado. Optei pela errada, pelos vistos, que é uma aqui do pessoal do mercado. Fiquei com essa porque só pago 2,05 euros por semana. Já me convenci de que sou pessoa para ter sorte ao amor e não ao jogo".

Já Agostinho Teixeira, de 65 anos, preferiu dedicar-se ao tabuleiro das damas quando desistiu da sociedade da tabacaria que agora venceu. "Ao menos isto não gasta dinheiro. Não sou rico, os 18 euros faziam-me falta na minha vida diária".

Enquanto isso, Glória e António - concorrentes de Agostinho na banca dos legumes e da fruta - discutem se haverá alguém no mercado que ganhou o prémio e não revela. "As pessoas hoje têm muito medo da ladroagem e nós, madeirenses, que perdemos tanta esperança com a tragédia, não podemos correr o risco de perder mais fé".

PARA LONGE DA ÁGUA

Porque passaram nove meses e a Madeira ainda chora. "Agora cada vez que chove fechamo-nos em casa com medo de coisa igual. No outro dia, a água começou a cair do céu e tomei dois calmantes para tentar dormir", lamenta Daniela Castro, que viu morrer o cunhado, vítima da grua que desabou no dia do temporal. "Se me saísse o Euromilhões ia embora da Madeira sem hesitar", confessa, em sintonia com outra vítima da enxurrada, Helena Lurdes. "Com esse dinheiro fugia desta casa, para longe do zoado da ribeira". Para longe das recordações que nem as boas notícias apagam.

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