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A Europa de T. S. Eliot

Quanto mais os ingleses se mantivessem ligados à cultura do país onde tinham nascido, melhor seria para a Europa
Maria Filomena Mónica 13 de Outubro de 2019 às 12:53

As birras de Boris Johnson deixaram de ter graça. Não entendo como um homem inteligente
e dotado de um sentido de humor ímpar acabou por se tornar num bully, como recentemente o designou a sua irmã Rachel.

Muito menos o que o sinistro Dominic Cummings anda a fazer em 10, Downing Street. Este licenciado que obteve um First em Ancient and Modern History na Universidade de Oxford não gosta de ser considerado como fazendo parte das classes altas, pelo que optou por andar pelos cantos da     casa oficial com uma t-shirt suja e um cabelo oleoso.

O  principal responsável pelo caos no Reino Unido é David Cameron que cometeu a insanidade de fazer um referendo sobre a adesão à União Europeia, desta forma criando duas fontes de legitimidade.

Boris Johnson, um obsessivo-compulsivo que aparentemente esqueceu o que, em 1649, aconteceu a Charles I (o rei que tentou enfrentar o Parlamento acabando por ser decapitado), decidiu ‘prorrogar’ o Parlamento, um gesto que acaba de ser considerado pelo Supremo Tribunal da Justiça como ‘ilegal, nulo e sem efeito’. Se, por um lado, esta decisão revela o poder das instituições democráticas britânicas, por outro, mostra quão profunda é a crise que o país atravessa.

Ia alta a noite quando me veio à mente o que T. S. Eliot disse na Assembleia Geral da Alliance Française em Brighton em 1951, apenas seis anos desde o final da II Grande Guerra, ainda não havia sido assinado o Tratado de Roma, que daria origem à CEE. T. S. Eliot chamou a atenção para o facto de que ‘ser um bom europeu’ não significava necessariamente uma diminuição das lealdades locais ou nacionais. Eliot notava já um perigo: o de que alguns entusiastas do ideal europeu pudessem vir a sonhar com uma cultura europeia unificada que apagasse as diferenças regionais e locais. Um europeu em abstrato era, para ele, um contrassenso.

Quanto mais os ingleses se mantivessem ligados à cultura do país onde tinham nascido, melhor seria para a Europa. Só assim, uma União Europeia (termo que só mais tarde apareceu) teria a vitalidade necessária para enfrentar futuros contratempos. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. Nem em Inglaterra, nem em Portugal.

Livro

A obra que levaria para uma ilha deserta

Se algum dia me perguntarem que obra levaria para uma ilha deserta, esta seria a minha escolha. Não é a primeira vez que recomendo livros de Mark Twain. São todos admiráveis, mas nenhum tem, como este, a capacidade de nos fazer rir e de, ao mesmo tempo, nos obrigar a repensar o estereótipo masculino e feminino.

Tribunal Constitucional

Declaração de voto de leitura obrigatória

O Tribunal Constitucional discutiu a chamada ‘lei dos metadados’, que confere aos serviços de informação o poder de aceder às comunicações dos cidadãos. Para meu espanto, os juízes do TC mantiveram a maior parte das disposições. Com uma honrosa exceção, a do juiz João Pedro Caupers. Leiam a sua declaração de voto.

Livro

Um livro pequeno mas importante

Esta historiadora americana debate o nacionalismo, salientando a importância dos ideais cívicos dos EUA. Afirma: "Para que consigam ter uma ideia de si próprias, as nações precisam de uma narrativa consensual do seu passado. Podem obtê-la através de obras históricas ou através de demagogos, mas têm de a possuir."

FUGIR DE:
Guantanamo

Ainda há 40 prisioneiros retidos na prisão americana de Guantanamo, em Cuba. Dezoito anos passados após o atentado às Torres Gémeas, o que se passa é intolerável. Note-se que se trata de homens que nunca foram julgados. A atual situação é tão absurda que o Pentágono está a planear enviar equipamento médico destinado a velhos, uma vez que se prevê que o local não encerre antes de 2043.

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Além do equipamento referido, o departamento da defesa dos eua noticiou um contrato com a siemens no valor de quase 755 milhões de euros para o fornecimento, instalação e manutenção de material destinado à poupança e conservação de energia, incluindo iluminação, aquecimento, ar condicionado e refrigeração em guantanamo até abril de 2043

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