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A fórmula de José Rodrigues dos Santos

Cinco livros (o sexto foi agora publicado). 2621 páginas (mais as 611 do último). 640 mil exemplares vendidos. Ele é um dos autores de maior sucesso em Portugal. Tem as orelhas grandes. Já adivinhou quem é?
26 de Outubro de 2008 às 00:00
Romances curtos não são com ele. ‘A Ilha das Trevas’ tem 356 páginas, ‘A Filha do Capitão’ 636, ‘O Codex 632’ tem 552, ‘A Fórmula de Deus’ 576, ‘O Sétimo Selo’ 501 e ‘A Vida...’ 611.
Romances curtos não são com ele. ‘A Ilha das Trevas’ tem 356 páginas, ‘A Filha do Capitão’ 636, ‘O Codex 632’ tem 552, ‘A Fórmula de Deus’ 576, ‘O Sétimo Selo’ 501 e ‘A Vida...’ 611. FOTO: João Miguel Rodrigues

Só em Portugal já vendeu mais de 640 mil livros. Sempre livros ‘gordos’. O mais recente, ‘A Vida num Sopro’, não foge ao cânone – tem 611 páginas. Mas, desta vez, José Rodrigues dos Santos deu descanso a ‘Tomás de Noronha’, antes chamado a resolver os mistérios da origem de Cristóvão Colombo e da existência de Deus, sem esquecer a crise energética, em ‘O Codex 632’, ‘A Fórmula de Deus’ e ‘O Sétimo Selo’, respectivamente. 'Não pode andar sempre metido em aventuras, isso até faz mal à saúde', explica o escritor e jornalista que, em ‘A Vida num Sopro’, mergulha no século XX português. 'Acho importante não me tornar previsível. Gosto de surpreender os meus leitores.' Surpreendê-los pelo tema, porque a fórmula literária é a mesma: uma boa história e escrita simples.

Tal como ‘AFilha doCapitão’, prévio à trilogia protagonizada por ‘Tomás de Noronha’, ‘A Vida num Sopro’ tem pontos de contacto com a história familiar de José Rodrigues dos Santos – ‘Amélia’ e ‘Luís’ são inspirados nos avós maternos, que também se conheceram no liceu de Bragança. O que a mãe e a tia Rosalina do escritor lhe foram contando acerca deles permitiu-lhe desenvolver as personagens. 'Procurei reinventar a história da minha família para mostrar o que era viver em Portugal na década de 30.'

Em ‘A Filha doCapitão’, o pano de fundo histórico foi a participação portuguesa na IGuerra Mundial. Em ‘A Vida num Sopro’ são os primeiros anos do Estado Novo. Polémica à vista, pois José Rodrigues dos Santos quis, assumidamente, 'olhar o salazarismo para além das ideias feitas'. Oque, a páginas tantas, ‘Fernando’, companheiro de estudos de ‘Luís’, faz é a apologia da limpeza da casa nacional após a rebaldaria que significara a I República.

Tem a palavra o autor:'A História é escrita pelos vencedores, que tendem a demonizar os vencidos. O Estado Novo é consequentemente demonizado no discurso ideológico que se seguiu à Revolução de Abril. Mas há um facto que é incontestável, embora seja muitas vezes ocultado:na década de 30, quando apareceu, Salazar era de facto uma figura muito popular.' Não se pense, contudo, que esta tentativa de compreender a popularidade do ditador impede Rodrigues dos Santos de fazer com que ‘Luís’ – nem de longe militante comunista – experimente os calabouços da então ainda PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). A vida é mais complexa do que isso. E os livros também.

'Dorme, mãe Pátria, nula e postergada.' É um verso de Fernando Pessoa importante no decurso e, especialmente, no final da narrativa de 'A Vida num Sopro'. José Rodrigues dos Santos viveu sob o Estado Novo, mas era muito jovem para entender o que se passava à volta, para se aperceber do adormecimento. Nasceu na Beira, em Moçambique, no dia 1 de Abril de 1964. Opai era o director do hospital de Tete.

Depois do 25 de Abril, Rodrigues dos Santos viveu em casa de uma tia, em Benfica. Tempos difíceis. Primeiro vieram ele e o irmão. Depois a mãe. Mais tarde o pai, que tinha a família em Penafiel. Pai e filho moraram lá antes de rumarem a Macau, onde José, com 15 anos, se iniciou no jornalismo.

José Rodrigues dos Santos não conhece o tão famoso ‘bloqueio de escritor’. Já está a escrever um novo livro. O tema 'a seu tempo se saberá'. Mas uma coisa é certa: 'A História de Portugal é riquíssima, tem terreno fértil para boa ficção. Uma vez um inglês disse-me que os portugueses têm uma História fantástica, o problema é que não a sabem vender. Por que não usar a ficção para reconstituir as extraordinárias histórias que estão para contar?'

No que lhe respeita, já provou que é capaz de vender livros:45 mil exemplares de ‘A Ilha das Trevas’, com narrativa situada em Timor ocupado pela Indonésia, 100 mil de ‘A Filha doCapitão’, 150 mil de ‘A Fórmula de Deus’, 160 mil de ‘O Codex 632’, outros 160 mil de ‘O Sétimo Selo’. Oúltimo, apresentado quinta-feira, tem uma primeira tiragem de 50 mil exemplares.

Não há casamento obrigatório entre quantidade e qualidade. Mas o divórcio também não é fatal como o destino. 'Há bons livros que vendem muito, há bons livros que vendem pouco, há maus livros que vendem pouco e há maus livros que vendem muito.' Assim cobertas as possibilidades, cruzadas todas as variáveis, fica a pergunta:'Oque é um bom livro?' Para José Rodrigues dos Santos 'é aquele que está bem escrito e conta uma boa história. Se o romance está bem escrito mas a história não presta, o romance não é bom. Se a história é muito boa mas o romance está mal escrito também não é bom.' Pelo visto, ou melhor, lido, os portugueses consideram que os romances dele estão bem escritos. E têm boas histórias.

TEMPO PARA TUDO

José Rodrigues dos Santos começou a escrever ‘A Vida num Sopro’ em 2005, semanas antes de lançar ‘OCodex 632’. A ideia para ‘A Fórmula de Deus’ levou-o a interromper o processo. Seguiu-se ‘OSétimo Selo’. Pretendendo, por um lado, dar uma pausa a ‘Tomás de Noronha’, por outro surpreender os leitores, retomou ‘A Vida num Sopro’, que agora dá a conhecer. É com esta caneta e neste bloco que assenta as ideias para os seus livros. O relógio precisa dele para controlar o tempo.José Rodrigues dos Santos levanta-se cedo para escrever. Depois vai para a RTPou dar aulas. É preciso disciplina para equilibrar tudo, sem esquecer a atenção que as duas filhas requerem.

MUNDO LITERÁRIO

De um lado Somerset Maugham, V. S. Naipaul, prémio Nobel da Literatura em 2001, e Eça de Queiroz. Do outro John Grisham e Stephen King. São as referências literárias de José Rodrigues dos Santos. Uns e outros "contam boas histórias com recurso a um texto simples e elegante". Para Rodrigues dos Santos, as palavras estão ao serviço da história e não ao contrário. Dos livros que escreve espera que sejam "fáceis de ler, que haja sempre algo a acontecer e que os leitores aprendam alguma coisa com eles"

SALAZAR

"Na década de 30, Salazar era, de facto, uma figura popular. E a pergunta que se coloca é:se ele era assim tão mau, por que razão os portugueses gostavam dele?‘A Vida num Sopro’ foi à procura de respostas."

‘TOMÁS DE NORONHA’

"Anda na sua vidinha e faz ele bem! Não pode andar sempre metido em aventuras." Perito em criptanálise, ‘Tomás de Noronha’ protagoniza ‘O Codex 632’, ‘OSétimo Selo’ e ‘A Fórmula de Deus’.

OS AVÓS

"As personagens de ‘A Vida num Sopro’ são os meus avós. Os meus avós maternos, Luís e Amélia, conheceram-se no liceu de Bragança. Os paternos eram de Penafiel. Introduzi a premissa ficcional: e se os meus avós maternos se tivessem cruzado com os paternos?"

ÁFICA

"Eu vivi sob o Estado Novo, em Moçambique, mas era muito novo para ter um entendimento do que se passava à minha volta. ARevolução de 1974 ocorreu quando eu tinha 10 anos."

O  CÃO NILO

"Existiu mesmo. Diz a minha mãe que foi o cão mais inteligente que alguma vez conheceu. Era tão esperto que ia sozinho às compras. O Nilo merecia estar neste romance [‘A Vida. num Sopro’...]"

MESTRES

"Admiro a simplicidade de escrita de Somerset Maugham, V. S. Naipaul e Eça de Queiroz e, num pólo totalmente diferente, de John Grisham e Stephen King. Todos eles contam boas histórias com recurso a um texto simples e elegante."

MACAU

"Macau é uma hipótese [de inspiração para um novo livro]. Como dizem os americanos, o céu é o limite." Aos 15 anos, Rodrigues dos Santos foi para Macau com o pai.

BEST-SELLERS

"Claro que um best--seller pode ser um bom livro. Um bom romance é aquele que está bem escrito e conta uma boa história. Do meu ponto de vista, bem escrito não significa recurso a uma escrita difícil."

AMORES

"O que seria um livro a relatar um amor feliz para sempre?Um bocejo!Um amor desencontrado é muito mais interessante. Acontecem imensas coisas, há muitos conflitos, traições."

CINEMA

"Se as condições forem certas, gostaria de ver ‘A Vida num Sopro’ adaptado ao cinema ou à televisão." Leonel Vieira vai adaptar ‘A Ilha das Trevas". Por outro lado, Rodrigues dos Santos gostava que Tom Hanks fosse ‘Tomás de Noronha’.

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