A dificuldade da comunicação

O nosso lugar no Mundo enquanto questão central de uma ficção que mais do que científica é filosófica.
11.03.18
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A dificuldade da comunicação

Por Adolfo Luxúria Canibal

‘Solaris’ é um clássico da ficção científica publicado em 1961, agora e pela primeira vez com uma versão portuguesa traduzida diretamente do original polaco e com uma deliciosa recuperação do arcaico jargão científico da época. Transposto para cinema por dois dos mais reputados realizadores das duas nações espaciais, Andrei Tarkovski pela União Soviética em 1972 e Steven Soderbergh pelos Estados Unidos em 2002, ‘Solaris’, mais do que um romance sobre a epopeia do homem pelo espaço em busca de outros mundos e outras civilizações, é um livro filosófico que questiona o homem no seu âmago, os seus medos, as suas certezas, os seus cadáveres. Tem como personagem principal um astronauta, também psicólogo, que é enviado para uma estação espacial cuja tripulação aparenta ter perdido o controlo da situação, para tentar perceber o que aí se passa.

O astronauta

A estação espacial está na órbita de um planeta longínquo, Solaris, que é habitado por uma inteligência extraterrestre com a forma de um estranho oceano. E rapidamente a narrativa se vai centrar na relação entre o astronauta e essa inteligência, que lhe envia materializações dos seus desejos e recordações. No caso, da sua primeira esposa, que se suicidou e lhe deixou um pesado sentimento de culpa. O astronauta é assim confrontado com a imagem materializada da ex-mulher, a imagem dela tal como ficou gravada na sua mente, que ganha vida e por quem acaba por se apaixonar, apesar de todas as tentativas para dela se desenvencilhar e de saber que não passa de um simulacro.

E quando chega o momento de pôr definitivamente fim à ilusão, o astronauta questiona-se se é correto destruir uma miragem que lhe transmite tanta felicidade. E outras questões surgem então: serão as imagens materializadas uma tentativa de comunicação? Porque tentamos comunicar com o desconhecido? Porque procuramos civilizações alienígenas? São estas questões filosóficas que tornam ‘Solaris’ tão pertinente hoje como há 57 anos, quando foi publicado pela primeira vez.

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