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Correio da Manhã

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A felicidade numa bola às três tabelas

Ele até nem deu uma grande volta para chegar ao bilhar mas o atraso inesperado inflacionou-lhe os nervos e o ar estremunhado. “Quando olhei para o relógio já eram 09h15. Tive que vir de táxi”, desabafa Ricardo Belo, 29 anos, atraiçoado pelo despertador. Travessos, os cigarros pulam do maço a uma velocidade vertiginosa. Emborca cafés de enfiada para desabotoar os olhos mas as pestanas de cima e de baixo não se querem divorciar. “De manhã é que se começa o dia!”, replica um colega, incentivando as hostes.
1 de Julho de 2007 às 00:00
Matosinhos: Taça do Mundo de Três Tabelas
Matosinhos: Taça do Mundo de Três Tabelas FOTO: António Pedrosa
O veto ao fumo só vale para quem não tem os ânimos em frangalhos. São poucos. A um canto, num compasso de espera, o chocolate adianta-se à nicotina para adocicar a tensão dos que resistem ao vício. “O Ambrósio deu-lhe um Ferrero Rocher!”, brincam.
Durante toda a semana, o Centro de Congressos e Desportos de Matosinhos foi o palco grande do bilhar. Os corredores, o salão nobre para o convívio ameno entre atletas e o espelho da ansiedade de quem compete. A arena está montada até hoje, dia em que se disputa a aguardada final da Taça do Mundo de Três Tabelas, uma das sete realizadas anualmente. Na segunda-feira, as pré pré pré-eliminatórias abriram as hostilidades antes da chegada da nata da modalidade. Para os últimos dos últimos, mais do que perder ou ganhar, participar foi a jogada certeira.
“No laboratório só me deram dois dias”, lamenta o lisboeta Ricardo, um dos poucos que não pôde meter férias de propósito para dizer presente. “Comecei por jogar snooker e depois por iniciativa de amigos comecei a jogar bilhar. Entro em competição há cinco anos”, conta o jogador da Casa de Tomar, entre o corropio de atletas. “Aqui é tudo completamente amador. Quem está a tratar das arbitragens é o Rui Manuel, o campeão nacional em título. E eu estou aqui a meter dados no nosso site e até a dar águas, se for preciso!”, explica o presidente da Federação Portuguesa de Bilhar, João Rafael, 41 anos, camuflado pelo ecrã do portátil que lhe suga a maior parte do tempo na sala reservada à organização, habitual vestiário.
COMPOR UM FIGURINO COXO
Num aperto de última hora, desenrasca-se um laço preto para compor um figurino coxo. Calça, sapatos, meia e cinto pretos, camisa branca, laço e colete. A roupa informal fica no balneário e assiste ao desfile do traje ‘A’ que se enfileira à boca de cena à espera da chamada. Pouco passa das 10 da manhã. “Aquele colete era para ser para mim... mas não me servia”, aponta Tiago Pedro. O acessório rubro com emblema do Benfica foi adornar o tronco menos robusto de um colega de equipa. Quando uma linha se insinua para além da casa de um dos botões, Tiago saca da bolsa um providencial canivete suíço para afinar as agulhas da indumentária. “Este gajo vem equipado com tudo!”, diz João Silva.
Previdência oportuna, para afugentar superstições – transversais a todos os ludos. “Há gajos que quando me estão a ver dão-me um grande galo. É muito um jogo psicológico. Há jogadores que se conhecem e jogam com as fraquezas dos adversários. Alguns detestam quando o outro demora muito tempo a jogar e têm que estar à espera”, confessa o benfiquista. “O bilharista é um bicho supercomplicado! É muito arreigado a desculpas absurdas, a superstições. Queixa-se da luz, do taco... Há de tudo como em qualquer jogo individual. O jogador quando perde nunca perde porque jogou mal! É muito emocional e exige altos níveis de concentração”, confirma João Rafael, pouco antes do início das sessões.
Na quinta mesa, da meia dúzia que habita o reconvertido campo de basquetebol onde as atenções convergem, Eduardo Pestana ultima a preparação antes do desafio. O copo de água banha a boca amiúde. O giz passeia-se pela sola do taco até atingir o ponto. A luva colorida aconchega a mão esquerda que ensaia o deslizar do taco. Os olhos distraem-se com o auditório. Cerca de 30 aficionados – bem mais de 50 quando se começam a lavar os cestos da jornada – debruçam as expectativas sobre os panos azuis onde o adversário, Domingos Azevedo, vai atestando os motores das bolas branca, amarela e encarnada, nos cinco minutos de aquecimento previsto. A taqueira, desmaiada sobre as costas da cadeira, já por si vale título, mesmo que o dono não dê de comer a expectativas altas. Os crachás cravejados na bolsa onde transporta o taco, cobrem-na por completo. “Um por cada chouriço!”, brinca Domingos Azevedo, campeão imbatível em originalidade.
O silêncio instala-se depois das saudações e do pontapé de saída. Em fundo, a dedicatória a Elise de Beethoven desinibe os reflexos para disputar a melhor de três. É preciso ganhar dois sets de 15 bolas para despachar o oponente. A carambola está na mira. A pontaria faz-se às três tabelas antes de encostar a respectiva bola às demais.
“Perdi 2-1 em cada jogo. Conheço bem o meu adversário, é mais forte”, admite Pestana ao cair do pano. Aos 63 anos, fez o debute numa Taça do Mundo. “É uma grande camaradagem, mas vive-se uma tensão terrível. É um jogo mental mas que também mexe muito com os reflexos.” Já despachado, mantém-se nas imediações. “Vou continuar a assistir, e volto para arbitrar daqui a pouco.”
O revezar faz parte. Como faz parte o bandear para o lado do público quando a marcha na arena fica pelo caminho. Simões Rodrigues, 71 anos, um dos mais idosos em prova despede-se das mesas mas não de Matosinhos. “Fui aviado... No primeiro jogo usei o taco do Rui Manuel e perdi por isso mesmo. Não tinha a minha ferramenta!” De pouco serviu o empréstimo do campeão nacional e a “conversa com o ego” para desanuviar o nervoso. ‘Andrade’ brioso, joga desde os 15 anos e estreou-se em competições aos 20. Os salões ainda não tinham perdido vez para os bancos e lojas, as modas do bilhar eram outras, mas os condimentos não mudaram. “O meu pai também gostava. Ao fim de três meses já lhe pregava uns capotes! Comecei pelo bilhar livre, hoje vão directamente para as três tabelas. Quando elas querem, jogamos, quando não querem, paciência!”
O JOGO ENERVA MUITO
‘Elas’, as bolas, que há três anos o viram debelar os tragos vorazes de tabaco. “O jogo enerva muito. Quando se podia fumar, cheguei a ter um cigarro na boca, outro aceso no cinzeiro e já ia ao bolso buscar outro.” Os tempos são outros. Frearam a poluição mas não puseram trela à idade, implacável. “A vista é que é um problema... conhecimento de bilhar tenho! Nos tempos áureos fui o primeiro da equipa do Porto. Mas dentro do saber é preciso sorte.”
A fórmula tem subscritores avisados. “Cada jogo é tão diferente um do outro, é preciso é saber. Porque este é um jogo de saber. Claro que às vezes há um chouriço, uma bola que parece que não dá, mas acaba por dar.” Incansável nas tarefas, a guardiã das senhas de almoço pondera a cadência das refeições. O dia já chegou a meio e as barrigas dão horas com ele. “A prova não pára. Tenho aqui as senhas para ver quem pode ir almoçando da organização”, explica Manuela Pinto, uma lufada de ar fresco na predominante toada de cromossomas Y. A holandesa Sílvia, que desembarca em Matosinhos a meio da semana para se juntar aos atletas, é outra das brisas entre o género oposto. “As mulheres contam-se pelos dedos, e de um maneta!”, brinca o presidente João Rafael.
Mas há dedo feminino na prova. Desde 1985 que Manuela, 56 anos, directora do FCP, é peça-chave na organização. Já lá vão 21 provas. “Estou habituada a lidar com 80 jogadores. Há sempre respeito. Temos feito tudo para que o bilhar se encontre numa variante desportiva. A prova tem um sustentáculo muito grande. Entramos às oito e saímos à meia-noite.” A bateria não entra na reserva e Manuela não economiza energias para puxar dos galões das ‘suas’ atletas. “Eu também jogava um bocado. O FCP é pioneiro na equipa feminina de pool. A campeã nacional também anda por aqui a trabalhar. Temos feito coisas maravilhosas. Somos considerados a melhor secção do Mundo em termos de organização. Todos os anos pomos aquela ‘pitada’ para voltar aqui. Este ano, a parceria com o Leixões tem sido fantástica.”
Uma pitada de dedicação, uma mão--cheia de histórias por narrar sobre uma modalidade que saltou do reduto enevoado dos cafés para os espaços livres de fumo, debaixo da sombrinha de clubes e salões. “Não há três tabelas nos cafés. Temos uma escola de pool e é daqui que os puxamos para as três tabelas”, continua, sem esquecer o elogio rasgado ao ‘dragão’ mais mediático, presença assídua na final da Taça que desvia o rumo das câmaras e objectivas. “Um dos grandes obreiros é o presidente Pinto da Costa. Sempre que ele aqui chega juntam-se cinco ou seis jornalistas à volta dele!”
Na segunda-feira a meio da tarde, ainda a meia dúzia de dias da chegada do esperado visitante, as atenções centram-se na mesa do fundo onde o coreano In-Won Kang mostra porque é o cabeça da série K e um dos primeiros do ranking do seu país. Voou 18 horas desde Seul – capital recordista absoluta do número de mesas de bilhar: 20 mil – para encontrar “um ambiente pacífico” descrito em gestos que completam o inglês macarrónico. “Ele fez um set em três entradas!”, distingue o adversário, já de saída, conformado com a superioridade alheia. “Fui triturado! O francês estava endiabrado”, lamenta-se mais um derrotado, de passeio pelos corredores. O fim da linha para muitos é a antecâmara de outros esperados desafios. Em Agosto/Setembro, o destino dos grandes seguidores da modalidade é Hurghada, no Egipto. Seguem-se México e Coreia no calendário das Taças do Mundo. Ao final do primeiro dia, ainda no Norte do país, os tomba-gigantes demoram a dar um ar de sua graça, mas ninguém duvida que a surpresa pode estar ao virar de cada mesa. Porque esta Taça também tem festa. Longe das quatro linhas. Perto das três tabelas.
À MESA COM A HISTÓRIA E COM AS MEMÓRIAS
As primeiras mesas de bilhar terão aparecido em França em 1469. O primeiro encontro é disputado em 1855 em S. Francisco na Califórnia, entre o americano Michel Phelan e o francês Damon. O bilhar de competição (inicialmente apenas com a carambola) nasce em Portugal em 1930, com a criação, no Porto, da Federação Portuguesa dos Amadores de Bilhar que, em 1932 organiza o III Campeonato do Mundo de Bilhar Livre. Só em 1936 nasce, em Lisboa, a Associação Portuguesa de Bilhar.
O português Alfredo Ferraz disputa competições internacionais, inscrito pela Federação de Espanha, antes de existirem em Portugal provas oficiais. Talento de excepção, chega a campeão do mundo em partida livre – o primeiro desportista português a conquistar um título mundial – a vice-campeão do mundo a uma tabela, modalidade então desconhecida em Portugal, a vice-campeão da Europa ao Quadro 47/2, sendo, ainda, o primeiro vencedor de uma prova de bilhar artístico, de âmbito internacional. Pela sua projecção, acabou por ser o responsável pela organização do bilhar desportivo português.
UM VIVEIRO DE JOVENS TALENTOS AZUIS E BRANCOS
No mais fértil dos actuais viveiros de bilharistas, o FCP, a aposta na renovação dos talentos promete diminuir a média de idades dos jogadores, superior a 40. João Ferreira, de 13 anos, o mais novo em prova, também deu uma perninha na Taça do Mundo. “Se aos 25 anos jogar bem às três tabelas é óptimo. Isto tem uma aprendizagem de um mínimo de dez anos”, considera João Rafael. Acabou por não levar a melhor mas ninguém ficou indiferente à jovem promessa azul e branca.
A partir de Setembro, Santos Oliveira, vice-campeão nacional, assegura a fomação das camadas jovens. “Vou ser monitor da escola de bilhar do FCP. Os miúdos devem vir para o bilhar. Ajuda no comportamento cívico e é uma mais-valia para o exercício mental”, confia. “Tentamos que os miúdos vejam o bilhar numa variante de desporto”, acrescenta a directora Manuela Pinto.
UMA GRANDE FAMÍLIA DE AMADORES E PROFISSIONAIS
Hobbie para a maioria, ocupação em full-time para os jogadores de topo mundial, a Taça do Mundo de Três Tabelas é um dos pretextos para a reunião de todos, pequenos e grandes, como o sueco Torbjorn Blomdahl, o espanhol Daniel Sanchez, o holandês Dick Jaspers ou o belga Frédéric Caudron, ocupantes dos lugares cimeiros do ranking mundial.
Com direito a ‘white card’, Rui Manuel, campeão nacional em título, jogador pelo FCP, entrou directamente na fase final, tal como Jorge Neto, do Leixões. O filho segue-lhe as tacadas. Chegou a disputar as eliminatórias Pré-locais, mas não conseguiu o apuramento.
NOTAS
AS BASES
As bases para a formação na modalidade têm raízes na Bélgica e na Holanda (onde o bilhar integra as disciplinas escolares optativas), mas os nomes grandes não moram só na Europa. Os ecos dos dotes dos bilharistas chegam em força da América do Sul (caso da Colômbia), da oriental Coreia e de países emergentes nestas lides como a Turquia. “Apareceram muitos jogadores novos daqui”, explica o presidente da Federação Portuguesa de Bilhar, João Rafael. Sangue novo que bule com os lugares das tabelas internacionais. A nacional também é permeável a mudanças. Rui Manuel, actual número um nacional, pôs fim à hegemonia do sportinguista Jorge Theriaga, nome forte dos leões que incluem no seu quadro de honra bilharistas como António Vinagre, protagonista de uma senda vitoriosa nas décadas de 60 e 70.
ORGANIZAÇÃO
Organização é palavra de ordem para quem tem assistido à evolução do estatuto do bilhar. “Joga-se o pool de café mas as três tabelas só se jogam nos clubes e salões, nos distritos do Porto, Coimbra, Lisboa, Setúbal e Évora. Há quem viva em Rio Maior e jogue pelo Leixões”, explica João Rafael. Novos ambientes, novas virtudes. “Por um lado, ainda bem que os miúdos não têm acesso nos cafés. Havia a conotação do vício, de gastar dinheiro para jogar, de beber e fumar. Hoje há alguma virtude, está mais organizado”, diz Santos Oliveira.
SEGUNDO ANO CONSECUTIVO
Pelo segundo ano consecutivo a organização da Taça do Mundo esteve a cargo do FCP, desta vez em parceria com o Leixões. Para o ano, os azuis e brancos repetem a dose, sob a alçada da UMB, União Mundial de Bilhar, organismo que remonta a 1956.
BELGAS, ITALIANOS OU COREANOS
A Taça do Mundo é um prato cheio de nacionalidades. Há um ano, o português Mário Gonçalves deu nas vistas ao conquistar o oitavo lugar.
RIGOR E JUVENTUDE
Rigor e Juventude são notas que se querem dominantes . Os preparativos dos atletas começam nos balneários, onde os equipamentos casuais dos bilharistas dão lugar ao traje a preceito. Entre o corpo de árbitros, da Associação de Bilhar do Porto, destacam-se jovens colaboradores, ao leme da marcação dos pontos.
11.º LUGAR
Foi o lugar ocupado por Portugal no ranking Mundial. A liderança é assegurada pela Turquia, seguida da Bélgica. 156 são os associados da Federação Portuguesa de Bilhar, entre clubes, associações, restaurantes, cafés, academias e afins.
TRÊS GRANDES SECTORES
Três grandes sectores abrangidos pela modalidade de bilhar: a Carambola, o Pool e o Snooker. O segundo é dos mais populares
OITO PROVAS
Oito é o número de provas nacionais, que decorrem entre Outubro e Junho. Três torneios abertos, Taça de Portugal individual, Taça de Portugal por equipas, campeonato individual, campeonato por equipas e Supertaça.
AO VIVO, A CORES E EM NÚMEROS
170 bilharistas de 22 países participaram na Taça do Mundo de Bilhar. Dos 36 que disputaram as Pré Pré Pré-Eliminatórias, transitaram 12 para as Pré Pré-Eliminatórias. Para alguns, a qualificação dependeu ainda dos desafios Pré-Locais.
80 é o número arredondado de elementos da organização do evento. A fase final arrancou na sexta-feira, com 8 jogadores provenientes das Confederações de Bilhar, mais os 12 primeiros dos rankings, mais 12 apurados durante a última semana.
5 mil euros é o ‘prize money’ que o grande vencedor do torneio leva para casa. Segundo a organização, o orçamento para esta edição situa-se acima dos 100 mil euros, mais de 30 mil destinam-se a prémios.
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