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Correio da Manhã

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A EXPO 98 MUDOU-ME A VIDA

A Dora, a Ana e a Gisela têm algo em comum. As suas vidas nunca mais foram as mesmas depois da Expo’ 98. Hoje, todas elas suspiram de saudades por um evento que conquistou Lisboa e os seus corações
25 de Maio de 2003 às 00:00
Um mês antes da Expo’ 98 abrir as portas, Dora Garcia, de 33 anos, começou a trabalhar na produção de espectáculos no palco do Jardim de Timor. Um desafio profissional que agarrou com ‘unhas e dentes’. Mas quando ‘pisou’ a Expo pela primeira vez, não ficou impressionada com a dimensão do recinto. “Duvidei de que as obras estivessem prontas a tempo e horas. A partir de 22 de Maio é que me rendi às evidências. Hoje, só posso tecer elogios à Expo’ 98. Foi uma experiência inesquecível. Os dias eram vívidos de uma forma intensa e as pessoas vestiram mesmo a ‘camisola’. O ambiente de trabalho era espectacular!”, recorda Dora, que durante os 132 dias da Exposição teve a oportunidade de conviver de perto com o público mais jovem: “A maioria dos grupos que actuavam no Jardim de Timor eram compostos por crianças, e eu adorava ver a reacção delas quando visitavam aquele espaço pela primeira vez. Algumas ficavam tão ‘embevecidas’ com a Exposição que até se esqueciam de que estavam ali para actuar”.
Apesar de ter tido pouco tempo para visitar alguns dos edifícios mais emblemáticos da Expo, Dora não hesita em confirmar que este evento mudou radicalmente a sua vida. Como? “Foi durante os primeiros meses da Expo’ 98 que descobri que estava grávida. Nessa altura, não imaginava que seriam gémeas! Nunca tinha pensado em dar esse passo tão importante, mas o facto de trabalhar diariamente com crianças, deu-me forças para encarar a gravidez com mais confiança”, confessa Dora, que já não consegue imaginar a sua vida sem a Catarina e a Margarida, de quatro anos.
O SEGREDO DAS ESTRELAS
Ana Azevedo viu o seu destino alterado do dia para a noite com o evento idealizado por Mega Ferreira e Vasco Graça Moura. “A minha vida profissional mudou radicalmente”, conta a rapariga de 28 anos, que tinha estudado para seguir uma carreira ligada ao desenho. Vinte e quatro horas depois do Dia das Mentiras, começava a trabalhar numa área que lhe era completamente estranha: a de logística de espectáculos. “A minha função era providenciar tudo o que os artistas convidados necessitavam”, conta. Uma função que lhe ‘abriu as portas’ do mundo secreto das estrelas. “Não me esqueço dos caprichos de uma cantora brasileira consagrada que exigiu uma mãe--de-santa, uma limousine de estofos brancos e um camarim virado para Sul”, revela Ana Azevedo, que um mês antes do tiro de partida para a exposição não acreditava no seu sucesso. “Estava tudo um pouco ao ‘Deus dará’ e só se via gente de capacetes na cabeça.” Mas no final como que por milagre, tudo funcionou às mil maravilhas. “Durante os sete meses que lá estive acabei por agarrar o evento como uma causa minha”, assegura.
Cinco anos depois, continua a trabalhar na área de promoção de espectáculos. “Acompanho os artistas de Norte a Sul do País.” E já nem quer ouvir falar do desenho.
AMOR NA EXPO
Meses antes de se realizar a Expo’ 98, Gisela já estava farta de ouvir falar daquele evento. “Nem sequer estava a pensar em visitá-la”, confessa. Daí que tenha torcido o nariz quando a informaram de que ia trabalhar para as Organizações Internacionais como vigilante.
“O mais curioso é que o ‘castigo’ depressa se transformou num prazer”, recorda. Durante os quatro meses de Verão perdeu a conta aos amigos que coleccionou e até acabou por conhecer o seu actual marido, que trabalhava igualmente como vigilante. “Começámos por ser simples amigos, mas um ano depois de nos cruzarmos pela primeira vez, já namorávamos. Não tenho dúvidas que a
Expo’ 98 mudou a minha vida sentimental”, revela.
Em Março de 1999, o seu contrato terminou, mas as saudades dos “dias longos e intensos” continuam a marcar cada minuto dos seus dias.
AMIGOS PARA SEMPRE
Teresa Madeira, Filipa Cornélia da Silva e Madalena Requixa conheceram-se durante os preparativos da Expo. Cinco anos depois, a sua amizade não esmoreceu. “Comecei a trabalhar na Expo em Janeiro de 1998, na área do Protocolo. Foi aí que conheci a Teresa Madeira”, conta Filipa. “Antes da abertura das portas, fui colocada na Unidade de Participantes e encontrei a Madalena Requixa, que continua a trabalhar comigo no Ministério dos Negócios Estrangeiros”, recorda. Além de ter as amizades, Filipa acabou por conhecer o seu futuro marido, Vasco, que na altura trabalhava no Departamento de Relações Externas. “Casámos em Maio de 1999 e já temos duas filhas, a Maria de três anos e a Carlota de sete meses”.
Teresa Madeira não conheceu o amor da sua vida na Expo, mas acumulou experiências únicas: “Na Unidade de Participantes entravam diariamente africanos, orientais e árabes com os seus trajes tradicionais. Não podia ser mais colorido!” O trabalho era duro mas Teresa conciliava-o com uma ‘fiesta’ constante. “Ao almoço podíamos provar diferentes sabores do mundo: o ‘couscous’ do restaurante da Tunísia, os picantes do pavilhão do Sri Lanka ou os bifes do restaurante do Uruguai”, diz Teresa, acrescentando: “A Expo deixou-me um bocado inebriada a pensar como a vida pode ser vivida de uma forma tão intensa. E pode mesmo!”
OS SONHOS DO ATLÂNTICO
Domingos Grilo e Mónica Basílio conheceram-se durante a Expo e ainda hoje trabalham para a Parque Expo, no Pavilhão Atlântico. “O facto de ter trabalhado de perto com Mega Ferreira mudou a minha maneira de encarar a vida. É um homem excepcional, cativante, dinâmico, nada vaidoso e sabe transmitir esse espírito a quem trabalha perto dele. Da Exposição, destaco a mudança de mentalidades dos portugueses: provaram que podem ser pessoas civilizadas”, remata.
Mónica Basílio, de 34 anos, acredita que a Expo juntou mas também separou muita gente. “Não tínhamos vida própria. Às vezes só tinha tempo de ir tomar um duche a casa e voltar. Mas corria por gosto.” Dos 132 dias da Expo destaca: “Conheci o arquitecto do Pavilhão do Brasil, o Comissário-adjunto do Pavilhão de Cabo Verde e até Ramos-Horta, pouco tempo depois dele ter recebido o Prémio Nobel da Paz”, conta. Um dos momentos que mais marcas lhe deixou foi a visita de Fernando Henrique Cardoso. “Nem faltou um plano de evacuação do Presidente do Brasil”. O último dia também foi inesquecível. “Numa viagem nocturna pelo teleférico, pude ver todo o recinto. Lá de cima, não se via um palmo de terra. Só cabeças. Foi magnífico. E à meia noite de 30 de Setembro, fartei-me de chorar junto ao rio. Era o culminar de um sonho.”
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