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Correio da Manhã

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A FRAQUEZA DO SEXO FORTE

Será o homem de hoje menos homem do que há meio século? Se atendermos ao número de espermatozóides, parece que sim. A infertilidade masculina está a tornar-se num verdadeiro problema de saúde pública
12 de Julho de 2002 às 17:49
Estará a humanidade condenada a desaparecer como aconteceu com os dinossauros? Os cientistas deram o alerta: a qualidade do sémen humano baixou de forma dramática nas últimas cinco décadas. O número de espermatozóides, assim como a agilidade para alcançar o óvulo feminino, foram reduzidos a metade, segundo diversos estudos europeus e norte-americanos.

A concentração de espermatozóides não parou de diminuir na segunda metade do séc. XX e a dos homens de hoje é metade da dos seus avós na mesma idade. Na realidade, essa concentração era, em média, de 89 milhões por mililitro de sémen em 1973, e caiu agora para 60 milhões, ou seja um decréscimo de 2,1% ao ano. Para já não falar dos 113 milhões de há 50 anos, praticamente o dobro da concentração de hoje.

A OMS estima que um mínimo de 20 milhões de espermatozóides por mililitro de sémen é necessário para uma fecundação normal e, hoje, um em cada cinco homens não atinge sequer esse limiar. A isto junta-se uma quebra sensível do volume médio de sémen em cada ejaculação. Um homem é considerado infértil ou subfértil se produz menos de cinco milhões de espermatozóides por mililitro, condição que afecta um em cada 20 homens.

Há ainda que contar com o número de espermatozóides normais (em geral existem muitos espermatozóides anormais), que era de 67 por cento em 1973 e de 57 por cento em 1992. Esta descida é independente da idade dos dadores e da duração dos períodos de abstinência, factor que afecta a qualidade do esperma.

Os cientistas ainda não têm explicação para tão significativa descida da fertilidade masculina em tão curto espaço de tempo, muito mais acentuada nos países industrializados. Pode, contudo, evocar-se as modificações do nosso meio ambiente e do nosso modo de vida, tal como o stress, o aumento do consumo de tabaco, a moda das calças demasiadamente apertadas — tendo por efeito o aumento do calor dos testículos, o que não é bom para o desenvolvimento dos espermatozóides —, as fontes de radiação ionizante e de metais pesados e, inclusivamente, suspeitam da utilização em excesso da sauna, que pode afectar a qualidade do sémen...

Muitos associam-na ainda ao aumento da incidência de certas patologias do aparelho genital masculino (cancros do testículo, em particular, que triplicaram no espaço de 50 anos, ou infecções das vias genitais por uma doença de transmissão sexual).

Em cada segundo, os testículos do homem produzem cerca de 1500 jovens espermatozóides que levam 72 dias a amadurecerem. E apesar de ser necessária apenas uma destas células para fertilizar o óvulo, um varão pode chegar a ejacular mil milhões de espermatozóides de uma só vez, embora a média se situe muito mais abaixo. Tal produção de gâmetas corresponde a uma estratégia biológica para assegurar a fecundação: desses apenas um em cada cem alcançará o óvulo e um único fará a fecundação.

Para os especialistas, falar de qualidade é sinónimo de mobilidade. E aqui os espermatozóides dividem--se em três grupos. Num centímetro cúbico de sémen normal deve haver 30 por cento do grupo III, que tem uma mobilidade activa e progressiva muito forte; uns 30 por cento do grupo II, algo menos vigoroso; entre 10 e 12 por cento do grupo I, que ficam sempre para trás; e uns 30 por cento de imóveis. O que está a acontecer nas contagens — os chamados espermiogramas — é que o grupo dos «atléticos» se reduziu até uma terça parte.

Pesticidas ameaçam reprodução humana

Para a maioria dos cientistas, a causa da descida do número e capacidade de movimento dos espermatozóides tem a ver com o facto de os seres humanos terem armazenado no seu corpo, durante os últimos 50 anos, uma importante quantidade de produtos químicos sintéticos, igual, afinal, à que ocorreu com os restantes seres vivos, com consequências estudadas e conhecidas – alterações no seu comportamento e sexualidade, abandono das obrigações de paternidade e maternidade e deformações em órgãos reprodutores.

Desses químicos destacam--se os policlorobifenilos, ou PCB — um grupo de substâncias químicas muito utilizadas, há 30 anos, pela indústria como isolantes em transformadores e geradores eléctricos e que acabaram por ser proibidos nos anos 70 devido à sua grande toxicidade e por não serem biodegradáveis — certos pesticidas, como o DDT, dioxinas e outros produtos químicos que se encontram em quantidades cada vez mais importantes no nosso quotidiano.

São compostos que ainda persistem no meio ambiente e se acumulam na cadeia alimentar, concretamente nas gorduras e nas águas e que actuam como hormonas sexuais femininas. Ao integrarem-se no homem, interferem na síntese do sémen.

Em todo o caso, dever-se-á compreender melhor este fenómeno logo que se disponha de dados geográficos, o que permitirá saber se se trata de um fenómeno característico de certos grupos específicos da população ou, pelo contrário, muito mais abrangente.

Ironia é o facto de, no preciso momento em que se produz esta lenta e persistente diminuição da qualidade do sémen, terem sido aperfeiçoadas as técnicas de assistência médica à procriação. Técnicas essas que, todavia, não solucionarão o problema, dado tratarem-se de soluções terapêuticas para casos de esterilidade pontuais e não massivas.

Quanto a saber se o fenómeno vai perdurar ou ainda aumentar, ninguém consegue responder com exactidão. Um dos problemas com que se debatem os cientistas ao tentar descobrir um elemento químico que seja tóxico para a fertilidade masculina é o de não saberem demasiado sobre os factores que conduzem à fabricação de espermatozóides.

Sabem apenas que o que o homem produz na sua ejaculação é o resultado do que ocorreu nas últimas 10 semanas, porque cada célula de espermatozóide leva esse tempo a desenvolver-se. Alguns cientistas duvidam mesmo da versão contaminantes ambientais. Há, antes, necessidade de conhecer com detalhe o mecanismo biológico de fabricação dos gâmetas masculinos para saber com antecipação se está a ocorrer algo de errado nas tubulosas paredes do testículo.

No entanto, dois números permitem medir o risco: a fertilidade de um homem está ameaçada quando a concentração de espermatozóides se avizinha dos 20 milhões por mililitro e abaixo dos 5 milhões há um verdadeiro risco de esterilidade masculina. Um aviso para que se lute por uma melhor qualidade de vida.

Orgulho ferido

Embora o varão ocidental apenas utilize na sua vida um par de espermatozóides para procriar, a possibilidade de uma crise real não deixa de ser alarmante. O homem continua a ter relutância em admitir que é a causa da infertilidade no casal, mas a verdade é que, segundo a Organização Mundial de Saúde, é “culpado” em 33 por cento dos casos, contra 25% da mulher (20% é atribuída a ambos e na restante percentagem não se conseguiu determinar por que o casal não conseguia ter filhos).

Assim, os tratamentos de fertilização devem agora incidir sobretudo nos homens, de acordo com o presidente da Sociedade Europeia de Reprodução e Embriologia Humana, Hans Evers. Segundo este especialista, se a ciência descobrisse uma forma de reverter o baixo número de espermatazóides, a procura pela fertilização in vitro e técnicas de fertilização em geral cairia para metade entre as mulheres.
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