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A grande mãe alemã

Dizem que é tímida e sem carisma. Mas é a favorita pelo rigor, pragmatismo e pela frugalidade, bem ao espírito alemão
22 de Setembro de 2013 às 15:00
A grande mãe alemã
A grande mãe alemã

Dizem que usa um sorriso desajeitado para se defender de uma timidez enorme. Que nem sempre tem resposta na ponta da língua e que o carisma não é o seu forte. Ainda assim, Angela Merkel é a mulher mais poderosa do Mundo, de acordo com a revista ‘Forbes’, e a grande favorita para a vitória, hoje, nas eleições alemãs.

Apesar da crise económica que vem abrindo feridas na coesão europeia e colocando a Alemanha na dianteira de soluções que não primam pela popularidade, a chanceler alemã, de 59 anos, casada e sem filhos, mantém a firmeza e uma reputação inabalável. Mesmo quando a controvérsia lhe bate à porta.

Angela Dorothea Merkel, nascida a 17 de julho de 1954, sentiu os reveses do poder na pele em abril deste ano, quando uma foto alegadamente sua, a praticar nudismo nos anos 70, provocou um ruidoso burburinho a nível mundial. Durante dias, comentaram-se em redes sociais e programas de televisão as parecenças físicas da jovem da foto com a chanceler alemã, que esta nunca desmentiu. Pelo contrário. Pouco depois da polémica estalar, Merkel era fotografada num elegante fato de banho preto e páreo verde-alface, a banhar-se nas cálidas águas do Sul de Itália, ao lado do marido, o professor de química Joachim Sauer, divorciado e pai de dois rapazes, com os quais a ‘dama de aço’ da Alemanha mantém uma relação "cordial".

Apesar de conservadora na política, o tradicionalismo não faz parte da vida privada de Merkel, que já antes tinha sido casada com Ulrich Merkel, um colega da faculdade, aos 23 anos. "O casamento aconteceu simplesmente porque era isso que todos faziam na época", afirmou no passado. Divorciou-se cinco anos depois e terá conhecido o atual companheiro aos 32 anos, ao qual dedicou um agradecimento na tese de doutoramento em Física.

A Física, contudo, foi sol de pouca dura na sua vida. Nascida em Hamburgo, criada no Leste, a 80 km de Berlim, Merkel envolveu-se na política quando o regime comunista começou a ruir, e em fevereiro de 1990 deixou definitivamente a ciência e entrou para as fileiras da CDU.

ALUNA APLICADA 

A atual chanceler é filha de um casal de pastores luteranos de Hamburgo, que trocou a cidade pela Alemanha Oriental comunista. Mas ali a família de Angela nunca foi igual às do Leste. Recebia correspondências e pacotes do lado Oeste. Por isso, ao contrário de outras meninas, Angela usava jeans e dispunha de certos confortos que os seus vizinhos não se podiam permitir. Mas com a construção do muro de Berlim, a 13 de agosto de 1961, acabaram-se as viagens para Hamburgo.

Os biógrafos retratam Angela Merkel como uma aluna aplicada, sempre a melhor da classe, mas que não era competitiva. Não há grande unanimidade sobre o seu pai, que se manteve entre a crítica e a adaptação ao regime e que pode eventualmente ter tido uma curta relação com a Stasi (os serviços secretos da antiga RDA).

Mas o detalhe mais inquietante da história da chanceler foi recentemente revelado numa biografia publicada este mês na Alemanha com o título ‘Angela Merkel – A Chanceler e o seu Mundo’. Segundo a obra, a chanceler terá ascendência polaca, mas escondeu-a na sua biografia oficial. A fazer fé no texto de Stefan Kornelius, durante muitos anos a chanceler respondeu pelo nome de Angela Kasner, apelido inventado pelo avô, Ludwig Kazmierczak, em 1930, depois de ter deixado Poznan, na sua Polónia natal, com destino à Alemanha. A família deslocar-se-ia assiduamente entre Poznan, na Polónia, e a Alemanha, pois Poznan era um território que fazia parte do império alemão até à derrota na I Guerra Mundial e que só foi devolvido na sequência do Tratado de Versalhes. Foi, aliás, nessa altura que o avô de Merkel se mudou para Berlim e casou com Margarethe. O casal foi pai de Horst em 1926 (o pai de Angela), e alterou o nome de Kazmierczak para Kasner em 1930. As origens de Merkel foram confirmadas pelo porta-voz da chanceler alemã, Steffen Seibert. No passado, Angela Merkel só uma vez se referiu ao avô polaco, numa cerimónia religiosa em 1995 em Hamburgo, onde nasceu em 1954.

Curiosamente, os líderes alemães parecem ter uma natural propensão para esconder as suas verdadeiras origens familiares. Antes de a mulher mais poderosa do Mundo o fazer, também Adolf Hitler omitiu a sua origem austríaca...

As raízes valeram-lhe ainda críticas do seu principal adversário, o candidato de esquerda Peer Steinbrueck, que culpou Angela de "não ser uma apaixonada pela Europa por ter crescido na RDA".

GAFES E FATOS 

Política à parte, a vida de Angela Merkel é mais rigorosa e cinzentona do que propriamente badalada. Até na roupa. Os seus fatos de calça e casaco ficaram famosos por serem (aparentemente) sempre iguais, embora repetidos em todas as cores possíveis. A falta de originalidade levou o designer de moda Karl Lagerfeld a oferecer à sua compatriota um conselho: "Vista umas calças de melhor corte e use os casacos desabotoados." O resultado parece ter sido nulo. A austeridade é quem mais ordena no guarda-roupa de Merkel, criado por Bettina Schoenbach.

O que até pode ser bom, pois quando varia, todos notam. O colar que Merkel usou recentemente num debate televisivo contra o rival Peer Steinbrueck, com contas metálicas nas cores nacionais – vermelho, amarelo e preto –, ganhou uma conta própria no Twitter, com milhares de seguidores. Na referida conta, e ao longo dos 90 minutos de debate, o ‘colar’ ganhou vida para mimar os utilizadores com comentários zombeteiros como: "Você quer realmente esta mulher pendurada no seu pescoço por mais quatro anos? Acredite em mim, como colar eu sei do que falo."

Uma das suas gafes mais famosas, todavia, aconteceu na visita a uma escola, onde foi submetida a um exame-surpresa de Geografia… A mais poderosa da Europa assinalou a capital do seu país em território russo...

Como é habitual nestes acontecimentos, o vídeo do erro deu a volta ao Mundo na internet e colheu muitas críticas. Nada que abale a sua reputação. Numa das suas recentes edições, a revista ‘The Economist’ considerava esta mulher "frugal, pragmática e despretensiosa" o "par de mãos mais seguro" para a Europa. Por isso, mesmo com fatos feios e sorrisos amarelos, Merkel, a ministra que nos anos 90 Helmut Kohl tratava por "minha menina" e os alemães apelidam agora de ‘Muti’ – mãe – vai pouco formosa mas segura à frente das sondagens que lhe conferem a vitória este domingo.

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