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A DIFERENÇA ENTRE O BEM E O MAL

Bruno, 15 anos, pegou numa arma e disparou sem pensar no que podia acontecer. Atingiu Felisbela, uma menina de seis anos. Será que os jovens estão mais violentos? O que os leva a terem estas atitudes?
27 de Abril de 2003 às 00:00
A meninice dos apenas 15 anos que Bruno leva de vida parece ter desaparecido num instante, quando depois de furtar duas armas de um carro pertença de um guarda-
-nocturno seu vizinho, decidiu experimentar a carabina de calibre .22. O resultado revelou-se dramático. A 16 de Abril, Felisbela, uma criança de seis anos que brincava no recreio do Infantário do Pendão, em Queluz, foi atingida na cabeça, estando hoje fora de perigo. No entanto, ainda não se sabe ao certo quais as sequelas deixadas pelo acidente.
O caso, contudo, levanta desde logo o fantasma da violência infantil que, tendo em conta situações recorrentes, ensombra a sociedade actual. Patrícia Carter, psicóloga habituada a trabalhar com adolescentes, não culpa nem os jovens, nem os pais, mas uma cultura social a atravessar maus momentos. “Neste como noutros casos, o que se pode reter é a existência de uma sociedade cada vez mais demitida do seu papel adulto, manifestado desde logo pelo facto de muitos pais não terem uma ‘cultura de paternidade’. A determinada altura, cai-lhes um filho nos braços e não têm a mínima noção do que devem fazer”, explica, preferindo fazer valer que muitas das culpas atribuídas à televisão estão longe da verdade. “O que se passa a esse nível tem apenas a ver com a banalização da violência. O problema maior é a falta de enquadramento do que é visto, e não da existência das imagens”.

O exemplo de Bruno Nos últimos anos, Patrícia Carter tem encontrado vários casos ligados a um crescente de atitudes violentas por parte dos jovens – ligados a armas brancas –, embora não existam estudos exactos sobre a situação portuguesa. Ainda assim, revela que a Europa tem sofrido com isso, estando até ao momento longe de uns Estados Unidos, onde algumas verdadeiras chacinas acontecem “devido à existência de uma cultura das armas, ao facto da população crescer a ver os pais manusearem esses objectos”.
Quanto a Bruno, autor do disparo, a psicóloga adianta que ele terá tido noção do perigo que constituia mexer numa arma de fogo, até porque se tratava de uma carabina equipada com mira telescópica: “Aos 15 anos há já uma diferenciação entre o bem e o mal, assim como o conhecimento da existência de um perigo real, que leva a que a arma não seja encarada como um brinquedo”. Então, o que faz um jovem usar uma arma? Patrícia aponta para a falta de um contexto sério sobre o acto, aliado à ideia de que se está a realizar algo proibido. “Fora de um enquadramento, os jovens passam a sentir apetência por tudo o que não podem ter, como o álcool, a droga e as armas. São reflexos da tal falta de acompanhamento, da não criação de determinado tipo de barreiras”.
Apesar de poder acontecer em qualquer lado, com qualquer estrato económico, as situações de tensão aumentam nos bairros sociais, pois o grau cultural é menor, há maior acessibilidade a armas e, segundo a psicóloga, um perigo maior de algumas situações descambarem para a tragédia. Bruno é exemplo disso.
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