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A CONQUISTA DA LIBERDADE

O Movimento de Libertação da Mulher marcou o pós-25 de Abril, num período em que todas as manifestações partidárias aproveitaram em pleno a palavra 'liberdade'. Nem mesmo Otelo Saraiva de Carvalho e o COPCON deixaram de ajudar as mulheres.
27 de Abril de 2003 às 00:00
No pós-25 de Abril, os grupos feministas multiplicam-se: a UMAR (à época, sigla para União de Mulheres Antifascistas e Revolucionárias), surgido em 1976, e o MLM (Movimento de Libertação das Mulheres), criado em 1974, e já extinto, são dos mais activos grupos de feministas dos anos quentes pós-revolucionários.
Um dos memoráveis exemplos da força das feministas é a manifestação que ficou (erradamente) conhecida como da queima dos soutiens. Aliás, nem os ditos soutiens constavam entre os vários ícones eleitos para mostrar a rebelião contra a opressão feminina. "É falso que quiséssemos queimar soutiens. Nos anos 70, as mulheres não os usavam. Muito menos as feministas!", recorda Teresa Horta, uma das organizadoras do evento.
Mil novecentos e setenta e cinco era o Ano Internacional da Mulher, proclamado pela ONU, e o MLM decidiu organizar uma acção simbólica, no dia 13 de Janeiro, no Parque Eduardo VII, onde seriam queimados alguns símbolos, como o Código Civil, objectos de lida doméstica, brinquedos sexistas, livros de autores machistas ou revistas pornográficas. Mas, um numeroso e agitado grupo de homens acabou por travar os objectivos tal foi a confusão que se gerou. Maria Teresa Horta, uma das mentoras do MLM, relembra os momentos altos: "Os homens eram às centenas! Batiam-nos, apalpavam-
-nos, corriam atrás de nós… Foi a única manifestação que nunca chegou a acontecer". Mas nem mesmo estes tempos quentes demoveram a feminista: "Depois do 25 de Abril, todos os dias havia manifestações. Cheguei a ir atrás de algumas que nem sabia o que eram", conta.
Maria Teresa Horta é feminista acérrima. Sempre o foi e, desde cedo, defendeu os direitos das mulheres com voz activa e destemida. Aliás, como facilmente se evidencia, em 1972, aquando do lançamento de "Novas Cartas Portuguesas" (conhecido como o livro das três Marias – Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta). Uma 'ousadia' que levou as autoras a tribunal, por atentado à moral e ao pudor, mas que acabou em absolvição e num grito de vitória que insuflou o movimento feminista.
Mais tarde, a Revolução dos Cravos de 1974 viria também a tornar-se na revolução das mulheres. Os "capitães de Abril" ajudaram à democratização da sociedade e as mulheres não perderam a oportunidade para se rebelar, unir e gritar mais alto os seus ideais.
Igualdade política foi uma das primeiras vitórias. "Tivemos vários encontros com o [Salgado] Zenha [à época, ministro da Justiça], por causa da mudança do Código Civil, do direito de família, da igualdade das mulheres na Constituição portuguesa", recorda Teresa Horta.
Seguem-se outras batalhas para o MLM: planeamento familiar, educação sexual, gratuitidade dos métodos contraceptivos e o direito ao aborto. "Viemos para a rua por causa do aborto e isso gerou muito falatório", conta ainda a feminista. Na época, Maria Teresa Horta, Célia Métrasse e Helena Medeiros publicaram um livro "histórico" – "Aborto, Direito ao Nosso Corpo" – o único escrito sobre o tema durante vários anos.
Também Otelo Saraiva de Carvalho, na altura no COPCON (a ‘polícia’ do pós--25 de Abril), foi um forte impulso para as feministas. "O Otelo agia sempre que sabia que havia homens que espancavam mulheres. Prendia-os a todos. O COPCON fez muitas coisas bonitas pelas mulheres", termina, em tom reconhecido, Teresa Horta.
Anos mais tarde, as lutas continuam acesas. Desmembrou-se o MLM mas as feministas não desapareceram e, de uma forma mais ou menos colectiva, continuam a dar cartas pelos direitos da Mulher. Mesmo que nem sempre os resultados tenham sido os mais encorajadores.
O direito ao aborto livre foi negado em referendo, a educação sexual dos adolescentes ainda é pouco realista na maioria das escolas, o planeamento familiar avança lentamente junto da comunidade juvenil, a discriminação sexual no trabalho permanece, mais ou menos velada, e os casos de violência doméstica ainda são histórias do dia-a-dia de muitas mulheres. Motivos mais do que suficientes para que as feministas não desarmem e se predisponham a novas batalhas.…
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