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A doutora Teresa veio do Algarve

“Não, Moledo não tem a doçura das águas algarvias. O mar de Moledo desafia a consolação requerida por corpos fatigados por um ano de trabalho”
António Sousa Homem 12 de Agosto de 2012 às 15:00
O Alto Minho em fotografias antigas
O Alto Minho em fotografias antigas

No domingo da semana passada tivemos de cumprir a sereníssima obrigação mensal de almoçar no restaurante Ancoradouro. A operação exige alguns cuidados durante o Verão porque, se os princípios se fizeram para serem cumpridos, também é verdade que não se podem desperdiçar "manhãs gloriosas" de praia como as dos últimos dias; é necessário, portanto, conciliar o dever de parte da família se apresentar junto do toldo alugado à época desde há cerca de cinquenta anos sem interrupção, com o compromisso de nos apresentarmos à mesa a horas consideradas regulamentares. Os Homem são gente exímia na arte do compromisso; às duas horas lá estávamos, em número de oito, pedindo ou o gin inicial (a minha sobrinha Maria Luísa, por exemplo) ou a Água de Melgaço com rodela de limão, deixando para trás uma manhã gloriosa de praia.

A expressão "manhãs gloriosas de praia" não me pertence; foi a dra. Teresa, acabada de regressar das suas férias no Algarve, que a usou para as descrever, e certamente para as distinguir das manhãs de Moledo. "Claro que não se compara", como a dra. Teresa acrescentou, antes de regressar às colinas de Venade, mesmo acima de Caminha, onde as agruras do clima não se pressentem como aqui, diante da Ínsua e do vulto de Santa Tecla.

A verdade é que, quer durante a minha juventude e quer durante a minha idade adulta, a praia não tinha existência social propriamente dita. Estava a meio caminho entre o sanatório e o ginásio, como nos "romances termais" de final de século, e envolvia-a uma aura de romantismo fora de época, pouco português e certamente nada burguês. Dona Ester, minha mãe, achava que frequentar a praia servia de terapêutica do corpo e da alma, em simultâneo. Enquanto o meu pai ficava por algumas horas entregue à sua biblioteca, "para aproveitar parte das férias", ela lançava-nos às ondas frias e coroadas de sargaço, na crença de que corpos bronzeados resistiam melhor às gripes, e de que o iodo era a essência requerida para alimento das almas.

Não, Moledo não tem a doçura das águas algarvias. O mar de Moledo desafia a consolação requerida por corpos fatigados por um ano de trabalho. Se há época balnear, como se dizia no linguajar de antanho, é aqui que ela nasceu, entre o perfume dos pinhais e a ventania que varre as ondas. De vez em quando há uma manhã gloriosa de praia rasgando a neblina que cobre as ondas.

Tudo são mitos, explicava o velho Doutor Homem, meu pai, sorrindo à ideia de explicar o apelo de Moledo. No fundo, foi em Biarritz, e não nos trópicos, que ele pediu Dona Ester em casamento.

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